Imigrante na Holanda normalmente reclama do serviço médico daqui, só conheço uma brasileira que não reclama, uma médica.
Acho difícil compara com o Brasil, já que quem pode pagar um bom convênio médico tem um atendimento ótimo, mas quem não pode pena no SUS, então comparar com que nível? Mas entendo quem ( como eu ), vem pra cá e paga imposto alto, paga 200 euros por mês de seguro, e ainda tem que tolerar o tal médico de família te receitando paracetamol pra infecção no olho, e dando todas as desculpas possíveis pra não te mandar prum especialista.
Só pra esclarecer pra quem não mora aqui, na Holanda se você tem uma conjuntivite você não pode pegar um livrinho de endereços, ligar pra um oftalmologista, marcar consulta e ser feliz. Aqui você tem que ir pro médico de família e ele vai te guiar pro especialista. Acontece que esse sujeito é treinado pra tentar curar toda e qualquer maladia antes de mandar o paciente pro especialista. Na minha humilde opinião, holandês acha que o corpo "se cura" sozinho, então é só tomar algo paliativo, daí a mania pelo paracetamol.
O paracetamol pra conjuntivite não é piada, aconteceu com uma das comadres. No Brasil, o médico te vê com aquele olhão inchado, vermelhão, lacrimejanto ( é horrível, dá vontade de chorar ) e te dá colírio com anti-anflamatório, manda fazer compressas com água boricada, te dá um analgésico e em uns 3 dias você está melhor. Esse colírio é o bicho, alivia que é uma beleza. Aqui eles pensam, a doença vai seguir seu curso, gastar $$$ do governo pra quê? Então ele te receita paracetamol e pronto, dane-se que você vai comer o pão que o diabo amassou por 3 dias. Morrer não vai. Blé.
Mas vamos dar crédito ao que merece crédito. Vou continuar falando mal pra depois falar bem. Primeiro que você tem que acertar com um bom médico de família. Tem muito que nem aceita paciente, outros que atendem só pelo código postal, mas se você acabar com um que não te satisfaz, troque. Mas é importante também acertas as espectativas. Eu sou a única paciente da minha médica que é gastroplastizada, então você pensa que ao chegar no consultório ela vai lembrar direto, mas eu sempre tenho que repetir que sou gastroplastizada, ela olha no computador, e sempre diz, ah a mevráu van den Broek. Atendimento personalizado passou longe.
Do dia que você chegar aqui até morrer, você nunca mais vai ver um exame médico. Se você faz qualquer exame, vai pro seu arquivinho, o médico te diz se está normal ou não, mas pegar na mão, ver os índices, ver as imagens, necas de catipirobas. Eu fiz 80 imagens do meu estomaguinho e só vi uma, por acidente.
Agora o lado bom. Quando eu quis mudar meu método anticoncepcional, a médica me deu amplo material com muita informação sobre todas as opções, inclusive sobre aborto, que aqui é permitido ( não, eles não indicam aborto como anticoncepcional, mas como um modo de dizer, se você não se cuidar, pode ter que acabar passando por isso ). Ela me apoiou na minha escolha ( tirar o palitinho no braço e colocar DIU ), eu saí de lá com a consulta marcada na ginecologista, a receita para o "artefato", e o "artefato" foi pago pelo convênio. No consultório ( que fica dentro do hospital ), viram que eu teria que colocar o artefato sob anestesia, nova consulta pra semana seguinte. Me atenderam no horário correto, foram atenciosos ( eu estava com medo da anestesia geral ), eu me recuperei numa enfermaria onde eu tinha privacidade ( aquelas cortininhas ao redor de toda a cama ), e fui pra casa feliz com o retorno marcado. Tudo sem esperar muito e sem gastar 1 centavo.
Vejam minha mãe no Brasil, por exemplo. Bom, aqui ela nunca teria sido diagnosticada, porque no Brasil ela passou por 5 médicos do então convênio dela, e foi ser diagnosticada por um médico particular carésimo ( o cara cobra 600 reais a consulta e está sempre lotado ), ultra especialista, famoso com esportistas de renome, que atendeu minha mãe porque ela foi indicada por um paciente antigo. Mas supondo que ela fosse diagnosticada, ela tem uma forma diferente de artrite reumatóide. Ela iria sair do consultório com as receitas já transmitidas por computador para a farmácia, ela passaria lá imediatamente e já sairia com o remédio, a conta iria para o convênio. A cada 3 meses ela ligaria pro consultório, a assistente já deixaria uma nova receita pronta pra ela pegar. Se ela se sentisse mal, ou a dose ficasse forte ou fraca, voltaria para uma nova consulta.
No Brasil, minha mãe tem que pagar os remédios, que custam 1300 reais por mês, pro resto da vida. Como ela não pode pagar tudo isso, minha cunhada, que é assistente social, sabia do programa do governo para quem não pode pagar remédios, e a ajudou a dar entrada no processo, que foi acelerado por uma amiga da minha cunhada ( no Brasil você tem que ter contatos, senão… ). O processo acelerado levou 7 meses, contou com vários exames, o laudo do médico particular caríssimo, comprovante de renda, e entrevista com o médico do SUS. Minha mãe, cuja doença causava problemas de locomoção, teve que pedir ajuda pra família para levá-la em todos esses laboratórios, médicos, repartições. Quando o processo foi aprovado, ela recebeu uma carteirinha que ela usa pra mensalmente receber um dos remédios ( o mais caro ), e o outro não é comprado pelo SUS porque é importado, mas com isso o gasto mensal caiu de 1300 reais pra menos de 200. Só que a cada 6 meses ela tem que pegar novo laudo médico, senão não renovam a tal carteirinha. Ela tem guardado um estoque "de segurança" do remédio porque ela não pode ficar um dia sem, e sempre acontece dela ir pegar o remédio no dia certo mas "estar em falta".
Eu costumo dizer que aqui você tem que rezar para ter doençazinha mequetrefes até um dia morrer de repente, porque suas doençazinhas mequetrefes vão ser tratadinhas mequetrefemente, na hora e de graça, e se você morrer de repente pelo menos não sofre. Se você tiver doenças complicadas eu não sei não… Ouço barbaridades, de médico que deixou pra iniciar tratamento de câncer dois meses depois e o câncer mestatizou, de câncer que não foi pego porque o papanicolau é feito a cada 5 anos, mas sei lá, espero que assim como no Brasil também cometem erros médicos, que esses sejam as exceções daqui.
Eu sei que no meu caso, com a gastroplastia, tenho é que rezar muito. Fiz mil exames pra um check-up e mesmo com aqueles raios-x em movimento, ultrasson e endoscopia, o médico não entendeu a esquemática da minha cirurgia. E como "pesquisar" não está no job description dele, sigo sendo um mistério da ciência pro cidadão. E rezando muito.