quarta-feira, julho 20

Dreaming


Eu acho interessantíssimo ouvir as pessoas descreverem o que elas fariam se ganhassem na loteria. Ontem estávamos falando sobre isso aqui no trabalho, e quando falo ganhar na loteria falo logo em boladas, tipo os € 25 milhões da loteria estadual holandesa de uns tempos atrás.

O que você faria?

Eu ía rodar a Europa a procura de um terreno de frente pro mar. Teria que ser perto de uma cidade maiorzinha, pra eu poder bater pernitchas de vez em quando, mas de preferência dentro de um vilarejo, e mais de preferência ainda, longe de rotas turísticas. Existe esse lugar?

Aí, terreno comprado, eu iría contratar um fantástico arquiteto pra fazer a casa dos meus sonhos.

E enquanto a casa não ficasse compras, eu iria cuidar de assuntos mais corriqueiros. Iria dar uma ajeitada na vida da minha mãe, iria dar uma ajudada no meu irmão e sobrinhos, iria comprar um apê e um carrinho pra minha prima querida, tudo isso sem eles saberem que eu ganhei da loteria, que ninguém merece parente pedindo isso e aquilo.

Aí eu iria praquele SPA pra perda de peso que a Oprah foi no Hawaii. Ia botocar o rosto, com certeza. Ia refazer o guarda roupas e comprar um carro conversível.

Meus pituchinhos íam ganhar uma área inteira na nova casa, e eu ía adotar um Yorkshire. Talvez, se eu achasse uma empregada e a família prometesse me visitar muito, eu tentasse ter um filho ou adotar uma chinesinha.

Com certeza eu ía alugar uma gigantesca casa em Orlando por um mês e ía trazer "my favorite people" pra curtir a disney comigo, a parentada, minha amiga Fernanda, ía ser demais.

E eu viveria muito feliz na minha casinha de praia, com meu marido e meus bichos, faria trabalho voluntário com alguma ONG de animaizinhos, quem sabe até construísse um abrigo, visitaria mais a família e os traria para me visitarem…

Quem sabe o Bill Gates não lê esse post e me manda 1% da fortuna dele?

E você, o que faria?

segunda-feira, julho 18

Questão de respeito


Minha prima mais querida, mais ligada a mim, praticamente a filha que eu não tive, me contou, aos 13 anos, que era lésbica. Indescritível o choque. O choque passou, e ficaram duas certezas, meu amor por ela não diminuiu um milímetro, ela ainda era minha priminha fofa, minha companheira de Hopi Hari. A segunda é que ela ía sofrer muito com isso. E ela sofreu.

É incrível o preconceito contra lésbicas. Às vezes eu penso que quando todo mundo defende tanto os direitos homossexuais, estão na verdade é falando dos homens, porque contra as mulheres o negócio é bem mais ofensivo.

Ao longo desses anos, quando eu contei pra amigos mais íntimos, o que eu ouvi variou entre "só precisa mesmo é achar um homem com H maiúsculo", até a "que coisa feia". Nossa avó, que não sabe, disse que se ela não arrumasse namorado logo, íam começar a chamá-la de muié-homi.

E tem muita gente, mas muuuuita gente, que diz que não tem preconceito, mas se refere à elas como "sapatão", fala da falta de feminilidade com desdém, e faz piadinha.

Hoje meus colegas de trabalho falavam sobre o mundial feminino de futebol. Eu disse que no Brasil comentaram muito sobre a beleza da goleira americana, e um colega respondeu: e adianta de quê se ela "cola velcro", e fez o gesto com a mão ( !!! ). E eu respondi: ué, o fato dela jogar futebol não quer dizer que ela é lésbica. E ele disse que o amigo treinava um time de futebol feminino e metade era lésbica, e fez de novo o gesto com a mão.

Sinceridade? Me aborrece demais isso. Me aborrece porque mostra que essa conversa de que não se tem preconceito é tudo balela, os nomes, os gestos, as piadinhas, tão aí pra provar.

Minha prima é uma menina super legal, generosa, com uma paciência infinita. Ela sempre foi minha companheira de aventuras ( e eu sou um pé no saco ), a que brincava com o priminho pentelho ( meu sobrinho ), a que dá atenção pro marido gringo ( igualmente pé no saco ) sem nem falar inglês. Ela é esforçada, faz faculdade, trabalha pra poder pagar porque os pais não tem a mínima condição, e com o pouco que sobra, ainda acha meios de comprar um remédio ou outro pra minha tia e levá-la, pelo menos uma vez ao mês, num restaurante comer alguma coisa gostosa. Ela não merece ser chamada de sapatão, de ser achincalhada, ou ser piadinha de gente mal-resolvida.

E as outras também não merecem. São filhas, irmãs, amigas queridas, e merecem ser respeitadas.

sexta-feira, julho 15

O gordo Pinóquio

Eu, a gorda chata, hoje teorizarei sobre mais um tipo de gordo: o gordo pinóquio.

A inspiração é o OldFart, que está menos Fart e um tantiquinho assim ó ( fazendo pequeninho com o polegar e o indicador ) mais magro.

O gordo Pinóquio é aquele gordo que, sabe-se lá porque, mente. Mente a respeito do peso ( peso 85 kg, quando na verdade pesa 95 kg ), mede a respeito do peso que perdeu, da rigorosidade da dieta… É uma dificuldade não ser gorda chata perto do gordo pinóquio!

O OldFart tem 1,65mt e é gordinho, sendo maldosa, parece um kabauterzinho ( um anão de jardim ). Essa semana ele recebeu o contrato fixo da empresa, e quando eu dei a notícia, disse que ele tinha que trazer gebak ( torta ). No dia seguinte ele trouxe ameixas, e explicou: estou de dieta. E daí começa a Pinoquisse:

Perdi 25 libras: putz grilo, num país que usa sistema métrico, onde você compra dois quilos de arroz, que ridículo é falar que emagraceu 25 libras só pra causar mais impacto. OldFart, 12 quilos! Aí eu fiquei olhando… nem a pau juvenal… a cada 6 quilos uma pessoa de 1,65 diminui um manequim, e ele não diminuiu 2 manequins…

Faço a dieta da proteína a 5 meses sem escorregar: ele diz que o café da manhã é um iogurte e um pedaço de ontbijt koek ( um bolo de especiarias que parece o pão de mel sem chocolate ), aí ele almoça sem lanchinho entre o café e o almoço, e o almoço é salada com um ovo cozido, aí ele vai direto até a janta e ele come salada ou vegetais na wok com um pedaço de peixe, salmão ou tilápia, e toma um chá antes de dormir. Oras bolas, se uma pessoa passa 5 meses só comendo isso, estaria mais magro que a Twiggy.

Não tenho roupas, todas estão grandes: me respondam, que gordo não guarda suas roupas preferidas da "época de magro"? Isso foi a desculpa para vir de suspensórios. Sim puevo, suspensórios. Segundo ele, as calças estão caíndo ( valha-me Deus de caírem ), e o cinto já não dá conta ( ??? ). Eu só respondi: vai comprar roupas, quer coisa mais maravilhosa que ter que comprar roupas porque emagreceu? Meu colega disse: OldFart, cê tá parecendo o Bastiaan ( um palhaço ). Ah, a sutilidade holandesa…

Então vamos lembrar alguns princípios para o gordinho ser um gordinho legal. Colega gordinho, ninguém tem que te pedir satisfação da dieta, do seu peso, das suas roupas. Nós sabemos que você quer se gabar, nós sabemos que é o furículo do demônio fazer dieta por tanto tempo, mas seja chique colega, se alguém te perguntar se você está de regime, ou se você emagreceu, dê uma resposta blasé, tipo "estou sendo mais cuidadoso com os doces", ou "estou me exercitando um pouquinho mais". Lembre-se que se você começar a falar de dieta, todo mundo vai se sentir no direito de te vigiar, todo mundo vai achar que o fato de você ter falado de regime implica em uma autorização pra quem está ao seu redor te repreender no dia que você colocar uma bala na boca. E se tem coisa que gordinho não suporta é gente ao redor dizendo o que a gente pode ou não comer, quando a gente pode ou não comer.

Isso dito, tenho também inveja do OldFart, porque eu tenho também que começar o regime e estou adiando e adiando. Hoje tenho planos de ir ao Makro pra comprar carnes, já fiz meu cardápio de-carbizado pra próxima semana, vou ter que passar fome.

Mau humor do cão desde já.

quinta-feira, julho 14

Ah, o ser humano...


Uma das comadres, quando virou gerenta, me contou a história de um funcionário que até hoje me faz rir. Ela propôs ao funcionário, que não era nenhum jovenzinho recém formado, que ele fizesse um "layout", um trabalho que até então ele não tinha feito, mas que segundo a comadre, não era nenhum bicho de sete cabeças. Aí no dia seguinte da "proposta" esse funcionário foi pra comadre: Sr. Comadre, eu me olhei no espelho e perguntei: Hans da Silva, você será capaz de fazer um layout??? Esse "me olhei no espelho" ficou comigo desde então, eu já imaginei o banheiro cheio dos vapores do chuveiro matinal e o cara enrolado numa toalha se perguntando: espelho espelho meu, existe alguém mais sonso do que eu?

Aqui na empresa há quase um mês eu recebi um funcionário "do banco". JL trabalha na empresa há 40 anos, está perto da aposentadoria. O mundo evoluiu, os computadores tomaram conta, mas JL não conseguiu acompanhar o povo que agora senta atrás de uma telinha, ele consegue fazer o mínimo do mínimo num computador. JL é um senhor muito correto, orgulhoso dos seus anos na empresa, de uma ética irrepreensível, mas o que fazer com tudo isso se ele não consegue dar um copy/paste no Excel??? Triste isso, um mundo onde a habilidade de dar copy/paste é um bem mais valioso que a ética da pessoa… mas então…

Tem quem goste de achar que os donos de empresa, CEO's e presidentes de empresas holandesas são mais humanos que no Brasil, mas não, a verdade é que as leis trabalhistas aqui protegem mais o cidadão que no Brasil, e num determinado momento alguém lá no RH, que sabe muito bem dar copy/paste, calculou o valor da rescisão contratual do JL e concluiu que era mais barato continuar empregando-o. Assim, JL foi "pro banco", ele fica em casa e quando alguém tem necessidade de uma pessoa com fantástico senso de ética mas sérias limitações tecnológicas, ele é chamado.

Há um mês JL está nos ajudando no que chamamos de "back office". Ontem ele me chamou: Adriana, estou com um problema sério. Um aparte: o negócio fica muito mais dramático em holandês, mas tenho que traduzir procês. Adriana, fui vítima de um desrespeito enorme. O que foi, JL? Ele olhou pra mim, baixou os olhinhos, tremeu a boca, e levantou os olhos cheios de lágrimas ( sim pessoas, lágrimas! ): sou vítima de espionagem ( ele falando espionáááááge em holandês ainda me faz rir ). E eu: como assim JL? E só pensava em quem estaria interessado em espionar o office-boy, digo, o office-meneer do departamento? E ele: hoje eu abri meu Outlook e minhas mensagens estão lidas… Ahn? Adriáááána: faz 3 dias que eu não abro o computador (!!!), mas as mensagens de ontem já estão sem o título em bold, ou seja, alguém tá lendo meus e-mails!!! E as lágrimas corriam.

Eu respirei fundo. Vamos pensar JL. Você deu privilégio de leitura pra alguém? Ele estalou os olhos. Vamos ver se alguém mais tem autorização pra ler seu e-mail. Ele arregalou os olhos maior. Olhei no Outlook, achamos o nome de uma mulher, ele explicou que era a secretária do departamento dele. JL, ela sabe que você está "emprestado" pra compras? Ele secou as lágrimas, acho que não! Ligamos. E mulher ficou surpresa ao ouvi-lo e disse que não, ela não sabia que ele estava de volta, e que o chefe mandou ela olhar todas as segundas-feiras os e-mails dele pra ver se aparecia algum e-mail que precisava ser respondido.

JL ficou feliz de saber que a espionagem era "do bem", que ninguém estava duvidando da idoneidade dele.

E eu fiquei aqui pensando… eu achei que tinha que me preparar para lidar com o diretorzão member of the board, mas de vez em quando, lidar com o office-meneer é tão difícil quanto.

* Meneer é senhor em holandês.

terça-feira, julho 12

Burn out - Post enorme, senta com o café no bule e a xícara na mão

Ontem tivemos uma reunião emergencial de staff. Temos 3 pessoas com burn-out, outros reclamando. Isso no departamento de compras.

Lá em cima, na engenharia, o negócio tá tão feio que até motim já teve.

O projeto grandão da empresa está degringolando. Ao mesmo tempo, a recuperação depois da crise está sendo rapidíssima, e ninguém estava preparado. Faltam funcionários, faltam computadores, falta espaço, falta tempo pra treinar que chega.

A pressão está alta. Eu diria que está quase nos patamares da pressão que tínhamos na minha antiga empresa no Brasil, a diferença é que lá era maior e constante, aqui é um pico e mal começou.

Nessa reunião, eu tentei não abrir a boca. O diretor perguntou a minha opinião e eu fiquei olhando pra ele e pensando, falo ou não falo?

A verdade é que eu acho todo esse pânico cultural. Holandeses não estão acostumado com stress, com pressão, com cobranças. Eu fico pensando na vida do brasileiro, mesmo que minha experiência seja apenas a de uma brasileira da classe média, quando é que nós vivemos sem pressão, sem cobranças? Na escola fica a mãe cobrando notas, tem que ser sempre de 8 pra cima. Quando a gente tá terminando o "ginásio" fica aquela aterrorização sobre o "colegial". Você começa o segundo ano do colegial e todo mundo já tá falando de vestibular. O ano do vestibular é o pior da sua vida, não só você tem que decidir, aos 17 anos, o que vai fazer pro resto da sua vida, como tem que passar na maldita faculdade, de preferência na "Ivy league" brasileira. Daí vem a pressão por um estágio numa empresa de renome, e a almejada "efetivação". Pra mim, esse ano de estágio foi um drama terrível, ano de crise, a empresa mandando meio mundo embora, terrível mesmo. Quando recebi a notícia que eu ía ser contratada, sentei na escada de casa e chorei, chorei não de alegria ( ok, de alegria também ) mas de alívio: eu estava empregada! E depois disseo tiveram os facões, a primeira apresentação pra um diretor em inglês… Aos 22 anos de idade eu já era uma expert em "aguentar o tranco".

Aqui na Holanda há uma aceitação melhor para aqueles que não tiram apenas 9 e 10 na escola, logo menos pressão. O ginásio é curto e o colegial comprido, e apesar de ter já super cedo uma separação no tipo de escola que você vai seguir ( aos 12 anos os melhores alunos vão pra um colegial "mais forte" ) a sociedade aceita bem quem vai pro colegial médio ou o mais baixo, pelo menos é essa minha experiência com meus colegas de trabalho. Eu acho engraçadíssimo que, enquanto os brasileiros estão se esfalfando e traçando mil estratégias pro vestibular ( o da Unicamp tem mais conhecimento genérico e vc tem que ler jornal, o da USP é mais técnico e você tem que ter estudado em escola particular, se vc quer entrar no ITA tem que fazer cursinho no ETAPA ) aqui eles se arrancam os cabelos do requenguela do exame final. Todos os anos há uma revolta sobre a prova A ou B, que tiveram questões dificílimas, e milhares de estudantes ligam pro órgão encarregado pela prova ( a prova é nacional ), naquela semana do exame, a revolta dos estudantes sai sempre na primeira página. Mas depois do exame, acabou.

Meu marido estudou na melhor universidade do país pra área de engenharia de software. Ele se formou no "colegial", foi na universidade, preencheu um formulário, tava matriculado. Exitem profissões mais disputadas, mas até onde eu sei, há um bingo de vagas ( !!! ), ou seja, depende de sorte.

No país inteiro, há uma estatística que apenas 10% dos formandos demoram 2 meses pra encontrar emprego, e eles acham muito!

No ambiente de trabalho, pode até ser que em algumas empresas haja um ambiente mais ácido e competitivo, mas nas empresas que eu trabalhei o negócio era um passeio no parque, a mentalidade "9 to 5" aqui é padrão, e 4 da tarde tem fila na porta do prédio esperando dar o minuto exato pra passar o cartão magnético e congestionamento pra sair do estacionamento.

Na semana retrasada teve um caso bizarro na engenharia. O F. ía tirar 4 semanas de férias agora em agosto. O diretorzão do departamento dele cortou 2 das semanas, já que estamos todos no tal "perído do pico". Ele foi falar com o gerente dele. O gerente dele deu mais uma semana. Ele ficou puto, digo, frustrado, porque o educado é dizer que o cara ficou "frustrated", ele tira 4 semanas de férias todos os anos e justo nesse ano que está a maior pressão, teria que se contentar com 3,  aí ele ficou tão frustrado que ficou doente, e já está a 3 semanas em casa com burnout, cujo motivo é estresse por não poder ficar em casa de férias.

No meu departamento eu observo que o cara que tem burnout não é o mais overloaded, mas o menos acostumado a pressão. Tem um que está trabalhando aqui a 8 meses e tá com burnout, ele nem saiu da fase de aprendizado ainda.

A holandesada tem a resposta na ponta da língua: você tem que ter um balanço saudável entre vida profissional e pessoal. Eu concordo. Só que eu acho que eles são inflexíveis, não trabalham 20 minutos a mais, e se o fazem é esse drama.

A solução? Contratar mais estrangeiros. Aliás, eu nem precisei dizer, parece que se tocaram aqui eu os estrangeiros são mais resistentes a pressão e mais flexíveis: entrevistei uma candidata slovaka essa semana, e ela foi aprovada, só não sei se vem pro meu departamento, estamos disputando a coitada com outros 2.

Mas aí vem a holandesada dizer que a gente tá aqui pra "roubar" o emprego deles. Ué, fica esperto mermão, moleirão do jeito que tu é, é mole pra nóis.


quarta-feira, julho 6

Xexelentésimo

O que é mais que xexelento, realmente xexelentésimo? Aquele aeroporto de Guarulhos.

Quando anunciaram que o Brasil sediaria a copa eu disse que daríamos vexame, me tacaram pedras e disseram que eu torcia contra. Nada disso, eu só não quero passar vergonha…

Liberaram o dindin pro estádio do Coringão, mas pô, vai deixar o templo do xexéu, o aeroporto de Guarulhos, do jeito que tá?

A área antes do check-in é escura e minúscula, e o desembarque é num porão, qualquer feriadinho requenguela aquilo lá vira a sucursal do inferno. Ir de uma asa pra outra, só no sapatinho, porque não há esteiras rolantes. Opções de um lanchinho? Tem um Mc, umas lanchonetes superfaturadas, um Viena e uma Brunella. No Viena paguei 6 "real" numa coxinha, achei caro. Mas essa área pública ainda é melhorzinha que a interna, pelo menos tem dois salões de beleza, farmácia.

Na área depois do controle de segurança tem-se a sensação de estar num aeroporto da União Sovietica comunista circa 1975. Tem uma lanchonetesinha botequenta, aquele freexópis minúsculo com tudo abarrotado na mesma loja ( licença que eu tô acostumada com o fantástico Schiphol e amo ter lojinhas de muambas variadas? ), e inacreditável, não tem uma banquinha pra se comprar jornais e revistas. Banca de jornal é o princípio básico de uma sala de espera no aeroporto, mas no GRU, não tem!

A segurança deixa super a desejar. Apesar da proibição de líquidos em bagagem de mão para vôos internacionais, tanto eu quanto o marido passamos com uma garrafa de 500 ml de refri cada.

Na área do check-in, a odiosa mania brasileira de "passar" os atrasildos na frente de quem tá na fila há tempos.

Me perguntaram se eu vou à Copa ou às Olimpíadas. Sei não… vou é passar vergonha, isso sim.

Aeroporto pior que o GRU? Tem. O Dulles em Washington DC e o Charles de Gaulle em Paris, esse último mais detestável que o primeiro. Não estou aqui contando os "di pobre" como Hugarda e o de Varadero. Espero que quando ( e se ) a reforma do GRU sair, que façam um bom trabalho.

terça-feira, julho 5

Além de gorda, chata!


Ser gordo é difícil. O potencial para se tornar um chato é exponencialmente maior que o do magro.

Não conheço gordo que não fique um porre quando está de regime, e portanto privado das coisas que gosta. Eu me incluo nesse grupo, fico insuportável, logo, uma chatinha.

Gordo chatinho eu até encaro e aliás, me comisero. Passar fome é o ó do borogodó. O que eu não suporto é aquele gordo narrador de dieta. O gordo Galvão Bueno.

O gordo Galvão acorda contando ao mundo, via blog-facebook-twitter-orkut-msn-my space o que ele vai comer no café da manhã, o quanto ele emagreceu naquele dia, e muito constantemente brada ao mundo como é possível viver bem sem os venenos de uma fatia de bolo de cenoura, e que uma bolacha de crespinhos de arroz diet é muito mais gostoso ( tais louco? ).

Outro gordo que me irrita é o gordo-pop-up, que nem a janela, manja? Esse gordo é aquele do palpite não solicitado. Você tá lá, bem com as suas banhas, na primeira mordida no sanduba o gordo-popup exclama: menina, tá louca, maionese é uma bomba de calorias! Pra esses eu tenho uma reação: nossa, ainda bem que eu não preciso emagrecer, né? Porque ó, em banha alheia a gente não mete pitaco.

Um gordo legal é o gordo pé-na-jaca. Ele é gordo, todo mundo sabe que ele tá tentando emagrecer, mas ele vai naquela festinha e já avisa: vou meter o pé na jaca hoje. Bom, nem precisava avisar, não é da conta de ninguém, mas tem coisa mais chata do que gordo que fica dando desculpa pra jaquear? Ah, fiquei sem almoçar 2 semanas pra poder comer um pouquinho mais hoje… Ah, ouvi dizer que coxinhas nem são tão calóricas assim… Ah, esse quibe tá cheio de ferro ( eu )…

Já tô quase acabando minha tese gordística, mas tenho que falar do pior gordo, o gordo "manda pro afeganistão".

A obesidade, mais do que uma condição física, é uma condição psicológica. O gordo supre alguma ausência com a comida. O gordo se auto-medica com a comida. Cada gordo tem seu momento pra assumir que uma dieta é necessária e escolher qual o momento em que ele pode lidar com aquilo que o incomoda sem a auto-medicação da comida. Cada gordo sabe quando chegou a hora de "dietar". Por isso que você, magro ou gordo, que convive com um gordinho, não dê indiretas ou diretas, não force a barra. Alguns podem até estar tentando ajudar, mas não ajudam, muito ao contrário. Quando o gordinho vier te pedir ajuda ( vamos caminhar comigo, vamos num restaurante mais light, por favor não me ofereça chocolates ) ajude, e ajude da forma que foi pedida. Se o gordinho te convidar pra uma caminhada, vá, se divirta, mas não fique policiando o que ele come, ou dando indireta daquele remédinho batata ou daquela drenagem linfática certeira. Não pressione seu gordinho, não seja aquela pessoa que o gordinho quer "mandar pro afeganistão".

Estou aqui, na concentração do sambódromo, esperando o dia da dieta chegar. Vou ter que encarar. Vou de South Beach, já estou procurando receitas, mas me prometi que farei a fase 1 de duas semanas e mais um mês de dieta. E depois, perdendo o que for, faço só manutenção.

Ser gorda ( a aparência física ) me incomoda menos que ser gorda ( ter que emagrecer porque é melhor pra saúde ).




domingo, julho 3

Visita bebezal

Hoje aconteceu a visita bebezal na tribo da cumadre Holandesa.

Começamos com os gatinhos, porque a bebê humana, já de tenra idade, adora bater uma perna num domingo ensolarado.

Dona Holandesa precisa nomear a gataria. Participei de duas mamadas, e foi assim, esse é o espertinho, esse é o machinho preto, essa é a tigresa e a irmã de cela, ali são as três cajazeiras, e essa é a que estava fraquinha. Tudo sem nome esses piolhinhos! São fofos demais e eu estou morrendo de vontade de pegar uma menininha pra mim, mas o marido acha que 3 gatos, pra gente que viaja como nós, é demais.

Aí chegou a bebê humana. Muito fofa e simpática. O irmão, quando bebê, era tinhosinho e não gostava muito de colo alheio, mas ela veio comigo, eu dei mamadeira, só não fiz arrotar porque não tenho mais prática. Uma gracinha!

Deixei um malão pra Dr. Alice por lá. Tentando, acho que cabe até um piano meia cauda lá.

Voltando pra Eindhoven, ainda na tribo, passei por uma fazendinha que vendia cerejas. Nunca tinha visto uma cerejeira carregada, e hoje eu vi. O "bakje" de cerejas não era barato, mas elas eram enormes e dulcílimas, assim que experimentei a primeira, antes de chegar no farol ( coidegordo, eu sei ), dei meia volta e peguei mais uma caixinha.

Foi um ótimo domingo, sol, gatinhos, amiga, nenê, frutinha não engordativa e coxiiiiinha!

Biii biiii

Quando a gente muda pra Europa, todo mundo se surpreende com o sistema de transporte público. Não é que seja fenomenal não, é que o do Brasil ou é péssimo, ou não existe.

No começo do casamento, tínhamos um carrinho bonitinho, usado, motor mil, só mesmo pra nos levar e trazer. E isso ele fez, nos levou e trouxe muito, de todos os lugares. Até pra Paris encontrar meu irmã com ele eu fui.

Quando comecei a trabalhar, usar o carro era impossível: ir porta-a-porta de casa ao trabalho levava mais de 3 horas, e dirigir até a estação de trem com ele era impossível porque não havia onde estacionar. Daí surgiu a scooter ( minha querida moteeenha ). Eu dirigia até a estação, deixava a moteeenha estacionada no estacionamento de bicicletas, e na volta voltava pra casa com ela. Era tudo muito prático, mas tinha um porém, um enorme porém: o frio... dirigir uma moteeenha na chuva, temperatura abaixo de zero graus... A holandesada encara na boa, encaram a bicicleta na boa, mas pra gente, brasileiros acostumados a temperaturas mais amenas, e sempre dentro dos nossos carrinhos ( eu ía na padaria de carro ), é duro viu...

Nos últimos anos eu já estava de saco cheio, falei que queria um carro, nem que fosse um poisé, mas sempre acabava concordando que pagar taxas, impostos, seguros, fazer manutenção, tudo pra andar 2 km de manhã pro trabalho e 2 km de volta... me parecia um disperdício.

Em março o Bart comprou um carro novo. Como o nosso poisé tá velhinho, valia mais a pena pegar um desconto que dão quando você não tem carro pra trocar do que dar nosso poisé pra concessionária, então eu "herdei" o Sponge Bob, nosso Hundai Atos amarelo. Minha qualidade de vida aumentou incrivelmente. Nas manhãs de chuva, é só pegar um guardachuvinha e dar uma corridinha. Até o guarda-roupas mudou, agora não preciso de casacões de neve e sapatos super isolados. Até calças, já pra usar tecidos mais leves sem congelar. E meu humor melhorou mil porcento.

Por isso recomendo quem está chegando aqui agora, aproveite sim todo o transporte público holandês, mas tenha um carrinho de backup pros dias frios e chuvosos ou praquelas idas ao supermercado.

A boa notícia é que a concessionária onde compramos o carro novo do marido está com uma promoção num carro novo, e como ele é pequenino e leve há isenção de taxas, e por um precinho camarada conseguimos dar o Sponge Bob e encomendar um novinho em folha. É um Suzuki Splash, pequenoto, fraquinho ( motor 1.0 ), mas novinho, com ar condicionado, rádio e vidro elétrico. E cheiro de carro novo!

Claro que sendo a Holanda, nada de pegar o carro em uma semana, vai demorar 3 meses pro carro chegar, mas vai ser um pitéu!

quarta-feira, junho 29

Festa do Caqui


A empresa está organizando o Brazilian Supplier Day. Serão mais de 100 brasileiros visitando a empresa, e é claro que eu acabei entrando na dança não só como parte do projeto, que aliás nem é meu trabalho, mas como tradutora, recepcionista, motorista ( !!! ) e agora, agente de turismo.

Sabe o que mais está me impressionando? A sanha gastadeira desse povo. Muitos são diretores que estão cansados de vir e voltar pra Europa e EUA, mas uma metade é o middle-management que quase nunca vem ou está vindo pela primeira vez. Esses vem com um grande interesse em mente: compras!

Resolvi que vou fazer um mapinha pro povo cair nas compras sozinho, mas olha o que me pediram dicas de compras: Ipad ( campeão ), smartphones, perfumes ( tem um que quer comprar uma embalagem especial de 1 lt de Channel 5, eu nem sabia que existia embalagem desse tamanho ), tenis, roupas de marca ( Tommy H., Guess, Diesel, Replay e Von Dutch ). Como dica de lembranças eu estou colocando na lista: chocolates Leonidas, produtos da Rituals, souvenirs na VVV.

Enquanto isso, no Estadão, a notícia de que a inadimplência em 2011 está batendo record e o individamento por família está alarmante, 60% da população tem mais de 40% da renda mensal comprometida com financiamentos. Apesar do aumento de renda da população brasileira, a poupança nacional praticamente não subiu. Isso quer dizer que o povo está comprando, está comprando mais do que pode, e não está aproveitando o dindin mais abundante pra fazer um pézinho de meia.

Na minha família mesmo eu vejo isso, poupança? Nunca tive, acho que nunca vou ter. E quando eu falo que eu tenho uma TV apenas, ou que só agora temos 2 carros e mesmo assim o meu é um poisézinho com mais de 10 anos, que não vou todos os meses para Paris, eles me acham sovina.

A única coisa que eu mudaria no meu orçamento é que se eu achasse uma empregada de confiança, eu pagaria por uma limpeza BOUA semanal, fora isso, tenho tudo o que eu preciso e quero.

Sabem, eu tava pensando, quanto da renda do brasileiro vai com manutenção de imagem. Por exemplo, marca das coisas é muito importante pra esses brasileiros vindo pra cá, marcas não reconhecidas no Brasil não despertam interesse, eles querem mostrar a camisa CK ou o tênis Adidas. Até pra chocolate, eu sugeri o Leonidas pra um e ele respondeu "mas não tem Godiva"? Quem já comeu Godiva SABE que é propaganda enganosa, mas o nome… O cara que quer o vidro de 1 lt de Chanel, o perfume é válido por 5 anos, será que a pessoa usa mesmo 1 lt de perfume em 5 anos? Se sim, valha-me Deus, que eu nunca tenha que conviver com ela.

Bom, tcheu ir lá terminar meu mapinha, e bobeou, na sexta feira estarei no centro da cidade fazendo uma visita guiada pelas maravilhas consumistas de Eindhoven ( ha ha ha ).

terça-feira, junho 28

Há 20 anos


Eu estava no primeiro ano da faculdade quando levei o pé na bunda mais fenomenal da minha carreira "romântica". Chorei, sofri, e uma amiga ditou: só se cura um grande amor com outro. Você vai sair com alguém nessa sexta, era uma terça.

Naquela sexta íamos todos pegar as notas finais e sair pra comemorar, e não sei como acabou que essa amiga acertou de um colega de classe que morava perto de mim me pegar e depois pegá-la, assim iríamos todos num carro e "rachávamos" gasolina e estacionamento na balada.

A campainha tocou, abri a porta e lá estava ele, lindo, com um Verona dourado zerinho, todo sorridente. Meu sofrimento pelo ex acabou ali.

O rapaz era o M. e eu mal o tinha notado antes, eu achava até que ele namorava com a C., outra menina da nossa classe. Logo me disseram que a C. estava interessadíssima, mas que para o M. ela era só uma amiga. Acabamos ficando junto aquela noite e começamos um romance.

Vi quando ele contou pra C. que estávamos junto e vi como ela ficou chateada. Sei lá, fiquei com dor na consciência, e com certeza a menina me odiaria pro resto da vida.

Alguns anos depois fomos estagiárias na GM, eu na importação, ela na exportação. Foi um ano de crise, nenhum estagiário iria ser efetivado. Meu departamento me ofereceu uma vaga como terceirizada, que não era assim uma Brastemp mas era melhor que ficar desempregada com o diploma na mão. E pelo menos eu continuaria na GM, onde manteria meus contatos ativos.

No último dia de estagiária, recebi a notícia de que iriam me efetivar num outro departamento. Fomos 5 estagiários efetivados naquele ano, de mais de 100 estagiários. C. não foi efetivada, e na hora que meu supervisor de estágio me perguntou se eu tinha algum colega de classe para indicar, na hora o nome da C. me veio à mente. Sei lá, eu sentia que devia alguma coisa a ela.

A C. passou na entrevista, ficou como terceirizada alguns meses e manteve os contatos dela ativos, e logo ela recebeu uma proposta para ser contratada na engenharia. C. está na GM até hoje.

Ontem a noite nos encontramos no Facebook, e falando da nossa antiga turma, os contatos que ainda temos, as panelinhas que acabaram também se dissolvendo com o tempo, ela me disse que não manteve contato com praticamente ninguém e que eu fui a pessoa mais legal da classe.

Gente, ela não sabe o peso que me tirou das costas. Foram 20 anos pensando na rasteira que passei na moça. Ela ainda não casou, e eu muitas vezes me perguntei, será que o M. estava destinado a ser dela e eu interferi na ordem das coisas? Doidera minha, eu sei. O M. está casado, feliz, tem um filho, foi por anos meu namoradinho on-and-off, se tornou um grande amigo, viajou comigo e com o meu irmão, foi importante na minha vida.

E eu fiquei pensando. Foi um favor que eu fiz sem pensar, e que de alguma forma ajudou muito e transformou a vida de alguém pra melhor. Mas a maior surpresa da história toda é pensar que por 20 anos eu achei que a moça me detestasse e ela acabar me falando que eu fui a pessoa mais legal da nossa classe.

Fiquei feliz.

segunda-feira, junho 27

Beep Beep Ka-bam!


No dia que eu fiz 18 anos, eu comecei o processo de tirar a carteira de motorista.Na minha primeira aula prática, o instrutor disse: você tem que dirigir por você e pelos outros, não importa se você estiver certa, se o outro cometer um erro, você pode se machucar ou até morrer num acidente. Basta uma distração, um bebê que chora no banco de trás, um infeliz que está meio bêbado, um motorista inexperiente que faz alguma besteira, e quando você menos espera, você está entrevado numa cadeira de rodas.

Naquela mesma semana uma vizinha nossa, muito amiga da minha mãe, voltava do supermercado com um saco de compras no banco do carona ( naquela época dos sacões de papel, lembram-se? ), o saco ameaçou virar e o que estava no topo era uma caixa de ovos, a primeira reação dela foi de socorrer os ovos, e em 2 segundos, ela sem perceber virou a direção, ía bater num carro no sentido oposto, jogou-se num muro, sem cinto, era pre-airbag, por sorte conseguiu desviar do carro mas se machucou tremendamente no tal muro.

A lição registrou-se para sempre: dirigir por mim e pelos outros.

Quando me mudei pra Holanda, na minha primeira aula o instrutor me deu um livro na mão e disse: decore cada letra, se você seguir as regras desse livro, assim como todo mundo segue, nenhum acidente acontecerá. Na hora eu lembrei do meu primeiro instrutor e achei essa lição péssima.

Mas aqui é assim, cada um segue as regrinhas do tal livro cegamente, que nem uns robôs acéfalos. Tem uma regra que, a menos que a rua em que você esteja seja preferencial, todo mundo que vem das ruelas a sua direita tem preferência. Nos bairros é assim, você pode pensar que aquela meio-avenidinha onde você está é a preferencial, mas se não tiver o losango amarelo, não é.

As ruas do meu bairro estão sendo refeitas, por conta das novas casas e o novo centro de compras que estão fazendo. Uma das avenidinhas foi asfaltada ( era paralelepípedo ) e recebeu o losango amarelo. Acontece que os burros xucros da vizinhança já estavam acostumados a ter preferência e entram na avenidinha com tudo, sem nem olhar. Já vi vários acidentes, então a prefeitura decidiu fazer um "stoep", que é uma lombadinha na ponta da rua e quer dizer que todo mundo vindo dos outros sentidos tem preferência.

Hoje vi uma cena horripilante. Eu vinha pela rua do bairro quando um lourão babaca entrou da direita com tudo, sem nem olhar. Estávamos na única rua do bairro que ainda não tem o stoep, mas tem placa, dente de tubarão no chão, só falta ter um sinal de neon "páre e olhe". Eu, que ainda dirijo por mim e pelos outros, vi um outro babaca vindo na avenida nova à toda, "estou na avenida preferencial não tenho que me preocupar", mas o lourão babaca esqueceu que não é mais rua de bairro e entrou a toda e… ka-bam. Gente, que coisa terrível acidente de carro! O barulho, vidro quebrando, nossa fiquei tremendo por mais de hora. Eu vi tudo quase que em câmera lenta, quando percebi que o lourão babaca não ía para, brequei imediatamente, e mesmo assim, um aro de metal bateu no meu vidro e fez uma estrelinha. Aí foi aquele desespero, o lourão ficou preso porque a porta não abria, não dava pra apertar o botão do cinto, tinha um posto de gasolina a 50 metros eles cortaram o cinto, a polícia chegou, todo mundo me perguntando o que aconteceu, aquela gritaria, e na verdade, os dois estavam errados, na minha humilde opinião. O idiota da avenida estava mais rápido que o permitido, e já que ele estava na preferencial não deu atenção nenhuma pro movimento nas laterais. Tivesse ele dentro dos 50 km/hr permitidos e prestando um pouquinho de atenção, teria conseguido desviar do lourão babaca, e se não conseguisse, pelo menos o impacto seria mais suave. O lourão babaca nem se fala, distraidaço nem viu a sinalização, mas pior: como pode convergir a direita sem nem olhar o que vem da esquerda? Lei ou não lei, quem tem "koe" tem medo, e se fosse um caminhão?

Eu já dirigi em vários países, incluindo na Inglaterra e Chipre, com o volante do lado direito. Já dirigi naquelas avenidonas americanas de 12 pistas, nas Autobahns alemãs, e em autopistas mal sinalizadas no México. Sem falar que sou paulista, quem dirige em SP dirige em qualquer lugar. E na minha vasta experiência automobilistica eu digo: não conheço pior motorista que o holandês. Nem pior estacionador, se a vaga não for gigantesca, ficam aqueles carros meio pra dentro, meio pra fora.

Não é a toa que o único piloto de F1 holandês que eu ouvi falar, o tal Jos Verstappen, foi escolhido pela TV Inglesa como o pior piloto daquela temporada. É cultural!

terça-feira, junho 21

Dinheiro não compra felicidade... Mas que é bom ter, ah isso é!


Ontem na aula de holandês o tema era: é possível ser feliz sem dinheiro.

Como exemplo, a professora contou que quando ela era criança, um simples piquenique num parque era um acontecimento, e falou da cesta de comida, das brincadeiras e do laguinho. Tudo muito idílico e romântico.

Fiquei pensando que a pobreza holandesa não se compara à pobreza brasileira, ou será que minha impressão sobre a pobreza brasileira, ou o que eu conheço dela, é que não deixa espaço pra romantismo?

Tive que lembrar de um exemplo "suave" pra dar na aula. Contei que quando eu era pequena, minhas tias casaram ( são bem mais novas que minha mãe ). Como a grana era curta, minha mãe foi fazer um curso de bolos pra poder fazer o bolo delas. Minha tia S casou quando eu tinha uns 8 anos, minha tia L um ano depois. No curso, ensinaram o pão de ló de laranja e a cortar aquela parte abauladinha pro bolo ficar reto. Minha mãe decidiu que era muito desperdício de bolo, e que iria compensar as juntas com bastante chantilly. O chantilly era na verdade o que hoje se chama de buttercream, uma barrinha de manteira Paulista batida na batedeira com uma lata de leite condensado. Até hoje é um dos meus favoritos. O recheio era creme branco ( 2 partes creme de leite, uma parte leite condensado, uma parte leite, uma parte leite de côco, uma colher cheia de maisena pra engrossar ) com pêssegos em calda. Mas minha parte favorita era a decoração. Minha avó comprava côco partido em pedaços grandes na feira, e a gente passava no fatiador do ralador para fazer lâminas finas, essas lâminas eram enroladas em forma de caracol e "fincadas" no buttercream que cobria o bolo. Minha mãe deixava eu ajudar nos rolinhos de côco e eu achava tudo muito lindo. Het Einde.

Seis anos depois minha tia L já tinha meu primo D. e ele tinha uns 4 anos. Eles estavam com dificuldades financeiras e ao chegarmos na casa deles o D estava com os olhinhos vermelhos: o dinheiro não deu pra comprar as "coisinhas dele" no supermercado. Eu e minha mãe corremos pro mercado e compramos o que eu e meu irmão sempre adoramos quando crianças: danette, baconzitos, bolacha recheada de chocolate, bala soft. Meu primo ficou felizinho, mas explicou: minhas coisinhas são pasta de dente, uma escova de dentes nova e shampoo.

Anos mais tarde, a irmã dele voltou da escola chorando, as crianças estavam tirando o sarro dela porque o cabelo enrolado dela estava super armadão, o motivo: estavam há semanas sem shampoo e ela estava lavando o cabelo só com sabonete.

Eu já era adulta e estava trabalhando na GM. Minha tia S estava com problemas financeiros. Numa sexta feira ela ligou pra minha mãe pedindo um dinheiro emprestado porque se a conta de luz não fosse paga naquele dia, seria cortada. Apesar da correria pra pagar a luz, o pagamento não foi feito a tempo e avisaram que a luz ficaria cortada todo o fim de semana. Eu fiquei de coração partido por causa das crianças, e para evitar que eles percebessem a pindaíba, os levei pra casa da praia e ficamos lá o fim-de-semana e segunda-feira, até que religaram a luz.

Na casa da Tia L todos são bons de garfo. Em épocas de vacas-magras as crianças reclamavam que não podiam mais ver ovos na frente. A gente comprava então salsichas, linguiças, frango e dava pra eles. Quando a situação melhorava, ao invés de comprar as carnes, congelar e usar com parcimônia, comemoravam com quilos de bife ( carrrrne ) numa fritada só. Aí minha avó se metia, falava poucas e boas, saía briga, ou então com a minha outra tia… tinha sempre um de cara virada com o outro por causa das bifadas…

O telefone toca cedíssimo num sábado: Adriana, você pode me emprestar um cheque? Minha prima T estava no hospital. Passou mal de noite, meus tios sem convênio levaram a menina pro pronto socorro, estava cheio e ninguém a atendia, ele desesperado a levou pra um hospital particular. Ela precisou ser internada, mas só aceitavam pacientes que deixassem um cheque caução. Meu tio não tinha cheques há anos, então lá fui eu, dei o tal cheque, ela foi atendida.

O governo decidiu mudar o sistema as escolas dos bairros, ao invés de ter todas as séries foram divididas entre "primário" e "ginásio". A T tinha acabado a 1a. Série, e a nova escola ficava meio longe. Minha tia tentou levá-la de ônibus, mas ele passava cheio e não dava tempo delas descerem no ponto certo. Começaram então a ir a pé. A professora da T chamou minha tia pra dizer que a T estava chegando muito cansada todos os dias, que o rendimento dela estava caindo. A solução foi "colocar a T na perua", ou seja, um tiozinho vinha buscá-la, e eu paguei por quase dois anos até a situação melhorar e meu tio comprar um poisé.

Vejam bem, não estou reclamando. Foram essas mesmas tias e tios que cuidaram muito do meu sobrinho quando ele era pequeno e minha cunhada decidiu ir terminar a faculdade. E que até hoje ajudam minha mãe a ir pra médicos, que sempre me buscam no aeroporto, que instalam uma cortina pra minha mãe. Já enrolaram muita coxinha, já suaram litros na boca da churrasqueira em festinhas ( meu pai ODEIA churrasquear ), lavaram muita louça e limparam muito quintal. Quando eu era adolescente e não queria ir pra praia com meus pais, era com a Tia S que eu ficava. Eram e ainda são certeza de apoio num momento difícil, pau pra toda obra.

Mas vi tanta coisa difícil nos problemas financeiros deles, que não consigo encontrar romantismo na pobreza.


segunda-feira, junho 20

Walk the walk

Agorinha mesmo eu estava assistindo ao fim de uma temporada do Projeto Runway. Como não assisti do começo não sei como a Jessica Simpson foi parar ali.

Não a tinha visto tão gordinha, e antes de proferir um "jisuis", me lembrei que assim como eu, você e tantas outras, Jessica Simpson tem fome, lombrigas e pénajaquisse.

Aí ela começou a falar sobre a inclusão de mais modelos pluz size em fashion weeks, e bladibla, e levantou a bandeira "santa protetora dos gordinhos desamparados", que anda tão popular hoje em dia.

Aí achei esse link aqui ó.

E vendo o filminho e dando mais uma googadinhas percebi que apesar de "talk the talk" dona Jessica tá bem longe de "walk the walk": toda a linha e loja dela são ilustradas com fotos da cantora de anos atrás, e dezenas de quilos a menos.

Então porque não ir a um fotógrafo e assumir sua "fofeza" e tirar fotos atuais para a linha de moda dela? Porque vasculhar fotos antigas da época "dourada"?

Gorda a gente aceita, mas gorda safada não rola ( no pun intended ).

sexta-feira, junho 17

Tormenta Mental


- Porque é que muita gente que cansou de baixar mp3 torce o nariz pra baixar livros? Tanto um quanto outro são pirataria. Tadinha da Beyoncé ( e a Gaga, e a Britnéia, e a Rebecca Black ), tá pobrinha porque o povo pirateia as músicas dela.

- E-mail no meu inbox: prezada Adriana, não encontro na net muitas informações sobre a EuroDisney. Já que você mora na Europa, você saberia me dizer se a EuroDisney é perto da Disneylandia de Paris? Leitor, o que respondo?

- Só pra registrar a mesma ladainha de todos os anos: Pousada Villa das Pedras em Morro de SP com café da manhã R$ 370, Iberostar Bahia all inclusive na Praia do Forte € 146.

- Plato precisa desesperadamente de um banho. Como dar banho num gato de 10 kg que corre só de ouvir barulho de água na torneira? E aqui só tem salão pra cachorro, não pra gatos.

- Estou absolutamente viciada no programa Cake Boss. Acho que já assisti as 4 temporadas inteiras. Desnecessário dizer que tive que fazer um bolo no findi e ontem comprei outro. Pé na jaca total.

- As automotivas brasileiras pagaram uma média de 14 mil reais de participação nos lucros para cada funcionário. Imaginem o peão de linha que ganha 2 mil embolsando 14? Pergunta que não quer calar: quanto desse dinheiro vocês acham que cada um colocou na poupança?

- Hoje começa a liquidação de primavera-verão não só na minha loja favorita, mas em praticamente todas as lojas da Holanda. Tenho que comprar um presente para a minha mãe e outro pra sobrinha, mas juro que se eu comprar um pé de meia, meu guarda roupa explode. Virou vício.

- Até o final do ano, o sindicato aprovou que a empresa aumente nossa jornada de trabalho de 8 para 9 horas. Pode parecer pouco, mas gente, como cansa! O ruim não é trabalhar as tais 9 horas, é TER que trabalhar as 9 horas. Aqui na Holanda, o horário de almoço não é gratuito, ou seja, adiciona-se mais 30 minutos. Se eu entro as 8:30, só posso sair as 18:00, e daí tudo está fechado. E para sair as 17:00 para ir ao cabeleireiro por exemplo, tenho que chegar as 7:00. Vamos receber as horas extras, mas não compensa, pois 52% vai de imposto.

- Com o dinheiro das horas extras eu queria comprar algo completamente superfluo, desnecessário, mas legalzinho, mas não sabia o que. Um Ipad2, claro! Agora, e se eu compro o Ipad2 e logo sai o Ipad3 que estão dizendo que vai ser fantástico? Eu nem tenho o Ipad 1 e já fiquei irada por quem tem, aquele trambolhão pesadão comparado com o novo e fino Ipad2 é de dar raiva, mas e se o Ipad3 for ainda melhor? Espero? Mas daí eu vou ficar encasquetada com o Ipad4.

- Com outra parte do dindin acho que quero ir uns dias pra Disneyland Paris. Pena que os hotéis sejam tão caros, até 3X os preços dos hotéis de Orlando.

- Bom findi pra todos, vou lá espantar o pajé que tá fazendo a dança da chuva aqui na Holanda e já volto.

quinta-feira, junho 16

Nem da grossa nem da fina


Hoje eu estou uma bitch.

Estou com o pavio curtíssimo.

Aqui no trabalho certas coisas não vão bem.

Primeiro que na semana que vem fui convidada para uma conversa com o diretorzão mas já fui "avisada" que o conteúdo é: vaga no projeto brasileiro, só no Brasil por pelo menos 2 anos. E hoje li no jornal brasileiro que a empresa escolheu Ponta Grossa. Aqui na empresa é assim, sabemos as notícias pelo jornal, não pela gerência.

Ponta Grossa! Com tanto lugar legal, vão escolher aquele fim de mundo dos carambas, um frio de cortar a alma, uma cidadezinha dos escafúncios com meia dúzia de rochas e um laguinho barrento. Eu, morar ali? Ni muerta, Soraya Montenegro!

Um dos diretores envolvidos no projeto veio perguntar: e aí Adriana, o que você achou? Caro mio, ótimo pra empresa que vai ter 8 anos de isenção de ICMS, isenção de taxa de importação,  mas coitados de vocês que a cada business trip terão que voar 11 horas até SP, dormir no hotel do aeroporto, pegar vôo para Curitiba de manhã, alugar um carro e dirigir 90 minutos até Ponta Grossa.

Fiz um curso de "gerenciamento". Nesse curso nos dizem que o principal papel do gerente é manter seu "povo" motivado. Pra mim é tudo novidade, eu acho tudo lindo, eu acho tudo fantástico e tenho mil idéias, mas muitas delas, quando vou implementar, esbarro em um ou outro que não dá a mínima pro bem estar ou motivação do funcionário. E isso é muito desmotivante. E meu diretor deve ter faltado no curso, porque ele não mantém o povo motivado, eu certamente não estou.

Eu me matei tanto pra chegar ao cargo de gerência e agora que estou aqui estou profundamente decepcionada. Talvez ser gerente seja bom, mas em outra empresa.


terça-feira, junho 14

Pay forward

Acabei de ter uma conversa bizarríssima, e tinha que dividir com vocês.

Vocês lembram da história da colega de 27 anos que após alguns meses de casada se separou e "juntou" com um colega do departamento, né? Um ano se passou e hoje, conversando, ela me contou que não foi ele o safado que largou a esposa e filhos pra ficar com ela, loirinha peituda 14 anos mais nova, mas o contrário, a mulher conheceu um cara e largou o marido, em pleno Natal, pra se mudar levando os filhos pra casa do novo parceiro. E pasmem, em 3 meses estava casada de papel passado!

Aí, ela estava me falando que eles "descobriram que tinham sentimentos um pelo outro" em abril" do ano passado, mas que eu soubesse a separação foi em julho, mas e o que aconteceu nesses 3 meses entre um fato e outro? Os dois "experimentaram pra ver se funcionava". Cuma? Eu tentei, educadamente, esclarecer: mas… vocês começaram a se relacionar ( leia-se nas entrelinhas: furunfar ) enquanto você ainda estava casada, mas seu marido não percebeu nada, você não se sentia confusa ( leia-se nas entrelinhas: furunfar com um segunda e quinta, com o outro terça, sexta e domingo )? E ela: Adriana, ninguém desmancha um casamento sem antes "testar" o novo relacionamento pra saber se é aquilo mesmo que a pessoa quer. A ex-esposa dele também fez o mesmo…

Ou seja, o "pay forward" nesse caso é o chifre! A esposa do cara o chifrou, então ele vai passar o par de chifres pra cabeça de outro… Afe!

Eu sempre achei que o simples fato da pessoa considerar iniciar uma relação com outro já é o suficiente pra decretar o falecimento do casamento atual, e consequentemente iniciar o processo de separação ANTES de "testar" o novo relacionamento ( leia-se nas entrelinhas: furunfar com o outro e consequentemente presentear o atual com um par de chifres ). Estou sendo inocente aqui?

Eu acho que o "teste" do relacionamento baseado numas escapadelas furunfísticas uma furada, mas o que é que eu entendo disso, né? Só sei que nesse caso, além de já começar meio atravessado, esse relacionamento começou com uma diferença de 14 anos entre um e outro ( é quase uma geração! ) e dois filhos de uma das partes. Hoje mesmo ela estava meio frustrada que, para poder tirar uma semana de férias num resort em setembro, ela vai ter que passar 2 semanas das férias de verão num camping, pois ele tem a guarda das crianças nas férias, tem que viajar pra algum canto, e fica ultra caro para irem, com crianças, para um bom hotel na alta temporada.

Bom, só vou dizer uma coisa: desse pay forward eu não gostei! E tem mais, marido já sabe: se chifrar não conte, e saiba que pra mim, não importam as circunstâncias, traição não tem perdão, jamais!



Tchu be or not tchu be*


Neste fim de semana eu e o marido estávamos discutindo as razões pelas quais eu acho que eu não me adaptaria mais no Brasil ( estávamos falando sobre o convite pra ir de expatriados para o Brasil ).

O primeiro e mais importante, é a segurança. Eu ainda tremo só de pensar em quantas notícias temos de sequestros relâmpagos, de assaltos em semáforos, de carros roubados. Seu carro desaparecer do lugar estacionado é ruim, mas aciona-se o seguro e paciência. Mas eu tenho paúra de sequestro relâmpago, imaginou se for com o marido então, sem saber falar uma palavra em português?

Ter que ficar dando satisfações da minha vida pros outros. Justificar porque eu não posso receber visitas no próximo fim de semana, ter que ficar convencendo o "visitante" de que o compromisso já existente é realmente inadiável e que isso não quer dizer que eu não o acho importante. A sensação de que todo mundo tem o direito de se meter e dar pitaco na minha vida.

Ser julgada pela capa. Ter que usar roupinha de marca porque senão eu sou a requenguela da turma, do departamento, da vila, do Brasil! Meus fornecedores brasileiros sempre vem pra cá com camisas Tommy Hilfieger ou equivalente, relógios carésimos, bolsas de laptop intergaláticas. Tudo com etiqueta beeeem visível, claro. Voltar a ter a neurose com o peso, encarar gente que acha que o gordo é menos inteligente porque é gordo, sofrer pra achar uma roupa que sirva. Comer mortadela e arrotar peru.

A bagunça. As reuniões sempre atrasadas. As consultas médicas ultra atrasadas. Povo que vem te visitar sem nem dar uma ligadinha antes ( eu aaaamo o costume holandês de marcar tudo com antecedência ). Mania de deixar tudo pra última hora ( eu marco minhas férias, como todos os holandeses, pelo menos 4 meses antes, minha cunhada organizou férias pra família no litoral norte 3 semanas antes ).

O complexo de inferioridade do brasileiro. É  melhor ir pra República Dominicana que pra Bahia ( fui pro exteriorrrrrr! ), o creminho Oil of Olay é melhor que um Natura ( NOT! ), ai que tudo essa loção da Vitoria Secrets ( até aquele creme hidratante Paixão cheira melhor ), vamos pra Argentina comer bife ( oi? )( fui pro exteriorrrrr! ), o fulano foi contratado porque "trabalhou no exterior" ( oi2? E se o cara foi ófice-boy em Miami? ).

Desculpaê, eu amo o Brasil… de férias!

* Vendo uma entrevista com o Massa o marido comenta: você sabe que o cara é brasileiro porque todo brasileiro fala tchu ao falar "to". Lembra a guia da Nasa? ( uma brasileira que falava um tchu tão arrastado que doía, mesmo já morando nos EUA a mais de 10 anos )

sexta-feira, junho 10

Confissões de uma não-adolescente

Amaldiçoado seja quem inventou o Blackberry. Esse maledeto tem o poder de acabar com qualquer fim-de-semana, e ainda mais prolongado!

Depois de todo o carnaval que eu fiz na empresa para ser incluída no projeto brasileiro, recebi agora de noite um convite do diretorzão-ão-ão para uma conversa "a quatro olhos" na semana que vem. A mensagem só diz assim: Uma vez que você demonstrou interesse pelo projeto, eu gostaria de conversar com você. Mais nada.

Agora eu fico aqui pensando: o que é que ele vai dizer? eu suspeito que ele vá me oferecer oficialmente a vaga no Brasil, que é justamente o que eu não quero de forma alguma. E agora vou ficar pensando nisso o fim-de-semana inteiro.

Agora deixa eu confessar uma coisa: eu me viro do avesso de nervosismo dessas conversas com diretorezões. Por favor, digam aí, sou só eu? Eu vejo certos colegas entrando e saindo da sala da diretoria como se estivessem batendo papo com o vizinho, mas eu quase tenho um infarte antes, chega até a me dar mal estar.

O jeito é tentar deixar pra lá e perguntar pro meu diretor direto se ele sabe de alguma coisa.

E rumbora aproveitar o findi prolongado.

quarta-feira, junho 8

A little too ironic... Ou a vaca foi pro brejo


Eu não sou de sentar e ficar esperando o sol nascer. Quando eu quero alguma coisa eu tento de toda forma, de todos os ângulos, que qualquer maneira conseguir o que eu quero. If I go down, I will go down screaming, esse é o meu lema. Lembram-se do drama do primeiro emprego na Holanda? E a luta contra as banhas ( ainda no combate, aliás )? Não, sentar e esperar, ou pior, desistir, não é comigo.

Mas isso não quer dizer que eu batalhe com graça, com um sorriso no rosto, com a atitude de uma lady inglesa admirando as flores do campo. I go down really screaming, eu sou um soldado esfolado, sangrando e embarreado dos campos do afeganistão. Eu sofro, eu me acabo, e embora não seja fácil praqueles ao meu redor, informo-os desde o início que no fim, tudo dará certo. Sort of.

Aqui no trabalho, tudo dará certo. Mas eu estou "going down screaming", e está na hora de parar. Falei com quem tinha que falar, fiz o que tinha que fazer, recebi as promessas que eu precisava ouvir naquela hora, e hoje, dez minutos atrás, a promessa de que eu iria tomar conta do projeto brasileiro pros produtos do meu time foi quebrada.

Urrei de raiva, desabafei com um colega, tomei um café COM AÇÚCAR DE VERDADE, derramei 3 lágrimas ( de ódio, frustração e auto-piedade ) e acalmei. E estou agora "entronizando" que serei uma lady inglesa admirando as flores do campo. Mas se não me descabelarei com o projeto que eu quero, também não descabelarei com o projeto que eu não quero. Não me puseram de gerente? Pois então, gerenciarei. Dividi meus pepinos para os subalternos. Sei que eu faria melhor e mais rápido, mas whatever, me pagam ( extra aliás ) para gerenciar, então eu gerenciarei, eles que se esfalfem fazendo mil planilhas de cálculos e preenchendo mil telas e me tragam tudo mastigado para eu fazer meu papel de gerenciar e tomar decisões.

Vocês já ouviram a música ironic da Alanis? Então, vão lá e leiam a letra, está martelada na minha cabeça. Decidi gerenciar hoje, porque ficar trabalhando mil horas extras fazendo trabalho que não é mais meu e tentar no tempo que sobra gerenciar não está dando certo. Será que se eu tivesse feito isso antes, eu estaria agora no tal projeto brasileiro? Ironic, isn't it? Eu ter entendido e mudado quando a vaca já foi pro brejo. Blé.

Meu humor sombrio e esse papo de ironic acabou numa conversa meio sombria aqui no escritório. Um aparentado do Senhor Legal foi eutanasiado hoje. Com cancer de pulmão, fez "greve de fome" 8 semanas porque ele queria morrer de morte morrida, mas acabou não resistindo e pedindo a eutanásia. O chocante na história toda é que a última conversa dele com o filho foi: eu pensei que em fase terminal de câncer, emaciado, que não fosse estar lúcido o suficiente para compreender que quando o médico me der a primeira injeção será o fim, mas aqui estou, entendendo tudo, tão lúcido como sempre estive, sofrendo cada segundo do processo…

Eu e o marido já temos um acordo de que um não desliga os aparelhos do outro jamais, never. Eutanásia, nunca, em nenhuma hipótese. Em hospitais, jamais optar pelo DNR ( do not ressucitate ), irei pros braços da dona morte como fui em vida, I will go down screaming.

Papo pesado esse né.