Ontem a Holanda inteira ainda esperava, mesmo que sem muito otimismo, a confirmação ou não da Elfstedentocht ( Corrida das Sete Cidades – em invernos muito frios, na província de Friesland, no norte do país, canais congelam, ligando 11 cidades por uma imensa pista de patinação de gelo com mais de 200 km, e skatistas profissionais ou não participam de uma corrida por esses canais congelados – a última foi em 1997, porque a espessura do gelo tem que atingir 14cm e isso é super raro ).
Chegando no trabalho, na filinha da máquina do café, um desconhecido comentou ao notar que eu sou estrangeira: você vai ver nossa euforia se a corrirda for confirmada, a Elfstedentocht é o nosso superbowl.
E aí fiquei pensando… O superbowl é mesmo representativo da cultura americana, pelo que dizem, e sei lá, é aquela extravagância exagerada toda, os jogadores são milionários, com esposas modelos milionárias, e gente famosa e milionária na platéia, e dona Madonna, que não precisa na idade e nível profissional dela se enfiar numa mini-saia e ir competir o rebolado com duas no-ones ( eu fiquei tensa a apresentação inteira, vendo a hora que a madonna ía se estabacar no chão, que rolou alí, salto muito alto, palco escorregadio, Madonnão com a coluna travada? ).
Enquanto isso, numa terra do velho mundo, coberta de gelo ( pero no mucho ), um país inteiro espera a natureza tomar seu curso e congelar o laguinho e o canalzinho ( onde vão parar os patos, minha gente? ), pra irem pra uma das tais 11 cidades, congelar ao ar livre, tomando sopinha (Unox) ou chocolate quente (Chocomel), enquanto esperam os participantes da corrida passar. E ía ter muita roupa, plumas e perucas laranja, e alguém ía desenterrar umas vuvuzelas, e ía ser lindo. O prêmio? Nada! Ter seu nome registrado na história do país como o ganhador da ElfStedentocht ano XXXX. E claro que no fim alguém ía dar um copinho de sopa de ervilhas pro cara J. Ha ha ha, tenho certeza que se estivéssemos nos EUA, já teriam inventado uma máquina de congelar os canais na marra, o prêmio seria de 5 milhões de dolares, o ganhador seria capa da Times, e cobrariam ingresso – sei lá como, mas cobrariam.
Tenho que admirar esse povo holandês. Tenho que agradecer ter vindo parar aqui e não nos EUA. A Holanda está me ensinando o que eu preciso aprender, afinal, eu lá no nosso Brasil tupiniquim, também já fui viciada em roupas de marcas, em carros mais caros do que eu podia pagar, em baladinhas que arrombavam meu orçamento, se tivesse ido morar nos EUA, estaria com 5 cartões de crédito estourados.
Estou feliz de estar aqui, sabem?! Estou menos ranzinza, estou mais tolerante com as coisas que aqui eu não posso ter ( só vou sentir falta eternamente da empregada ), com o que ficou pra trás. Não me sinto mais em casa no Brasil, a diferença é que estou me sentindo cada vez mais em casa aqui. Já era tempo. Quem sabe agora não fica até fácil dominar essa linguinha linda e sonora? Tô até mais boazinha, baixei umas músicas do Guus Meuus.
Nossa, que lindo, vou soltar uma lagriminha de emoção, a tia Madonna quase se estabacando no palco ao lado de duas pafúncias me fez ver o quanto eu aprecio a Holanda.
Brigadinha Madonnão!
P.S.: e foi confirmado hoje que para a tristeza geral da nação, não teremos a Elfstedentocht esse ano. Oh, dó.
