Eu sempre digo que nós, os consumidores, estamos cada vez mais exigindo preços menores dos nossos produtos: roupas, coisas de casa, até carros! O produtor, não importa em que país, JAMAIS vai abrir mão do lucro dele, então, o preço baixo que o consumidor quer vai sempre ser as custas de material mais barato, mão de obra mais barata, logística mais barata. Antes de meter o pau na GAP ou afins, que contratam trabalho escravo sei lá onde, lembre-se que você consumidor é a parte chave nesse quebra-cabeça, enquanto você estiver comprando frango a 2 euros o quilo sem questionar, eles estarão te fornecedendo esse frango criado com trabalho semi-escravo, ou lotado de hormônio de crescimento, ou mal armazenado…
Anyway, minha empresa, claro, também está tentando baixar custos comprando produtos na China. Tentar fazer negócios aqui da Europa com a China, é pedir pra sofrer: ninguém entende os costumes, ninguém entende lingua nenhuma, o negócio simplesmente não vai. Até 2 anos atrás tinhamos no grupo um rapaz chinês que era a tábua de salvação de todo comprador que precisava fazer negócios na China. Aí a companhia-mãe decidiu abrir um escritório de negócios na China, e contratou um povo pra dar suporte pras plantas européias e americanas. A primeira coisa que você nota é que os chineses todos escolhem um nome "ocidental" que obviamente não é o nome de batismo. Nosso colega chinês aqui no escritório da Holanda é Zheng, ele disse que é o mais aproximado da pronúncia do nome original dele ( que quando ele fala, pra mim soa exatamente como Zheng, mas ele disse que não é ), ele não quis escolher um nome muito diferente. Mas a grande maioria escolhe nome de stripper americano – tenho vários contatos Kevin, Cindy, Linda, Mandy. A chinesa que dá apoio ao meu grupo é Chris.
Ela foi a primeira da classe dela ( eles colocam isso no CV e quando se apresentam na introdução, mencionam em que lugar da classe se formaram ), trabalhou numa empresa eletrônica famosa antes, o inglês é passável. Mas gente, não dá. Capacidade de dedução, pensar sozinha, iniciativa, é tudo ZERO. Eu tenho que escrever e-mail com tantos detalhes, tudo tão explicadinho, que é mais fácil fazer eu mesma. O trabalho de um comprador é 75% confrontacional: o vendedor quer mais dinheiro, você quer pagar menos, é sempre uma batalha – aberta ou velada – mas uma batalha. A mulher tem pavor de confronto, se o fornecedor diz "não posso abaixar o preço", ela responde tudo bem, vou avisar na Europa. O comprador é, por natureza, um sonofabitch, ele tenta negociar com o contato dele, normalmente um account manager qualquer, não conseguiu o que queria, ele liga pro chefe do cara. A Chris só fala com o fulano do nível dela, eu falo pra ela "escalar" pro gerente do cara, ela se recusa – só o gerente dela pode "escalar" pro gerente do cara – os céus vão abrir, São Pedro vai descer e condená-la ao inferno se ela cruzar a hierarquia e telefonar pra alguém acima dela. Da mesma forma, se alguém do meu grupo pede pra ela ligar pro gerente de empresa tal, ela imediatamente convoca uma reunião por telefone com o gerente da empresa e comigo – porque eu sou a gerente do comprador – coisa que aqui só é feita em última instância.
E porque a gente tem que aguentar esse inferno todo? Ah, o precinho pode ser bem camarada. Agora deixem-me fazer uma pergunta séria. A gente se move, se revolta, faz boicote (not) a empresas que são descobertas explorando trabalho semi-escravo ou infantil em qualquer país pobre, agora vejam só – aqui no norte europeu, a média de valor horário ( labour ) por empregado é € 24 – uns €13 vão em média pro empregado, o resto é imposto – na China €2.20! Agora me digam, ganhar menos de 2 euros por hora, é muito diferente de trabalho semi-escravo?
Recentemente eu comecei a usar os esmaltes Shellac, canadenses e carésimos. Meses depois do lançamento aparecem no mercado duas marcas "alternativas", chinesas, claro. Uma delas conseguiu homologação de venda na Europa, ou seja, deve ser ok. A outra não – a mais barata, claro – mas o que me fez rir copiosamente foi o nome, CCO Shellac– abreviação de Carbon Copy Of Shellac.
Há dois meses fui comprar meu Kerastase ( aliás, me perguntaram qual eu uso, é o beginho com tampa laranja, acho que é Nutrisse – e realmente, outros produtos da Kerastase não me agradaram muito ), e ao invés de made in France, tava lá, made in China, e o detalhe: nem um centavo de desconto. Entrei em contato com a Kerastase, me disseram que era falso, pediram o endereço do salão – que era um boqueta aqui em Eindhoven. Voltei lá e eles não vendem mais o produto, agora tenho que ir a um outro salão – todo chiquetoso – mas o preço é o mesmo de sempre e o produto made in France.
Enquanto eu escrevia esse post, a Chris Chinesa ligou, está muito confusa com um documento que eu pedi pra ela fazer. O problema é que eu escrevi: faça a seção 1 assim, a 2 assado e a 3 assado; ela me pede se dá pra eu fazer o documento eu mesma só com os espaços dos números pra ela preencher. Então me lembro do meme que rolou no facebook: futebol Brasil 8 X China 0; educação China 8 X 0. Sério, prefiro trabalhar com qualquer brasileiro estudante de escola pública e formado nas faculdades Bandeirantes, mas espertinho; do que trabalhar com essa chinesa primeria da classe da Universidade de Shangai mas uma completa songa-monga.
