Quem mora no exterior frequentemente se sente meio extra-terrestre, não 100% integrado no seu novo país e já totalmente desadaptado do seu país natal. Eu sou uma dessas, mas nunca pensei que eu fosse me sentir tão alienígena, tão diferente dos meus conterrâneos numa das coisas que eu sempre adorei, mesmo quando ainda vivia na terrinha: viajar.
Sou brasileira, sempre serei, mas já não mais entendo a cabeça do turista brasileiro. Ando lendo muito o site Viaje na Viagem, onde o forte são também as dicas dos comentaristas, e juro, não me idientifico com nada, nada, nada. O pior, além de não me identificar, certas coisas eu realmente não entendo.
Compras. Que loucura é essa do brasileiro em comprar, comprar, comprar? O Riq tá lá falando de Punta Cana e metade dos comentários é perguntando se tem shopping center ou o que tem lá pra comprar. Descrevendo viagens pra NY, falam 1800 caracteres sobre as compras e 180 sobre todo o resto. Meu irmão mesmo, quando esteve em Luxemburgo e Paris em 2007, até aqui ele conseguiu encontrar uma "barganha imperdível" em um monitor de PC e uma câmera de video. E quem vê um brasileiro em duty free pensa que no Brasil não se produz perfume, e que a gente deve ser mesmo um povo muito cheiroso.
Modinhas. No Brasil, destino de viagem é também modinha. Quando eu era adolescente era Porto Seguro, nós paulistas acabamos com Porto Seguro. Daí veio Cancun. Em 1996 quando fui pela primeira vez, oficialmente Cancun recebeu mais brasileiros que americanos. Em épocas de real desvalorizado foi Natal, Porto de Galinhas e Fortaleza. Os mais descolados íam pra Jericoacoara e Praia do Pipa ( o que tornou esses destinos tão Praia Grande quanto Porto Seguro, porque todo mauricinho e patricinha acabava indo parar num desses lugares ). Agora Punta Cana é a nova Cancun, tem até vôo da Gol. Sério, um lugar onde você não pode colocar o pé pra fora do hotel com risco de ser assaltado, usurpado, esfalfado, sem falar que fora do hotel é tudo feio de doer, como pode o brasileiro ir pra Punta Cana ao invés de Praia do Forte ou Porto de Galinhas? Só pra encher a boca e dizer que conheceu o Caribe?
Buenos Aires. Sério pípol, Buenos Aires? Pô pípol, Buenos Aires???? Fazer o que em Buenos Aires? Uma cidadezinha simpatiquinha, que me lembra Itu ( tudo bem que passei 1/2 dia lá, de passagem ), cujo tão famoso bife de chorizo se come em váááários restaurantes de SP, e cheia de gente esnobe que se acha moooito superior aos brasileiros? Um povo que diz que eles são melhores porque são mais europeus? Meo, vamos comprar Alfajor no Pão de Açúcar, casaco de couro na Julian Marcuir, azeitonas no mercado municipal, e vamos dar um "eu passo" em Buenos Aires. Metade do site do Ricardo Freire ía ficar vazio, mas aí ele enche com destinos mais legais.
All-inclusive. Eles não são baratos, por isso quem pretente ficar fazendo mil passeios de dia inteiro o melhor é escolher um meia-pensão, mas a brasileirada exagera, quando vão pro all-inclusive não admitem sair do hotel por nada desse mundo! No Iberostar vi um tiozinho reclamando que pra fazer o snorkel na Papa-gente ele e os filhos íam ter que andar 40 minutos pela praia e que íam chegar lá com sede, que íam ter que comprar água ou refrigerantes fora do hotel, e que não é pra isso que se vai a um all-in. Pro brasileiro ir à um resort já tem uma conotação excepcional, pra um resort all-in então, é o suprasumo do luxo, enquanto pra gringaiada, é legalzinho mas é mais normal. Os brasileiros vão pro jantar caindo de chique, a gringaiada, até de shorts e tênis eu já vi ir. Bart tem o uniforme de a la carte de all-in ( tem que usar calças e cobrir os dedos do pé ): calça de linho, camisa de linho e Crocs. Sim, meu povo, Crocs.
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História Engraçada: a brasileirada me ouve falando inglês com o marido, vê minhas roupas Miss Etam, combinado com essa minha tez morena, acham que eu sou gringa. Nesses all-in, o dress code dos restaurantes a la carte normalmente é mais bonitinho ( pros homens a tal calça e sapato fechado, que o Bart quer morrer ) mas pro buffet até shorts pros homens é permitido. Eu estava no buffet com uma capri jeans, uma batinha e rasteira, e uma mulher toda "produzida" falou pro marido: não entendo esses gringos, viajam pra tão longe, vem prum hotem tão caro e vem com essa roupa "chinfrim" pro jantar ( ela usou a palavra chinfrim mesmo ). Ah, eu não aguentei, "minha senhora, o ambiente aqui é informal, até shorts é permitido, não há necessidade de se equilibrar nos saltos altos ( ela tinha um Luiz XV ), e esse hotel nem é caro, quem compra na Europa paga metade do preço". Ela ficou azul, coitada, mas não abriu a boca, perua deslumbrada.
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Fôlego. A viagem do turista brasileiro exige muito fôlego. É um tal de "13 capitais européias em 30 dias", "NY no feriado de 7 de setembro - 4 dias", "Disney e Universal em 9 dias (7 noites)". Imagine que nesse pacote de Orlando a operadora reserva 3 horas para compras em um outlet, e mais nada, nem o Florida Mall, queridinho da brasileirada está incluso. O de NY é de chorar: chega de avião 7 da manhã, vai pra Woodbury ( é um sábado e vai estar entupido e vc vai ter acabado de sair do avião ), vai as 4 da tarde pro hotel, 2 dias inteiros em NY, na terça você tem que deixar o hotel 12:00, vai pro aeroporto às 16, chega em Cumbica às 7 da quarta, à tempo de ir pro trabalho! O das capitais européias, você fica em Paris ( PARIIIIIIIS ) 1 dia e meio. É só mesmo pra falar que foi!
Passeios. Ah, os "passeios". Vejam bem, eu amo os "passeios", manja aqueles que o receptivo da agência te oferece assim que você chega? Então, eu sempre vou nuns "par deles". Eles nos pegam no hotel, levam pro barco/jeep/quadriciclo, você faz seu passeio, eles te trazem de volta. No Brasil tem ainda o passeio com bugueiro, que eu particularmente adoro. Não é barato, mas é simples, é fácil, você vai onde te levam. A gente sempre equilibra com uns dias de carro alugado pra conhecer "as redondezas" e uns dias pra curtir o hotel/praia, mas os brasileiros TEM que se ocupar com esses passeios todos os dias. Eles podem até procurar quem faça o passeio mais barato, mas a maioria tem medo de alugar um carro e certos lugares visitar "por conta própria". Não sei também se tem a ver com a qualidade dos guias turísticos ( livros ), aqui fora tem tantos que você com seu carrinho e um mapinha faz a festa, mas nem todos são traduzidos e publicados no Brasil.
E ó, é mútuo, a brasileirada também não entende muito o jeito de eu viajar. Não entendem eu querer "curtir o hotel" ( pra curtir o hotel eu fico em casa - hotel é só mesmo pra dormir ), acham que é frescura alugar carro, que ficar 12 dias em Orlando é exagero, que duas semanas num resort é demais… enfim… acho que eu agringalhei geral nas minhas viagens.
Cada um tem seu jeito de viajar, contanto que se viaje, né? O mundo é grande e belo pra gente ficar preso na toca. Mas ó, Buenos Aires não rola, viu. É forçar um pouco demais a vontade de conhecer o mundo.

















