Extendendo um pouco o post anterior.
Sabem, eu sei que os brasileiros estão cansados da bandalheira política, da violência, da inflação, e de tantas outras coisas, mas sinceramente, acho que muitos tem uma idéia equivocada do que é a vida no exterior.
A grande maioria fala sobre a desigualdade social, e logo acham que aqui na Holanda por exemplo, onde a desigualdade é infinitamente menor, as diferenças não existem porque todo mundo ganha bem e tá nadando na grana. Doce ilusão. É como me disseram quando eu mudei pra cá, esse é o governo Robin Hood, que tira dos ricos pra dar aos pobres.
Se vocês olhassem meu salário bruto, ai ai, eu até suspiro de pensar. E embora o imposto seja escalonado, todos os meses 48% do meu salário não é depositado na minha conta. Entre imposto e o tal fundo de pensão, quase a metade se vai. E não volta. Não volta porque os benefícios também são escalonados. Por eu ganhar bem, não tenho direito ao plano de saúde subsidiado, tenho que pagar o mais caro mesmo. Se eu tivesse filhos, a creche ía puxar uma listinha de subsídio do governo, e baseado na renda familiar me daria de volta apenas 8% da mensalidade, enquanto famílias de baixa renda chegam a receber 60% da mensalidade de volta ( lembrando que a mensalidade de uma creche 5X por semana periodo integral custa na casa dos 1500 euros ). A igualdade social vem não de todo mundo ganhar bem, mas dos que ganham bem pagarem mais e terem menos direito a benefícios.
Quando mudei pra cá, com minha mente capitalista paulistana classe média, eu achei tudo isso muito injusto. Uma das coisas mais injustas pra mim era o lance de quem não poder pagar prestação ou aluguel ter direito a casas "sociais", uma casa patrocinada pelo governo com aluguel de conto de fadas. Eu pensava, ué, quem não pode pagar aluguel que alugue um apartamentinho mais simples, ou vá morar com os pais, o que não é justo é eu pagar uma fortuna de imposto pra esse fulano morar quase de graça. Mas a verdade é que holandês não mantém essas casas sociais porque são bonzinhos e querem que mesmo o pobre tenha certa dignidade ao morar. Balela. O que o povo aqui não quer é ver favela, porque é o que acaba acontecendo. E como diz um colega meu, o que era pra ser um benefício temporário, pra uma dificuldade na vida, você ser ajudado 3 ou 4 anos até conseguir se levantar e seguir em frente, vira permanente, depois que alguém entra no esquema de benefício, raramente sai. O que acaba meio que compromentendo a filosofia do negócio, porque se te acontece alguma coisa e você precisa da ajuda, meio que se lascou, porque a fila é imensa, aqui em Eindhoven passou dos 3 anos de espera. E quem consegue o benefício agarra-se com unhas e dentes, muitas vezes até chega o dia em que o cara tá ganhando melhorzinho, mas vai pagar 400 euros a mais de aluguel pra quê?
No meu teste de integração tinha uma pergunta: sua família tem baixa renda e seus filhos querem ir à piscina publica no verão. Se você não tem dinheiro pra comprar o passe, o que você faz? Era de multipla escolha, podia escolher vai à secretaria do clube e pede pra entrar de graça, não vai ao clube, pede um passe gratuito na assistência social da cidade. Eu escolhi não vai ao clube, afinal assistência social é pra coisa séria, e estava errado, o certo é ir pedir passe de piscina na assistência social. Eu fiquei indignada, e a professora disse que um adolescente excluído é mais suscetível à drogas e criminalidade, logo, paguemos passe pra piscina do coitado, afinal a gente não quer viver no meio de drogados e trombadinhas.
Nesses meus 7 anos eu já aprendi muito, mas ainda tenho um loooongo caminho a percorrer. Por exemplo, eu acho que o sistema da creche é péssimo. Em Portugal por exemplo me disseram que um "infantário" custa ao redor de 200 euros por mês. Que aqui fosse 500, mas que fosse o mesmo preço pra todo mundo. Não pode pagar? Não tenha filhos, ué. Todo mundo tem que morar em algum lugar, todo mundo tem que ir ao médico, todo mundo tem que estudar, então até concordo em subsidiar tudo isso, mas filho - ninguém depende de ter filho pra poder viver. Aí meus colegas me dizem que eu sou esnobe, que só os ricos teriam filhos, que pobre também tem sonho e o direito de ser feliz.
E aí eu lembro da música da Jani e Erondi ( ou da Sorvetão e do Conrado ), aquele trecho: pensam que a pobreza é lixo, e que rapaz pobre não tem coração.
Mas então, falei, falei e não disse nada, né? Mas só pra fechar o post mais bonitinho, eu ainda não gosto de pagar tanto imposto. Estou me escalpelando de trabalhar porque quero ser promovida no ano que vem, mas todo esse trabalho vai me gerar um dinheirinho que acabará mais na metade na mão do Balkanende. Mas quando eu penso que aqui não tem favela ( só as casas sociais ), que aqui não tem (quase) trombadinha e que o povo nunca ouviu falar em sequestro-relâmpago, penso que é melhor eu continuar com a minha contribuição involuntária. Afinal, é muito mais fácil estar na minha posição, a de quem não gosta mas pode pagar, do que na posição daquele que se não receber ajuda do governo não pode pagar o aluguel.
Agora por curiosidade, quem mora em outro país, quanto se paga de imposto por aí?


