No meu primeiro emprego, empresa internacional com poucos holandeses, estranhei a assistente do grupo ter recusado uma promoção porque queria engravidar em 2 anos e queria continuar no trabalho "simplezinho" porque não queria fazer carreira, queria ser mãe. Meses depois fiquei pasma com a moça que nem quis sair com um rapaz super legal da empresa porque ele "jamais terá condições de sustentar a esposa, e eu quero me dedicar aos filhos". Minhas colegas, uma americana e outra ucraniana, também ficaram de boca aberta, "esse povo é muito corpo mole e a mulherada pra lá de retrógrada" - concordamos as três.
Hoje um rapaz do grupo ao lado veio me pedir um conselho. Versão curtinha do "causo" dele.
Ele namorava a 2 meses com uma moça, ambos tinham 23 anos, quando ela engravidou. Decidiram ir morar juntos e ter o bebê. Ele estava se formando, e entrou aqui na empresa com salário super inicial. Só com o salário dele não dava para os dois viverem, e foi aí que os problemas dele começaram. Ela não quer de forma nenhuma trabalhar, ela quer ficar em casa e cuidar da filha. O salário dele foi melhorando, compraram uma casa, um carrinho, mas ela ainda tem que trabalhar, senão não dá. Ele diz que não há um dia em que eles não briguem porque ela joga na cara dele que ela tem que cuidar da filha "mais de perto" e que ele TEM QUE, de qualquer forma, fazer mais grana pra bancar a vontade dela. Ano passado a filha começou na escolinha, e ele pensou que a cobrança fosse abrandar, já que a menina passa a manhã inteira na escola, mas piorou, porque agora, se sentindo menos "necessária" mas ainda sem vontade de trabalhar, ela quer um segundo filho.
No ano passado ela teve um acidente de carro, nada muito sério, mas ela quer convencer o governo ( e o resto das pessoas ) que ela passou a ter dores de coluna insuportáveis e que não pode mais trabalhar. Claro que pediram mil exames, os médicos não acharam nada de errado, não aprovaram o pedido. Mas imaginem, a moça, aos 27 anos, queria ser aposentada por incapacidade física.
E qual é o conselho que o rapaz me pediu? Segundo ele, a solução pro problema dele seria conseguir ser enviado como expatriado pro Brasil. Assim ele alugaria a casa dele aqui e o aluguel pagaria a prestação, a empresa pagaria o aluguel de uma casa lá no Brasil, daria carro, além do salário dele haveria ainda a verba diária para alimentação e gastos pessoais, e uma compensação pela esposa tão trabalhadora ter que largar o trabalho. Com isso tudo a esposa poderia parar de trabalhar, eles poderiam ter o segundo filho, e ele acha que voltaria para a Holanda depois dos 5 anos do contrato com uma promoção. A pergunta: o que você acha, Adriana?
E eu ali, de boca aberta. Primeiro pela "espertisse" do cara, e eu achava que era só brasileiro que queria levar vantagem em tudo. Segundo, a "sustentação de esposa" seria para o resto da vida, porque depois de 5 anos sem trabalhar, com dois filhos, ela não ia querer neeeeem saber de pegar no batente quando voltasse pra Holanda, e teriam que viver sem os benefícios de um expatriados. E terceiro, é que loucura é essa de querer mudar de país assim sem nunca ter visitado o Brasil? Convenhamos que o Brasil não é a coisa mais fácil de se acostumar, especialmente para um Holandês do interiorrrr como ele, considerando-se aí que não se sabe nem onde a fábrica será.
Minha vontade era falar pro cara rever a relação dele, que segundo ele é "um tormento", mas em briga de marido e mulher não se mete a colher, né? Então eu só disse que eu, se fosse ele, tentaria dar um jeito de ser incluído em uma dessas viagens de visita a fornecedor pra, pelo menos, ter uma idéia do que o país é, mesmo que essa idéia seja uma ínfima idéia.
Depois a estranha sou eu.


