A Holanda tem uma só empresa automotiva de carro de passageiros, chama-se Nedcar, fica em Limburg ( sul da Holanda ) e anunciou ontem que vai fechar as portas. Já há quase dois anos, temos alguns funcionários dessa empresa trabalhando aqui com a gente. Acho interessante como esse negócio de benefício social, salário desemprego e pacote de demissão funciona, então deixa eu contar pra vocês me darem sua opinião se funcionaria no Brasil.
Em 2009, no auge da crise, minha empresa e várias outras da região pediram auxílio ao governo. A lógica é simples, ou o governo ajuda a empresa, ou a empresa demite, e aí perde todo mundo, a empresa, que tem que pagar os pacotes de demissão, o governo, que tem que pagar salário desemprego pra esse bando de gente por sabe-se lá quanto tempo, e principalmente o funcionário, que vai receber o salário desemprego, não vai morrer de fome, mas vai ter que batalhar em meio a uma crise pra encontrar um emprego novo ( pros mais jovens é menos problemático, mas imagine o cara de 50 / 55 anos, que ainda tem que trabalhar pelo menos uns 10 mas é menos “desejável” no mercado de trabalho). O governo cedeu o benefício a várias empresas ( o funcionário ficava um dia da semana em casa e o salário desse dia era pago pelo governo ) mas a condição é que quando as coisas começassem a melhorar com uma empresa, ao invés dela ir contratar mão de obra no mercado ( todos os temporários foram dispensados no início da crise ), teria que usar a mão de obra das outras empresas que ainda não melhoraram, num tipo de terceirizacão. E daí termos contratado o pessoal da Nedcar. Eles tem um contrato Nedcar, são alocados na minha empresa, trabalham super bem porque são super experientes na área, e de quebra, são ótimas pessoas – eu tenho dois senhores, um de 51 e 58 que tem performance 10.
Agora a Nedcar tem que mandar essas pessoas embora. No minuto que anunciaram, o sindicato já estava fazendo piquete na porta da empresa pra negociar o plano social. A Holandesa ( link ali do lado ), já falou sobre isso e até ensinou a fazer as continhas. A grosso modo, esses funcionários tem que receber 1 salário mensal bruto por ano que trabalharam na empresa antes dos 35 anos, e 1,5 salário bruto por ano que trabalharam depois dos 35. Meus dois funcionários tem 28 e 33 anos de casa, imaginem a bolada que eles tem que receber. Um deles, que lá é gerente, comentou que a bolada dele ficaria em 380 mil euros, tudo bem que o leão fica com 52% da grana, mas imaginem só!!!!
As negociações seguem, sindicato involvidíssimo, meus “rapazes” estão nesse momento lá na porta da fábrica, lutando pelo “potje geld” deles ( potinho de dindin ).
Aqueles que foram demitidos, além do potinho de dindin, entram pro salário desemprego. A grosso modo, você tem direito a um salário quase integral por ano trabalhado, ou seja, o colega que tem 32 anos ganharia um salarião por 32 meses, eu, ganharia só 8. Pra isso, você tem que provar que está procurando emprego, o que você faz mandando CV pra vagas, eles te mandam uma cartinha “recebemos seu CV”, e se você não for selecionado recebe uma cartinha “lamentamos, mas escolhemos outra pessoa”, e essas cartinhas você manda pro órgão especializado UWV. Esse órgão pode te mandar pra entrevistas em vagas que eles tem abertas, pode te chamar pra uma “conversinha”.
E é daí que eu fico pensando. O sistema tem mil motivos pra não funcionar, porque depende da honestidade das pessoas. Funciona porque, apesar de ter gente folgada e que ludibria o sistema, esses são ainda a minoria. A teoria de que o ser humano prefere um emprego à caridade aqui parece funcionar melhor que no Brasil. Então, o sistema daqui funcionaria no Brasil? Nem a pau, Juvenal, penso eu.
No Brasil, uma pessoa próxima comentou que conseguiu um emprego, mas que ía trabalhar os primeiros 4 meses “sem registro” porque assim poderia também receber o salário desemprego, apesar de estar trabalhando. Essa parece ser uma prática normal. No Estadão, uma matéria sobre procurar empregos diz que “se você não receber um retorno uma semana após mandar um CV, é porque ficou fora do processo”, como assim Bial, nem mandam um e-mail de duas linhas informando do fato? E como então provar que você está procurando emprego? No fundo, o que eu estou querendo dizer, e me desculpem os mais sensíveis, é que o holandês é sim senhor mais honesto que o Brasileiro.
O negócio no Brasil é tão exdrúxulo, que até eu, quando saí da GM, acabei caindo no poço sem fundo das estranhisses brasileiras. Saí da GM num pacote de demissão voluntária, ou seja, saí porque quis. Aqui na Holanda, quem sai porque quis não tem direito a salário desemprego. Eu saí com uma ótima bolada, na época, livre, tirei quase 20 salários, e olha que o salário da GM não era dos ruins. Aí a mulher do sindicato que pega suas assinaturas no fim do processo, já te dá um recibo, ela mesmo já entra com o pedido de salário desemprego pra você. Aí eu, que fui voluntária, que estava com uma bolada no banco, que não estava procurando emprego porque ía me mandar do país, recebi uma cartinha “pode vir pegar seus 300 contos de salário desemprego”. Era tudo muito surreal, primeiro que o valor, que na época era menos que 10% do meu salário na empresa, caso eu estivesse desempregada mesmo, com família pra sustentar, não ía pagar nem o miojo das crianças. Segundo que ninguém nem pergunta: você precisa? O negócio é tão bizarro que eu vim pra Holanda 2 meses antes do benefício acabar, e dois anos depois, quando voltei de férias, o dinheiro estava lá me esperando, com correção monetária!
Alguns anos depois, nas férias de 2008, outra cartinha me esperava: eu tinha direito a sacar 900 reais referentes ao PIS dos anos X a Y. De novo, ninguém avalia se você precisa, e honestamente, eu nem sei o que é o PIS e porque eu tinha direito a restituição. Ah, Adriana, você reclama mas aposto que não devolveu o dinheiro. Não, não devolvi, e mesmo que quisesse, pra quem? Mas pelo menos uma coisa boa eu fiz: torrei a grana ali no Brasil mesmo, criei uns empreguinhos a mais e dei uns impostinhos extras. Adriana ajudando a economia nacional!
Postão, né? Sorry, mas é que depois de tantos anos aqui, poucas são as novas experiências, e quando eu passo por alguma novidade, quero contar! Ficarei aqui torcendo pros meus “senhores nota 10” receberem suas boladas, e no meio tempo, já tenho o papelucho que me autoriza a contratá-los assinado pelo diretorzão.
