quarta-feira, agosto 10

Tenho boca mas não vou à Roma


Será que outra crise vem aí?

Um dos meus funcionários é absolutamente viciado nas aplicações da bolsa de valores, aqui na Holanda o mais comum é ter uma conta num tal de BINK. O site desse banco fica mostrando gráficos e evoluções de preços, e se antes esse rapaz já entrava pelo menos uma vez por hora no tal site, ontem as 11 da manhã ele ainda não tinha aberto o outlook dele, olhos fixados em cada pontinho que a bolsa ía pra cima ou pra baixo. Às onze horas ele fechou o site, suspirou e reclamou: acabei de perder um carro. Acho que quem arrisca petisca, mas também acaba comendo gato porque não tem dinhero pra comprar a lebre, e acaba sem comer a mortadela ou arrotar o peru. Quer segurança, não quer perder o carro, poupança, ué.

Daí vem um véio, também preocupadíssimo com os investimentos dele na bolsa: eu acho que com a tragédia nos mercados essa semana, a empresa nem vai mais abrir a fábrica no Brasil… Bom, aqui na Europa a gente só se ferra, primeiro temos que socorrer Portugal, daí a Grécia, agora é a Espanha. Eles vão pra praia e a gente "aqui em cima" paga as contas deles (!!!). Só faltei perguntar se ele é parente do Wilders ( político de extrema direita Holandês ).

E a Itália, pelo jeito, vai querer tirar de nós, turistas, até o último cent. Eu queria passar uns dias em Roma com o marido, já que tem umas passagens Ryan Air barateeenhas saindo de Eindhoven. Em 2006 fiquei numa pensione baratinha perto da Piazza di Spagna, paguei 104 euros. A mesma pensione está agora 146 euros, e está lotada até dezembro. Pensei que seria legal ficar num B&B, apesar de todos serem perto do Vaticano ( eu queria entre a Piazza di Spagna e Piazza Navona ), mas até esses estão lotados. Pelo jeito não vai rolar mini-férias em Roma.


terça-feira, agosto 9

Nunca entenderei


Eu achei que já tinha visto todas as bizarrices do povo holandês. Eu estava errada.

Ontem, movidos por mais 2 casos de "burnout" no departamento ( são 4, num grupo de 60 ), tivemos um curso sobre o que é o burnout e como reconhecer os primeiros sintomas.

Primeira consideração é que a diretoria da empresa prefere nos treinar para reconhecer os sintomas do que solucionar as causas do problema.

Mas então, o profissional de saúde descreve o que é o burnout. É uma exaustão completa a longo prazo, e diminuição de interesse sobre qualquer coisa. Disse o profissional que é uma condição que vai agravando-se até culminar na crise, o tal burnout, que deixa o funcionário incapacitado.

A pessoa com essa crise acorda um dia sem capacidade para levantar da cama, sem interesse nem em ir tomar banho para começar o dia. Muitos nem contactam a empresa para avisar que estão doentes, no caso desses 4 foram as esposas que ligaram.

Eu, que não nasci a passeio, pensei nas dezenas de vezes que eu acordei com vontade zero de continuar o dia, de encarar o chefe ou de ir praquela reunião difícil, mas as contas precisam ser pagas, os gatos precisam de comidinha especial e a KLM aumentou os preços. Mas no meu caso, não tinha ( ou eu achava que não tinha ) chora-me-dói, eu tinha que ir pro trabalho.

Aliás, falando em chora-me-dói, essa condição só é reconhecida como problema de saúde aqui na Holanda, e se você pesquisar na internet, as pesquisas são todas de holandeses. O que me faz pensar que o povo aqui tá achando forma pra justificar o pânico que os ataca se alguém ousar chacoalhar um pouco a vidinha previsível deles.

Mas assumindo que os pesquisadores estejam certos, eu achei que o negócio se resolvia com um mês de malemolência em casa ou melhor ainda, que o cara vá pra um lugar ensolarado, andar de bicicleta ou beber Piñas Coladas à brisa do mar, mas nããããão, o negócio é serííííssimo, e leva até um ano para o funcionário se recuperar ( !!!! ). Eu juro que eu tento compreender, mas não consigo.

Um dos colegas voltou depois de 3 meses para trabalhar meio periodo, vem de manhã e na hora do almoço vai embora, todo com cara de constipação. Ele vai ficar trabalhando meio período por mais 3 meses.

O outro já está a 3 meses em casa mas vai ficar 6, porque o caso dele é mais severo. A mulher dele esteve aqui ( ela trabalha na empresa, em outro departamento ) e disse que ele "mal" consegue segurar um cigarro na boca. Ahá, "mal"… sei…

Eu acho que é essa vida sem dificuldades que eles tem desde o nascimento, já falei sobre isso aqui. Não é que eles sejam más pessoas, só não estão acostumados a adversidade. Acho eu.

Sabe o engraçado, se é que há graça nessa história toda? É que quando o arbo-arts ( médico do trabalho ) começou a falar dos primeiros sintomas do burnout, todos nós, que vivemos atolados de trabalho, estalamos os olhos: problemas de memória, irritabilidade, falta de concentração, problemas pra dormir ( sono o tempo todo ou não consegue dormir ), distúrbios de apetite. Ha ha ha, todos nós temos tudo isso…

Cadê a Dra. Alice pra me dizer se esse trem é de verdade ou é só mandar esse povo pra Minas que eles voltam tudim bão?

segunda-feira, agosto 8

Quem vê cara...

No mês passado, nós os novos gerentes do departamento tivemos um curso direcionado à avaliação e gerenciamento de pessoas. Esse ano nós passaremos a ser responsáveis pela avaliação de performance dos nossos funcionários, o que determinará o aumento salarial deles.

No curso "ensinam" que a gente não pode incluir na avaliação pontos subjetivos como aparência física, religião, idade e modo de vestir. O modo de vestir deu discussão porque nós somos a cara da empresa pro nosso fornecedor, pega mal o comprador ir lá molambento falar com o vendedor.

Eu acho dificílimo ser 100% objetiva.

Eu já disse aqui que o OldFart fez dieta e emagreceu. Ele diz que foi 25 "pounds" mas eu sei lá, não parece. E ele queria que o povo ficasse comentando e dando parabéns, mas holandês não é de ficar babando ovo de ninguém. Há já algumas semanas ele vem com cinto na calça e suspensório, ridículo, e quando alguém comenta ele diz "é que eu emagreci tanto que só o cinto não segura as calças". Hoje um colega disse: ei OldFart, porque você não aproveita a liquidação pra comprar calças novas? Eu tenho que me repetir mil vezes: ponto subjetivo… ponto subjetivo… ponto subjetivo…

Mas não adianta, eu não gosto do cara e ele não gosta de mim. Após o anúncio hoje de que eu estaria fazendo a avaliação dos meus funcionários, ele nada discretamente perguntou: mas você não vai pro projeto brasileiro? Vocês precisam ver a cara dele quando eu respondi "não". E depois eu o vi comentando com um colega que "sou mesmo azarado, a única brasileira da empresa e ela vai ficar aqui pra gerenciar o grupo e não no projeto brasileiro".

Eu fico me perguntando mil vezes se é injusto essa relutância que eu tenho em trabalhar com o fulano, e eu cheguei a conclusão de que ele só vai mudar se eu, ao invés de ficar puta da vida com ele mas engolir, discutir os problemas diretamente. Por exemplo, hoje foi o dia de volta das férias, eram 11 da manhã e ninguém sabia do paradeiro do véio, todo mundo procurando. Eu mandei um SMS e nada. Ele foi aparecer meio-dia, disse que chegou de viagem muito tarde ontem e que resolveu tirar meio-dia off, agora me digam, vocês não ligariam pra pelo menos avisar? Ou mandariam um e-mail, SMS? Eu tenho agora que sentar com ele e dizer que todos nós temos a liberdade de tirar um dia off, mas que temos TODOS, até nosso diretor, a obrigação de avisar nosso superior. É verdade ou não é? Sério, eu me sinto mãe de um adolescente revoltadinho. Vou mudar o codinome dele de OldFart pra Kabauter ( anão de jardim ).

sexta-feira, agosto 5

Maldição


Ponei Maldito Ponei Maldito La la la la la laaaa la

quinta-feira, agosto 4

Apertem os cintos...


Será que eu sou a única que antes de comprar uma passagem aérea pesquiso idade da frota, treinamento dos pilotos, onde a empresa faz a manutenção dos equipamentos, horas de treinamento dos pilotos e crew, índices de acidentes? Esses foram os critérios que barraram a TAP e a Ibéria na minha listinha ( se bem que comparei faz uns 6 anos ). Não, não vou dar bola pro azar. Mesmo nas maiores empresas acidentes acontecem, vide o da Air France, que agora descobriram foi falha humana.

Li que a TAM está liberando pilotos que não falam inglês, como pode? Como pode um piloto não falar inglês? Como pode uma empresa como a TAM, que sempre teve boa fama, liberar? Como pode ninguém fiscalizar, proibir e punir sériamente? E se há uma pane, o piloto precisa receber instruções da torre mas não entende patavinas? Tô pasma.

E quando não são as empresas aéreas tentando ferrar a gente, é o próprio passageiro. Com todo o respeito e não levem a nível pessoal, mas alguém vai morrer se não for gastar dinheiro naquela meleca de Bariloche? A brasileirada é tão ridícula que mesmo com o vulcão lá cospindo cinzas, neguinho quer ir pra Bariloche, morre se não for, e pega o único vôo da única empresa que se arrisca a manter vôos pra região. Aí neguinho chega na conexão, o vulcão cospiu mais cinzas, cancelam o vôo de Buenos Aires pra Bariloche, a empresa aérea diz que é "interpérie da natureza" e não dá nem um copo d'água pro passageiro, e eles vão pro consulado reclamar, como se o consulado pudesse fazer alguma coisa contra a estupidez humana ( do passageiro, porque da empresa é só ganância mesmo ). O consulado chegou ao ponto de colocar no site deles aviso para passageiros de que essa é a política da aerolíneas argentinas, que o consulado não pode fazer nada, mas o povo continua tentando ir. Caramba, como o Brasil não quer ser chamado de terceiro mundo se o povo só se comporta como tal? Quando o vulcão na Islândia cospiu fogo, tudo parou. Enquanto houve risco, ninguém voou. Mas o que mais me admira é o fulano arriscar comprar a tal passagem, ver que nenhuma outra empresa está mantendo os vôos - mas ele o espertinho achou uma bocada - arriscar, e quando dá errado, ele vai pro consulado reclamar que tem que pagar hotel em Buenos Aires do próprio bolso. Vi no jornal neguinho reclamando que não tem como pagar hotel até a conexão de volta pro Brasil, ué, e ía pra Bariloche fazer o que, pagar as coisas lá como?

Cada vez entendo menos meu próprio povo.

terça-feira, agosto 2

Buemba! Buemba! E não é do Macaco Simão.

Chatona Piovani diz que casou. Né... A recém casada entusiasmada abriu o coração: ó que linda minha aliança Chanel. Sobre o noivo, nada disse. Ah, o amor...

Adriane Galinhesteu peladona de novo. Não sei se foi silicone ou photoshop, mas a maternidade ( ha-ham ) parece ter contribuido para suas curvas peitorais ( ha-ham 2 ). Ela podia ter aproveitado a anestesia e corrigido o "desvio de septo"( ha-ham 3 ). Mas venenos a parte, tá bonitona, considerando que ela vai virar os quarenta, corpinho ainda dos 20.

E a Sandy. Putz, a Sandy. Vocês já procuraram no Twitter o termo Sandy? Ha ha ha, o Brasil é divertido demais, sô.

Pensando bem, que buemba que nada. Foi só uma típica semana brasileira.

Mas… Putz… A Sandy...

segunda-feira, agosto 1

1, 2, 3, 4, 5 e 6

1

Que vocês acharam dos vestidos repetidos da princesa ( ou duquesa? ) Catherine ( ou só Kate? ). Eu confesso: achei muito legal. Ela provavelmente ganha a maioria das roupas que tem, ou usa o dinheiro da "mesada real", pode comprar mil vestidos, mas com certeza quis mostrar que gente inteligente e consciente da crise pela qual o mundo inteiro ( menos o Brasil? ) passa, não comete a burrice de descartar um lindo vestido só porque ele foi usado uma vez. E agora aqui pra nós, tem bom gosto a moça, afinal, ela foi a um casamento com uma roupa que tem cinco anos, que ela comprou sem a mesada real, e estava chiquérrima. Tem muita socialite brasileira imbecil que devia copiar o exemplo.

2

Meu marido não quer ir aos EUA porque por lá instalaram aquele body scan que te vê pelado nos aeroportos. Eu pouco me importo, se o guardinha quiser dou até uma reboladinha pra ele, mas o marido morre de vergonha. Agora estão instalando nos aeroportos brasileiros. Conto pro marido ou espero ele surtar ao ver, in loco, a tal máquina?

3

Falando da tal máquina do scan pelado, já fui "vítima" da mesma em São Francisco. Como brasileira tive meu cartão de embarque marcado como "suspeita" e fui scanneada em todas as conexões que fiz em 2005. Ironia do destino, esse mesmo povo agora tá disputando a grana dos brasileiros a tapa, ainda hoje no estadão está uma materia sobre a venda de imóveis para brasileiros na Flórida, estamos salvando o emprego de muita gente por lá, e somos agora o povo mais bajulado de várias partes daquele país. No fim, acho que meu passaporte brasileiro, por incrível que pareça, vai ser mais valorizado por lá do que o europeu.

4

Merece post a parte, mas comentarei mesmo assim. Sempre reclamo do que o brasileiro paga nos resorts Iberostar no Brasil, cês lembram, né? Ontem pesquisamos: 14 noites no Iberostar Praia do Forte ( premium ) em quarto com vista para o mar no booking.com: R$14.670; as mesmas noites na TUI.de: €2666. Mas, infelizmente, depois da experiência no Grand Palladium Imbassaí no ano passado ( venderam diárias para brasileiros por 99 "reál" ) eu e o marido concluímos que resort no Brasil só é viável se houver esse "filtro" para controlar o nível dos hóspedes. Mas e europeu, não tem europeu xexelento? Ô se tem, mas o filtro desses é a distância: eles vão pra Marbella, Algarve, Ibiza e afins, aqui "pertim".

5

Estou cada vez mais apaixonada pela minha recém adquirida Nespresso. O George Clooney ainda não deu aquela passadinha lá em casa pra me trazer umas cápsulas nem eu o encontrei na Nespresso Boutique de Eindhoven, mas ó, o café é diliça demais! E ó que eu só tomo decaf, que é igualmente delicioso. Caro, mas delicioso.

6

15 dias sem carboidratos, 205 to go.
:o(




quinta-feira, julho 28

Vício e viciados

Eu tinha 9 anos e era gordinha. Pedi pra minha mãe me levar no médico pra emagrecer, o médico me deu uma dieta razoável para uma menina de 9 anos, e nos fins de semana eu podia comer 2 itens da lista proibida. Voltei ao médico depois de 30 dias e tinha emagrecido 1.5kg, ganhei muitos parabéns e uma maçã. Saindo do consultório minha mãe, visivelmente desapontada disse: tanto sacrifício pra emagrecer só 1,5kg. Meu regime acabou ali.

Quando eu fiz 12 anos minha tia estava indo a um médico em São Caetano e estava emagrecendo a olhos vistos. Eu quis ir, minha mãe deixou. Ainda lembro de pegar o ônibus pra encontrar minha tia, pegar outro ônibus com ela, lembro da consulta, lembro da dieta e meu primeiro potinho de remédio. Aos 12 anos eu ganhei um lindo potinho amarelo de anfetaminas: anfepramona, triac e diazepam. Dessa vez voltei ao médico depois de 30 dias com 5 kg a menos, minha primeira ( e única ) nota vermelha, mas eu e minha mãe estávamos felizes. Esse médico, 15 anos mais tarde perdeu a licença.

E não parei mais. Tome anfetamina non-stop dos 12 aos 26 anos.

Pode parecer fácil, ir ao médico, pegar receita, mandar aviar, tomar, emagrecer, manter, mas não é. Você vai se acostumando com a dose, o médico se recusa a aumentar, você pára de emagrecer, ou começa a engordar, e precisa de uma dose maior. Ou então, na época da faculdade e estágio, como arrumar tempo pra esperar hooooras numa sala de espera do médico que está sempre atrasado. Ou então é simples curiosidade. O gordo sempre tem outros amigos gordos que conhecem uma farmácia lá em Moema, ou tem um farmaceutico do balacobaco… E é assim que muito gordo cai no mercado black de anfetamina.

Primeiro foi o remédio da Dr. Tânia, em Moema. Uma farmácia de manipulação podre de chique, a gente chegava e pedia a fórmula natural da Dr. Tânia 1, 2 ou 3 - os números representavam a "potência" da fórmula. A menina no balcão explicava: a número 3 só em uma "emergência pra caber num vestido". Ninguém sabia o que tinha, e eu cheguei a tomar a Dr. Tânia 3, dose dupla por meses seguidos. Tava linda e magra e fazia o maior sucesso na Limelight.

Denunciaram a Dr. Tânia, um magro - claro, e descobrimos o véio Gera. Véio Gera tinha a melhor fórmula do universo, era tão forte e tinha tanta coisa que o primeiro dia você mal conseguia beber água. Tomei anos. Até a família da minha cunhada, em Curitiba, me pedia pra mandar. Até o véio Gera morrer sem deixar a receita das pílulas. Daí desesperadas, eu e minhas amigas gordas, fizemos um formulário azul falsificado, carimbo, e comprávamos de farmácia mesmo, pelo menos pra manter o peso.

Isso que eu estou contando não é nada perto do que existe no Brasil, a terra onde só magros vivem, os gordos sobrevivem. Cheguei a ir ver as cápsula de virus italiano: cápsulas de virus estomacais que te davam enterite por uma semana e você perdia até 6 kg - diziam. Esse eu não tive coragem. Tinha uma louca que injetava remédios de cavalo em gente, dizia que "queimava" a gordura - também não tive coragem.

Passei por Spas caríssimos, fiz mil aplicações de tudo que diziam que derretia banha, fiz todas as dietas malucas que inventaram. Acabei mutilando meu estômago e aspirando as banhas.

Fazem exatamente 10 anos que eu não coloco uma anfetamina na boca. Cheguei a comprar, numa das minhas idas ao Brasil, mas e o medão de ficar viciadona de novo? Estou agora tentando emagrecer o que ganhei depois da transfusão de sangue e está muito difícil. Fico me perguntando se eu ferrei meu metabolismo com tanto treco que tomei, ou se é efeito do tal Mirena que eles juuuuram que tem só um pouquinho de hormônio de ação local, ou se é mesmo idade. Ou tudo junto.

Hoje, depois de dois dias comendo pouquíssimo, quando a balança disse que eu GANHEI 400 gramas, quase chorei de raiva. Nesse momento, se eu tivesse um potinho de "bolinha" ( como nós, os viciados nos referimos às anfetaminas ) teria recomeçado. É por isso que eu entendo as recaídas dos viciados em qualquer substância, qualquer adversidade e a gente corre pro vício.

Estão pra proibir as anfetaminas no Brasil, eu acho besteira. Muitas pessoas se viciam como eu, mas muitas fazem o tratamento direitinho e em 3 meses estão saudáveis, com a alto estima lá em cima, levando suas vidas felizes. E os viciados, como eu já contei, contam com um imenso black market, que vai continuar existindo, só que com remédios vindos da India, da China ou sei lá o que, sem controle nenhum da Anvisa.

Agora me resta continuar passando fome, mesmo com energia zero tentar fazer uns exercícios, e rezar, rezar muito. Qual é o santo dos gordos?

quarta-feira, julho 27

E depois os subdesenvolvidos somos nós


No jornal, hoje, a notícia dos holandes que deixaram três crianças de 7 meses, 2 e 4 anos num barco e foram jantar num outro barco. O barco desatracou, ficou a deriva e foi achado por um pescador que chamou a polícia pra socorrer as crianças. As crianças estavam assustadas e com fome, foram alimentadas na delegacia. Os pais deram as caras depois de 3 horas. Foram pro xilindró e pagaram fiança.

Fiquei horrorizada, o que passa na cabeça de pais que deixam as crianças dentro de um barco, num lugar desconhecido, onde ninguém entende o que eles falam, podendo cair na água, o barco pegar fogo… Ah, mas deixaram um rádio com o mais velho ( de 4 anos!!! ) e o que a criança vai fazer, ligar e dizer pro "papa" "papa: tô queimando - papa: tô me afogando"?

Traduzi a notícia pros colegas, achando que eles fosse também se chocar, e achando que a atitude desse casal é uma exceção, um casal de doidivanas, e eles não acharam não nenhum absurdo, "ah, se o outro barco tava perto…", e disseram ainda que costumam deixar o bebê em casa dormindo e com o baby monitor vão até o vizinho jantar numa boa. Um disse que as vezes até dá uma corridinha no mercado, que fica no fim da rua. Adriana ouvindo de boca aberta.

Quantas vezes, na casa da minha tia, chegava a vizinha pra conversar no portão e ela dizia: entra que eu quero ficar de olho no nenê… Imagina que a gente ía deixar a criança sozinha, acordar assustada com alguma coisa e estar lá, sem ninguém pra acudir...

Lembram do caso Madeleine? Os pais deixaram a menina no quarto para ir jantar, eu fiquei chocadésima dos pais deixarem as crianças sozinhas, mas pelo jeito por essas bandas de cá isso é normal.

Eu contei pra eles que pela lei, se você deixar a criança em casa e for no vizinho jantar, tocar um policial e a criança estiver sozinha, você, assim como o casal de holandeses, pode ser enquadrado em abandono de incapaz, e vai pro xilindró. Eles acham que a gente é louco e não tem o que fazer.

Eu acho relaxo. Comodismo. Vou dizer: acho vagabundagem de gente que não devia ter colocado filho no mundo. Quer ter toda a liberdade do mundo,faça como eu: não tenha filhos.

Tô louca povo? É normal deixar a criança sozinha pra ir saracotear?

terça-feira, julho 26

A Holanda está cheia

A Holanda está cheia, é isso que a gente ouve direto como desculpa pra controlar a vinda de mais imigrantes, ou pra justificar as casas pequenas e coladinha por um preço de mansão da Côte D'azure ( pequeeeeno exagero pra contribuir com a moral da estória ). Enfim, o brejo tá cheio.

Por estar cheio, ou só porque esse povo gosta mesmo de inventar firula, tem vários departamentos por cidade pra fazer o planejamento da região. São mapinhas de cada bairro, numero de arvorezinhas por habitante, banheiros de cachorro por superfície ( se for muito longe, o Rex faz pela rua ), estudos de "morabilidade", de afluencia de carros, planejam mais do que um país antes de entrar na guerra.

E investem tanto tempo, tanta gente, tanto dinheiro, e fazem cagada. Quero morrer de catapora!

No meu bairro, que é novo e todo planejadinho, desde que mudamos sofre-se com lugares para estacionar. Já contei aqui da vizinha que fazia petição pra substituirem as arvorezinhas por estacionamento. Vários dias, o lixeiro que passa a cada 15 dias, não pôde recolher o lixo porque os vizinhos deixam os carros estacionados onde atrapalha a curva do caminhão. Todo mundo reclamando. Aí um grupo de moradores mandou uma carta pro prefeito.

O prefeito responde que nos cálculos do projeto, foi estimado um número de 1,5 vagas de automóveis por moradia, incluindo garagem e entradinha pra garagem. Ora pois, se aqui na Holanda NINGUÉM, com exceção do meu marido, usa a garagem pra guardar carros, e todo mundo sabe disso, como é que alguém aprova um projeto que já começa com metade das vagas inutilizadas? E não adianta forçar esse povo xucro, eles vão continuar guardando as cadeiras de plástico Itatiaia na garagem e deixando o Audi na rua. Aí o prefeito continua: Eindhoven é uma cidade com ótimas ciclovias, e as localidades mais distantes são facilmente acessíveis com o excelente sistema de transporte. Mas seu prefeito, o povo tá tendo que saiiiir de Eindhoven pra achar emprego, porque a Philipona tá falindo, cada ano corta mais empregos, como é que neguinho vai pra Roermond de bike?

Só sei que tá todo mundo emputecido com a situação.

Minha casa é numa rua sem saída. Na frente da minha casa é proibido estacionar porque numa área tão pequena ( um Cul'de Sac com 4 casas ) tem já duas vagas demarcadas pra estacionamento público. Eu odeio carro estacionado na frente da minha casa, no tal Stoep, porque fica tão perto da minha janela que a cozinha até fica mais escura. Pode chover, eu posso estar carregada de compras, se a vaga demarcada está ocupada por alguém, eu sempre estaciono da esquininha. Ontem eu estou chegando e tá lá uma dita estacionando no meu stoep.  Pedi pra ela sair, falei que nem eu estacionava porque não gostava de carro ali, que me incomodava o carro dela. Ela, grossa que nem só mulher holandesa sabe ser: é lugar público… Eu fiquei azul, "mevrouw, público mas é ilegal estacionar aí", aí ela fica toda cheia de reclamações, resmunga, e tira o carro, e o detalhe é que na esquininha, 10 mtrs dali tinha 4 vagas vazias. Eu não entendo! Agora eu, chata que sou, já estou imaginando que todos os dias vou chegar lá e vou encontrar a dita estacionada na porta da minha casa.

E depois disso fui direto pro meu maldito livro em holandês, porque eu só não falei poucas e boas pra essa mulé porque me faltaram palavras. Ódio disso, de faltarem palavras.

Eu sei, podem falar, Adriana que bitch que você tá.


segunda-feira, julho 25

Um continente em frangalhos?


Li hoje no jornal brasileiro uma jornalista de economia dizendo "A Europa, um continente em frangalhos busca salvação no Brasil". Tenho tanto a dizer sobre isso…

Primeiro que um pouquinho de modéstia não faz mal a ninguém. Quem ( ou o país que ) se acha a última bolacha do pacote acaba enfiando os pés pelas mãos feio.

Me pergunto se essa mesma jornalista não leu, dias atrás, que as remessas de lucro para o exterior bateram record esse ano? Ou seja, lucram no Brasil mas mandam o tutu pra Europa, o tal continente em frangalhos. Não acho isso ruim, ou ruim demais, afinal, eles investiram no país, criaram empregos, pagaram impostos, continuam reinvestindo na ampliação de suas fábricas no território nacional, ou seja, o Brasil ganha demais, mas… o lucro ainda vai pra matriz, que pelo menos na indústria automotiva, uma das mais fortes do país, são todas na Europa.

O mesmo artigo menciona que está todo mundo interessado nesse país que em 8 anos transformou metade da população em classe média, ou seja, supostamente com dinheiro e muita vontade de gastar. Todo mundo vai tentar sugar até o último centavo desse povo desacostumado a ter uns trocados a mais no fim do mês, mas quem tá lá ensinando pro povo simples a planejar os gastos, a iniciar uma poupança?

E tudo vai sendo empurrado com a barriga, sem o mínimo de planejamento. A nova classe C não precisa mais viajar de ônibus 3 dias pra visitar os parentes no Ceará, vão de Webjet com parcelamento em 10X no cartão, mas quem é que amplia os aeroportos pra dar conta desse povo todo? E o povo tá comprando seus carrinhos chineses Chery, mas cadê a ampliação desse Metrô, a melhora dos ônibus, a ampliação e melhora de ruas e avenidas pra comportar esses carros todos? E todo mundo tem laptops, e smartphones, e até Ipads, mas cadê investimentos em conectividade?

Acho engraçadissimo ( not ) o povo fazer passeata contra a tal nova hidroelétrica ( Belos Montes? ), mas como alimentar a casa desse povo todo cheio de TV's, computadores, máquinas pra tudo? E dar conta desse lixo todo que é gerado, com um povo que não é acostumado a reciclar?

Às vezes me parece que o brasileiro está deslumbrado demais com a renda extra, tá "se achando", mas esquece de aprender certos (bons) hábitos do europeu: poupar, não gastar mais do que tem, planejar a infraestrutura, tentar usar transportes coletivos ou o carpooling, reciclar ( e não tô falando da dona maricota que faz aqueles breguíssimos artesanatos de garrafa pet ).


sábado, julho 23

Respira fundo

Foi uma semana bem difícil essa.

Não adianta, estou aqui já há tanto tempo e ainda me vejo em situações que não entendo a reação de muita gente que me rodeia. Vou confessar, é difícil quando você tem que gerenciar gente que você muitas vezes não entende.

Hoje é o black saturday por aqui, a data em que grande parte do país coloca o pé na estrada com suas caravans, com seus bagageiros-caixões ( podem me dizer que é prático, mas eu não consigo deixar de visualizar um cadáver lá dentro ), a filharada, e vão pros campings da França, Itália, trabalhei com um que dirigia non-stop até a Costabrava na Espanha.


*** Ainda se o vampiro Eric tivesse ali dentro...***

Na empresa todo mundo querendo terminar o que era urgente, jogando pepinos pra cima dos poucos que ficam.

Tive algumas mini-crises. O senhor da "espionagem" viu que uma cerca no estacionamento quebrou, pegou o telefone de um fornecedor de serviços de reparos, chamou os caras na empresa e pediu cotação pra arrumar, assim do nada, como se fosse o quintal da casa dele. O fornecedor achou estranho, contatou a compradora dessa commodity, e a m. foi pro ventilador. Acabou que uma mulher do RH me ligou (agora, depois de 2 meses!) pra discutir as "limitações" do senhor espionado. Ela disse que ele tem uma condição médica e que dever ser considerado "simple minded". Não conheço, em português, significado para essa expressão que vi pela primeira vez na Holanda: simple minded, assim, em inglês. É a pessoa que não tem deficiência mental, mas também não é plenamente capaz. Eu sempre pensei que a pessoa nascia assim, mas como uma pessoa adquire "uma condição médica" e fica simple minded eu não sei. Hoje foi o último dia dele, o nosso departamento é muito cheio de riscos pra alguém assim.

E meu diretor está de férias, e o que o está substituindo não lida muito bem com pressão, e o departamento tá pior que uma panela Clock em fogo alto. Na terça feira eu passei tanta raiva, que chorei. Escondidinha no banheiro, sériamente influenciada pela TPM, mas chorei, de ter que rebocar a maquiagem. Um de vários problemas foi o do meu funcionário R. Na segunda ele me perguntou se ele podia sair de férias um dia mais cedo, ou seja, na quarta, eu concordei. Quando meu diretor soube mandou eu voltar atrás e dizer que o R. precisava ficar porque ía "podia" aparecer uma coisa urgente. O rapaz já tinha antecipado uma noite no B&B onde ele ía ficar, foi um xabu mas o rapaz acabou ficando. Na quarta feira ele estava lá as 9 da manhã quando recebe um telefonema: a esposa, grávida de 10 semanas estava no hospital porque o feto não tinha mais batimento cardíaco. Cês sabem, né? Informei o diretor e ele achou que o rapaz tinha que voltar depois do almoço. Levantei da sala sem nem responder.

Pra encerrar a semana tivemos a festinha de despedida de um dos diretores que está se aposentando. E já está falando em voltar a trabalhar na empresa como consultor. Me deprime isso. Uma pessoa chegar aos 62 anos de idade sem ter um plano pra curtir os anos que lhe restam, uma pessoa ter tão pouco pra fazer que até se enfiar num escritório 40 horas por semana seja melhor. Não entenderei nunca.

Então, já que nesse sábado todos vão e eu fico, pelo menos comprei minhas passagens pro Brasil-sil-sil. E a KLM aumentou as tarifas de novo. Agora, pelos 875 euros das duas ultimas idas, só se for com escala no insuportável do Charles de Gaulle, direto do Schipol maravilhoso, 932 euro contos.

Vamos ver se essa semana rola post sobre Cuba, quero ver se tenho ânimo de baixar as fotos.

quarta-feira, julho 20

Dreaming


Eu acho interessantíssimo ouvir as pessoas descreverem o que elas fariam se ganhassem na loteria. Ontem estávamos falando sobre isso aqui no trabalho, e quando falo ganhar na loteria falo logo em boladas, tipo os € 25 milhões da loteria estadual holandesa de uns tempos atrás.

O que você faria?

Eu ía rodar a Europa a procura de um terreno de frente pro mar. Teria que ser perto de uma cidade maiorzinha, pra eu poder bater pernitchas de vez em quando, mas de preferência dentro de um vilarejo, e mais de preferência ainda, longe de rotas turísticas. Existe esse lugar?

Aí, terreno comprado, eu iría contratar um fantástico arquiteto pra fazer a casa dos meus sonhos.

E enquanto a casa não ficasse compras, eu iria cuidar de assuntos mais corriqueiros. Iria dar uma ajeitada na vida da minha mãe, iria dar uma ajudada no meu irmão e sobrinhos, iria comprar um apê e um carrinho pra minha prima querida, tudo isso sem eles saberem que eu ganhei da loteria, que ninguém merece parente pedindo isso e aquilo.

Aí eu iria praquele SPA pra perda de peso que a Oprah foi no Hawaii. Ia botocar o rosto, com certeza. Ia refazer o guarda roupas e comprar um carro conversível.

Meus pituchinhos íam ganhar uma área inteira na nova casa, e eu ía adotar um Yorkshire. Talvez, se eu achasse uma empregada e a família prometesse me visitar muito, eu tentasse ter um filho ou adotar uma chinesinha.

Com certeza eu ía alugar uma gigantesca casa em Orlando por um mês e ía trazer "my favorite people" pra curtir a disney comigo, a parentada, minha amiga Fernanda, ía ser demais.

E eu viveria muito feliz na minha casinha de praia, com meu marido e meus bichos, faria trabalho voluntário com alguma ONG de animaizinhos, quem sabe até construísse um abrigo, visitaria mais a família e os traria para me visitarem…

Quem sabe o Bill Gates não lê esse post e me manda 1% da fortuna dele?

E você, o que faria?

segunda-feira, julho 18

Questão de respeito


Minha prima mais querida, mais ligada a mim, praticamente a filha que eu não tive, me contou, aos 13 anos, que era lésbica. Indescritível o choque. O choque passou, e ficaram duas certezas, meu amor por ela não diminuiu um milímetro, ela ainda era minha priminha fofa, minha companheira de Hopi Hari. A segunda é que ela ía sofrer muito com isso. E ela sofreu.

É incrível o preconceito contra lésbicas. Às vezes eu penso que quando todo mundo defende tanto os direitos homossexuais, estão na verdade é falando dos homens, porque contra as mulheres o negócio é bem mais ofensivo.

Ao longo desses anos, quando eu contei pra amigos mais íntimos, o que eu ouvi variou entre "só precisa mesmo é achar um homem com H maiúsculo", até a "que coisa feia". Nossa avó, que não sabe, disse que se ela não arrumasse namorado logo, íam começar a chamá-la de muié-homi.

E tem muita gente, mas muuuuita gente, que diz que não tem preconceito, mas se refere à elas como "sapatão", fala da falta de feminilidade com desdém, e faz piadinha.

Hoje meus colegas de trabalho falavam sobre o mundial feminino de futebol. Eu disse que no Brasil comentaram muito sobre a beleza da goleira americana, e um colega respondeu: e adianta de quê se ela "cola velcro", e fez o gesto com a mão ( !!! ). E eu respondi: ué, o fato dela jogar futebol não quer dizer que ela é lésbica. E ele disse que o amigo treinava um time de futebol feminino e metade era lésbica, e fez de novo o gesto com a mão.

Sinceridade? Me aborrece demais isso. Me aborrece porque mostra que essa conversa de que não se tem preconceito é tudo balela, os nomes, os gestos, as piadinhas, tão aí pra provar.

Minha prima é uma menina super legal, generosa, com uma paciência infinita. Ela sempre foi minha companheira de aventuras ( e eu sou um pé no saco ), a que brincava com o priminho pentelho ( meu sobrinho ), a que dá atenção pro marido gringo ( igualmente pé no saco ) sem nem falar inglês. Ela é esforçada, faz faculdade, trabalha pra poder pagar porque os pais não tem a mínima condição, e com o pouco que sobra, ainda acha meios de comprar um remédio ou outro pra minha tia e levá-la, pelo menos uma vez ao mês, num restaurante comer alguma coisa gostosa. Ela não merece ser chamada de sapatão, de ser achincalhada, ou ser piadinha de gente mal-resolvida.

E as outras também não merecem. São filhas, irmãs, amigas queridas, e merecem ser respeitadas.

sexta-feira, julho 15

O gordo Pinóquio

Eu, a gorda chata, hoje teorizarei sobre mais um tipo de gordo: o gordo pinóquio.

A inspiração é o OldFart, que está menos Fart e um tantiquinho assim ó ( fazendo pequeninho com o polegar e o indicador ) mais magro.

O gordo Pinóquio é aquele gordo que, sabe-se lá porque, mente. Mente a respeito do peso ( peso 85 kg, quando na verdade pesa 95 kg ), mede a respeito do peso que perdeu, da rigorosidade da dieta… É uma dificuldade não ser gorda chata perto do gordo pinóquio!

O OldFart tem 1,65mt e é gordinho, sendo maldosa, parece um kabauterzinho ( um anão de jardim ). Essa semana ele recebeu o contrato fixo da empresa, e quando eu dei a notícia, disse que ele tinha que trazer gebak ( torta ). No dia seguinte ele trouxe ameixas, e explicou: estou de dieta. E daí começa a Pinoquisse:

Perdi 25 libras: putz grilo, num país que usa sistema métrico, onde você compra dois quilos de arroz, que ridículo é falar que emagraceu 25 libras só pra causar mais impacto. OldFart, 12 quilos! Aí eu fiquei olhando… nem a pau juvenal… a cada 6 quilos uma pessoa de 1,65 diminui um manequim, e ele não diminuiu 2 manequins…

Faço a dieta da proteína a 5 meses sem escorregar: ele diz que o café da manhã é um iogurte e um pedaço de ontbijt koek ( um bolo de especiarias que parece o pão de mel sem chocolate ), aí ele almoça sem lanchinho entre o café e o almoço, e o almoço é salada com um ovo cozido, aí ele vai direto até a janta e ele come salada ou vegetais na wok com um pedaço de peixe, salmão ou tilápia, e toma um chá antes de dormir. Oras bolas, se uma pessoa passa 5 meses só comendo isso, estaria mais magro que a Twiggy.

Não tenho roupas, todas estão grandes: me respondam, que gordo não guarda suas roupas preferidas da "época de magro"? Isso foi a desculpa para vir de suspensórios. Sim puevo, suspensórios. Segundo ele, as calças estão caíndo ( valha-me Deus de caírem ), e o cinto já não dá conta ( ??? ). Eu só respondi: vai comprar roupas, quer coisa mais maravilhosa que ter que comprar roupas porque emagreceu? Meu colega disse: OldFart, cê tá parecendo o Bastiaan ( um palhaço ). Ah, a sutilidade holandesa…

Então vamos lembrar alguns princípios para o gordinho ser um gordinho legal. Colega gordinho, ninguém tem que te pedir satisfação da dieta, do seu peso, das suas roupas. Nós sabemos que você quer se gabar, nós sabemos que é o furículo do demônio fazer dieta por tanto tempo, mas seja chique colega, se alguém te perguntar se você está de regime, ou se você emagreceu, dê uma resposta blasé, tipo "estou sendo mais cuidadoso com os doces", ou "estou me exercitando um pouquinho mais". Lembre-se que se você começar a falar de dieta, todo mundo vai se sentir no direito de te vigiar, todo mundo vai achar que o fato de você ter falado de regime implica em uma autorização pra quem está ao seu redor te repreender no dia que você colocar uma bala na boca. E se tem coisa que gordinho não suporta é gente ao redor dizendo o que a gente pode ou não comer, quando a gente pode ou não comer.

Isso dito, tenho também inveja do OldFart, porque eu tenho também que começar o regime e estou adiando e adiando. Hoje tenho planos de ir ao Makro pra comprar carnes, já fiz meu cardápio de-carbizado pra próxima semana, vou ter que passar fome.

Mau humor do cão desde já.

quinta-feira, julho 14

Ah, o ser humano...


Uma das comadres, quando virou gerenta, me contou a história de um funcionário que até hoje me faz rir. Ela propôs ao funcionário, que não era nenhum jovenzinho recém formado, que ele fizesse um "layout", um trabalho que até então ele não tinha feito, mas que segundo a comadre, não era nenhum bicho de sete cabeças. Aí no dia seguinte da "proposta" esse funcionário foi pra comadre: Sr. Comadre, eu me olhei no espelho e perguntei: Hans da Silva, você será capaz de fazer um layout??? Esse "me olhei no espelho" ficou comigo desde então, eu já imaginei o banheiro cheio dos vapores do chuveiro matinal e o cara enrolado numa toalha se perguntando: espelho espelho meu, existe alguém mais sonso do que eu?

Aqui na empresa há quase um mês eu recebi um funcionário "do banco". JL trabalha na empresa há 40 anos, está perto da aposentadoria. O mundo evoluiu, os computadores tomaram conta, mas JL não conseguiu acompanhar o povo que agora senta atrás de uma telinha, ele consegue fazer o mínimo do mínimo num computador. JL é um senhor muito correto, orgulhoso dos seus anos na empresa, de uma ética irrepreensível, mas o que fazer com tudo isso se ele não consegue dar um copy/paste no Excel??? Triste isso, um mundo onde a habilidade de dar copy/paste é um bem mais valioso que a ética da pessoa… mas então…

Tem quem goste de achar que os donos de empresa, CEO's e presidentes de empresas holandesas são mais humanos que no Brasil, mas não, a verdade é que as leis trabalhistas aqui protegem mais o cidadão que no Brasil, e num determinado momento alguém lá no RH, que sabe muito bem dar copy/paste, calculou o valor da rescisão contratual do JL e concluiu que era mais barato continuar empregando-o. Assim, JL foi "pro banco", ele fica em casa e quando alguém tem necessidade de uma pessoa com fantástico senso de ética mas sérias limitações tecnológicas, ele é chamado.

Há um mês JL está nos ajudando no que chamamos de "back office". Ontem ele me chamou: Adriana, estou com um problema sério. Um aparte: o negócio fica muito mais dramático em holandês, mas tenho que traduzir procês. Adriana, fui vítima de um desrespeito enorme. O que foi, JL? Ele olhou pra mim, baixou os olhinhos, tremeu a boca, e levantou os olhos cheios de lágrimas ( sim pessoas, lágrimas! ): sou vítima de espionagem ( ele falando espionáááááge em holandês ainda me faz rir ). E eu: como assim JL? E só pensava em quem estaria interessado em espionar o office-boy, digo, o office-meneer do departamento? E ele: hoje eu abri meu Outlook e minhas mensagens estão lidas… Ahn? Adriáááána: faz 3 dias que eu não abro o computador (!!!), mas as mensagens de ontem já estão sem o título em bold, ou seja, alguém tá lendo meus e-mails!!! E as lágrimas corriam.

Eu respirei fundo. Vamos pensar JL. Você deu privilégio de leitura pra alguém? Ele estalou os olhos. Vamos ver se alguém mais tem autorização pra ler seu e-mail. Ele arregalou os olhos maior. Olhei no Outlook, achamos o nome de uma mulher, ele explicou que era a secretária do departamento dele. JL, ela sabe que você está "emprestado" pra compras? Ele secou as lágrimas, acho que não! Ligamos. E mulher ficou surpresa ao ouvi-lo e disse que não, ela não sabia que ele estava de volta, e que o chefe mandou ela olhar todas as segundas-feiras os e-mails dele pra ver se aparecia algum e-mail que precisava ser respondido.

JL ficou feliz de saber que a espionagem era "do bem", que ninguém estava duvidando da idoneidade dele.

E eu fiquei aqui pensando… eu achei que tinha que me preparar para lidar com o diretorzão member of the board, mas de vez em quando, lidar com o office-meneer é tão difícil quanto.

* Meneer é senhor em holandês.

terça-feira, julho 12

Burn out - Post enorme, senta com o café no bule e a xícara na mão

Ontem tivemos uma reunião emergencial de staff. Temos 3 pessoas com burn-out, outros reclamando. Isso no departamento de compras.

Lá em cima, na engenharia, o negócio tá tão feio que até motim já teve.

O projeto grandão da empresa está degringolando. Ao mesmo tempo, a recuperação depois da crise está sendo rapidíssima, e ninguém estava preparado. Faltam funcionários, faltam computadores, falta espaço, falta tempo pra treinar que chega.

A pressão está alta. Eu diria que está quase nos patamares da pressão que tínhamos na minha antiga empresa no Brasil, a diferença é que lá era maior e constante, aqui é um pico e mal começou.

Nessa reunião, eu tentei não abrir a boca. O diretor perguntou a minha opinião e eu fiquei olhando pra ele e pensando, falo ou não falo?

A verdade é que eu acho todo esse pânico cultural. Holandeses não estão acostumado com stress, com pressão, com cobranças. Eu fico pensando na vida do brasileiro, mesmo que minha experiência seja apenas a de uma brasileira da classe média, quando é que nós vivemos sem pressão, sem cobranças? Na escola fica a mãe cobrando notas, tem que ser sempre de 8 pra cima. Quando a gente tá terminando o "ginásio" fica aquela aterrorização sobre o "colegial". Você começa o segundo ano do colegial e todo mundo já tá falando de vestibular. O ano do vestibular é o pior da sua vida, não só você tem que decidir, aos 17 anos, o que vai fazer pro resto da sua vida, como tem que passar na maldita faculdade, de preferência na "Ivy league" brasileira. Daí vem a pressão por um estágio numa empresa de renome, e a almejada "efetivação". Pra mim, esse ano de estágio foi um drama terrível, ano de crise, a empresa mandando meio mundo embora, terrível mesmo. Quando recebi a notícia que eu ía ser contratada, sentei na escada de casa e chorei, chorei não de alegria ( ok, de alegria também ) mas de alívio: eu estava empregada! E depois disseo tiveram os facões, a primeira apresentação pra um diretor em inglês… Aos 22 anos de idade eu já era uma expert em "aguentar o tranco".

Aqui na Holanda há uma aceitação melhor para aqueles que não tiram apenas 9 e 10 na escola, logo menos pressão. O ginásio é curto e o colegial comprido, e apesar de ter já super cedo uma separação no tipo de escola que você vai seguir ( aos 12 anos os melhores alunos vão pra um colegial "mais forte" ) a sociedade aceita bem quem vai pro colegial médio ou o mais baixo, pelo menos é essa minha experiência com meus colegas de trabalho. Eu acho engraçadíssimo que, enquanto os brasileiros estão se esfalfando e traçando mil estratégias pro vestibular ( o da Unicamp tem mais conhecimento genérico e vc tem que ler jornal, o da USP é mais técnico e você tem que ter estudado em escola particular, se vc quer entrar no ITA tem que fazer cursinho no ETAPA ) aqui eles se arrancam os cabelos do requenguela do exame final. Todos os anos há uma revolta sobre a prova A ou B, que tiveram questões dificílimas, e milhares de estudantes ligam pro órgão encarregado pela prova ( a prova é nacional ), naquela semana do exame, a revolta dos estudantes sai sempre na primeira página. Mas depois do exame, acabou.

Meu marido estudou na melhor universidade do país pra área de engenharia de software. Ele se formou no "colegial", foi na universidade, preencheu um formulário, tava matriculado. Exitem profissões mais disputadas, mas até onde eu sei, há um bingo de vagas ( !!! ), ou seja, depende de sorte.

No país inteiro, há uma estatística que apenas 10% dos formandos demoram 2 meses pra encontrar emprego, e eles acham muito!

No ambiente de trabalho, pode até ser que em algumas empresas haja um ambiente mais ácido e competitivo, mas nas empresas que eu trabalhei o negócio era um passeio no parque, a mentalidade "9 to 5" aqui é padrão, e 4 da tarde tem fila na porta do prédio esperando dar o minuto exato pra passar o cartão magnético e congestionamento pra sair do estacionamento.

Na semana retrasada teve um caso bizarro na engenharia. O F. ía tirar 4 semanas de férias agora em agosto. O diretorzão do departamento dele cortou 2 das semanas, já que estamos todos no tal "perído do pico". Ele foi falar com o gerente dele. O gerente dele deu mais uma semana. Ele ficou puto, digo, frustrado, porque o educado é dizer que o cara ficou "frustrated", ele tira 4 semanas de férias todos os anos e justo nesse ano que está a maior pressão, teria que se contentar com 3,  aí ele ficou tão frustrado que ficou doente, e já está a 3 semanas em casa com burnout, cujo motivo é estresse por não poder ficar em casa de férias.

No meu departamento eu observo que o cara que tem burnout não é o mais overloaded, mas o menos acostumado a pressão. Tem um que está trabalhando aqui a 8 meses e tá com burnout, ele nem saiu da fase de aprendizado ainda.

A holandesada tem a resposta na ponta da língua: você tem que ter um balanço saudável entre vida profissional e pessoal. Eu concordo. Só que eu acho que eles são inflexíveis, não trabalham 20 minutos a mais, e se o fazem é esse drama.

A solução? Contratar mais estrangeiros. Aliás, eu nem precisei dizer, parece que se tocaram aqui eu os estrangeiros são mais resistentes a pressão e mais flexíveis: entrevistei uma candidata slovaka essa semana, e ela foi aprovada, só não sei se vem pro meu departamento, estamos disputando a coitada com outros 2.

Mas aí vem a holandesada dizer que a gente tá aqui pra "roubar" o emprego deles. Ué, fica esperto mermão, moleirão do jeito que tu é, é mole pra nóis.


quarta-feira, julho 6

Xexelentésimo

O que é mais que xexelento, realmente xexelentésimo? Aquele aeroporto de Guarulhos.

Quando anunciaram que o Brasil sediaria a copa eu disse que daríamos vexame, me tacaram pedras e disseram que eu torcia contra. Nada disso, eu só não quero passar vergonha…

Liberaram o dindin pro estádio do Coringão, mas pô, vai deixar o templo do xexéu, o aeroporto de Guarulhos, do jeito que tá?

A área antes do check-in é escura e minúscula, e o desembarque é num porão, qualquer feriadinho requenguela aquilo lá vira a sucursal do inferno. Ir de uma asa pra outra, só no sapatinho, porque não há esteiras rolantes. Opções de um lanchinho? Tem um Mc, umas lanchonetes superfaturadas, um Viena e uma Brunella. No Viena paguei 6 "real" numa coxinha, achei caro. Mas essa área pública ainda é melhorzinha que a interna, pelo menos tem dois salões de beleza, farmácia.

Na área depois do controle de segurança tem-se a sensação de estar num aeroporto da União Sovietica comunista circa 1975. Tem uma lanchonetesinha botequenta, aquele freexópis minúsculo com tudo abarrotado na mesma loja ( licença que eu tô acostumada com o fantástico Schiphol e amo ter lojinhas de muambas variadas? ), e inacreditável, não tem uma banquinha pra se comprar jornais e revistas. Banca de jornal é o princípio básico de uma sala de espera no aeroporto, mas no GRU, não tem!

A segurança deixa super a desejar. Apesar da proibição de líquidos em bagagem de mão para vôos internacionais, tanto eu quanto o marido passamos com uma garrafa de 500 ml de refri cada.

Na área do check-in, a odiosa mania brasileira de "passar" os atrasildos na frente de quem tá na fila há tempos.

Me perguntaram se eu vou à Copa ou às Olimpíadas. Sei não… vou é passar vergonha, isso sim.

Aeroporto pior que o GRU? Tem. O Dulles em Washington DC e o Charles de Gaulle em Paris, esse último mais detestável que o primeiro. Não estou aqui contando os "di pobre" como Hugarda e o de Varadero. Espero que quando ( e se ) a reforma do GRU sair, que façam um bom trabalho.

terça-feira, julho 5

Além de gorda, chata!


Ser gordo é difícil. O potencial para se tornar um chato é exponencialmente maior que o do magro.

Não conheço gordo que não fique um porre quando está de regime, e portanto privado das coisas que gosta. Eu me incluo nesse grupo, fico insuportável, logo, uma chatinha.

Gordo chatinho eu até encaro e aliás, me comisero. Passar fome é o ó do borogodó. O que eu não suporto é aquele gordo narrador de dieta. O gordo Galvão Bueno.

O gordo Galvão acorda contando ao mundo, via blog-facebook-twitter-orkut-msn-my space o que ele vai comer no café da manhã, o quanto ele emagreceu naquele dia, e muito constantemente brada ao mundo como é possível viver bem sem os venenos de uma fatia de bolo de cenoura, e que uma bolacha de crespinhos de arroz diet é muito mais gostoso ( tais louco? ).

Outro gordo que me irrita é o gordo-pop-up, que nem a janela, manja? Esse gordo é aquele do palpite não solicitado. Você tá lá, bem com as suas banhas, na primeira mordida no sanduba o gordo-popup exclama: menina, tá louca, maionese é uma bomba de calorias! Pra esses eu tenho uma reação: nossa, ainda bem que eu não preciso emagrecer, né? Porque ó, em banha alheia a gente não mete pitaco.

Um gordo legal é o gordo pé-na-jaca. Ele é gordo, todo mundo sabe que ele tá tentando emagrecer, mas ele vai naquela festinha e já avisa: vou meter o pé na jaca hoje. Bom, nem precisava avisar, não é da conta de ninguém, mas tem coisa mais chata do que gordo que fica dando desculpa pra jaquear? Ah, fiquei sem almoçar 2 semanas pra poder comer um pouquinho mais hoje… Ah, ouvi dizer que coxinhas nem são tão calóricas assim… Ah, esse quibe tá cheio de ferro ( eu )…

Já tô quase acabando minha tese gordística, mas tenho que falar do pior gordo, o gordo "manda pro afeganistão".

A obesidade, mais do que uma condição física, é uma condição psicológica. O gordo supre alguma ausência com a comida. O gordo se auto-medica com a comida. Cada gordo tem seu momento pra assumir que uma dieta é necessária e escolher qual o momento em que ele pode lidar com aquilo que o incomoda sem a auto-medicação da comida. Cada gordo sabe quando chegou a hora de "dietar". Por isso que você, magro ou gordo, que convive com um gordinho, não dê indiretas ou diretas, não force a barra. Alguns podem até estar tentando ajudar, mas não ajudam, muito ao contrário. Quando o gordinho vier te pedir ajuda ( vamos caminhar comigo, vamos num restaurante mais light, por favor não me ofereça chocolates ) ajude, e ajude da forma que foi pedida. Se o gordinho te convidar pra uma caminhada, vá, se divirta, mas não fique policiando o que ele come, ou dando indireta daquele remédinho batata ou daquela drenagem linfática certeira. Não pressione seu gordinho, não seja aquela pessoa que o gordinho quer "mandar pro afeganistão".

Estou aqui, na concentração do sambódromo, esperando o dia da dieta chegar. Vou ter que encarar. Vou de South Beach, já estou procurando receitas, mas me prometi que farei a fase 1 de duas semanas e mais um mês de dieta. E depois, perdendo o que for, faço só manutenção.

Ser gorda ( a aparência física ) me incomoda menos que ser gorda ( ter que emagrecer porque é melhor pra saúde ).




domingo, julho 3

Visita bebezal

Hoje aconteceu a visita bebezal na tribo da cumadre Holandesa.

Começamos com os gatinhos, porque a bebê humana, já de tenra idade, adora bater uma perna num domingo ensolarado.

Dona Holandesa precisa nomear a gataria. Participei de duas mamadas, e foi assim, esse é o espertinho, esse é o machinho preto, essa é a tigresa e a irmã de cela, ali são as três cajazeiras, e essa é a que estava fraquinha. Tudo sem nome esses piolhinhos! São fofos demais e eu estou morrendo de vontade de pegar uma menininha pra mim, mas o marido acha que 3 gatos, pra gente que viaja como nós, é demais.

Aí chegou a bebê humana. Muito fofa e simpática. O irmão, quando bebê, era tinhosinho e não gostava muito de colo alheio, mas ela veio comigo, eu dei mamadeira, só não fiz arrotar porque não tenho mais prática. Uma gracinha!

Deixei um malão pra Dr. Alice por lá. Tentando, acho que cabe até um piano meia cauda lá.

Voltando pra Eindhoven, ainda na tribo, passei por uma fazendinha que vendia cerejas. Nunca tinha visto uma cerejeira carregada, e hoje eu vi. O "bakje" de cerejas não era barato, mas elas eram enormes e dulcílimas, assim que experimentei a primeira, antes de chegar no farol ( coidegordo, eu sei ), dei meia volta e peguei mais uma caixinha.

Foi um ótimo domingo, sol, gatinhos, amiga, nenê, frutinha não engordativa e coxiiiiinha!

Biii biiii

Quando a gente muda pra Europa, todo mundo se surpreende com o sistema de transporte público. Não é que seja fenomenal não, é que o do Brasil ou é péssimo, ou não existe.

No começo do casamento, tínhamos um carrinho bonitinho, usado, motor mil, só mesmo pra nos levar e trazer. E isso ele fez, nos levou e trouxe muito, de todos os lugares. Até pra Paris encontrar meu irmã com ele eu fui.

Quando comecei a trabalhar, usar o carro era impossível: ir porta-a-porta de casa ao trabalho levava mais de 3 horas, e dirigir até a estação de trem com ele era impossível porque não havia onde estacionar. Daí surgiu a scooter ( minha querida moteeenha ). Eu dirigia até a estação, deixava a moteeenha estacionada no estacionamento de bicicletas, e na volta voltava pra casa com ela. Era tudo muito prático, mas tinha um porém, um enorme porém: o frio... dirigir uma moteeenha na chuva, temperatura abaixo de zero graus... A holandesada encara na boa, encaram a bicicleta na boa, mas pra gente, brasileiros acostumados a temperaturas mais amenas, e sempre dentro dos nossos carrinhos ( eu ía na padaria de carro ), é duro viu...

Nos últimos anos eu já estava de saco cheio, falei que queria um carro, nem que fosse um poisé, mas sempre acabava concordando que pagar taxas, impostos, seguros, fazer manutenção, tudo pra andar 2 km de manhã pro trabalho e 2 km de volta... me parecia um disperdício.

Em março o Bart comprou um carro novo. Como o nosso poisé tá velhinho, valia mais a pena pegar um desconto que dão quando você não tem carro pra trocar do que dar nosso poisé pra concessionária, então eu "herdei" o Sponge Bob, nosso Hundai Atos amarelo. Minha qualidade de vida aumentou incrivelmente. Nas manhãs de chuva, é só pegar um guardachuvinha e dar uma corridinha. Até o guarda-roupas mudou, agora não preciso de casacões de neve e sapatos super isolados. Até calças, já pra usar tecidos mais leves sem congelar. E meu humor melhorou mil porcento.

Por isso recomendo quem está chegando aqui agora, aproveite sim todo o transporte público holandês, mas tenha um carrinho de backup pros dias frios e chuvosos ou praquelas idas ao supermercado.

A boa notícia é que a concessionária onde compramos o carro novo do marido está com uma promoção num carro novo, e como ele é pequenino e leve há isenção de taxas, e por um precinho camarada conseguimos dar o Sponge Bob e encomendar um novinho em folha. É um Suzuki Splash, pequenoto, fraquinho ( motor 1.0 ), mas novinho, com ar condicionado, rádio e vidro elétrico. E cheiro de carro novo!

Claro que sendo a Holanda, nada de pegar o carro em uma semana, vai demorar 3 meses pro carro chegar, mas vai ser um pitéu!

quarta-feira, junho 29

Festa do Caqui


A empresa está organizando o Brazilian Supplier Day. Serão mais de 100 brasileiros visitando a empresa, e é claro que eu acabei entrando na dança não só como parte do projeto, que aliás nem é meu trabalho, mas como tradutora, recepcionista, motorista ( !!! ) e agora, agente de turismo.

Sabe o que mais está me impressionando? A sanha gastadeira desse povo. Muitos são diretores que estão cansados de vir e voltar pra Europa e EUA, mas uma metade é o middle-management que quase nunca vem ou está vindo pela primeira vez. Esses vem com um grande interesse em mente: compras!

Resolvi que vou fazer um mapinha pro povo cair nas compras sozinho, mas olha o que me pediram dicas de compras: Ipad ( campeão ), smartphones, perfumes ( tem um que quer comprar uma embalagem especial de 1 lt de Channel 5, eu nem sabia que existia embalagem desse tamanho ), tenis, roupas de marca ( Tommy H., Guess, Diesel, Replay e Von Dutch ). Como dica de lembranças eu estou colocando na lista: chocolates Leonidas, produtos da Rituals, souvenirs na VVV.

Enquanto isso, no Estadão, a notícia de que a inadimplência em 2011 está batendo record e o individamento por família está alarmante, 60% da população tem mais de 40% da renda mensal comprometida com financiamentos. Apesar do aumento de renda da população brasileira, a poupança nacional praticamente não subiu. Isso quer dizer que o povo está comprando, está comprando mais do que pode, e não está aproveitando o dindin mais abundante pra fazer um pézinho de meia.

Na minha família mesmo eu vejo isso, poupança? Nunca tive, acho que nunca vou ter. E quando eu falo que eu tenho uma TV apenas, ou que só agora temos 2 carros e mesmo assim o meu é um poisézinho com mais de 10 anos, que não vou todos os meses para Paris, eles me acham sovina.

A única coisa que eu mudaria no meu orçamento é que se eu achasse uma empregada de confiança, eu pagaria por uma limpeza BOUA semanal, fora isso, tenho tudo o que eu preciso e quero.

Sabem, eu tava pensando, quanto da renda do brasileiro vai com manutenção de imagem. Por exemplo, marca das coisas é muito importante pra esses brasileiros vindo pra cá, marcas não reconhecidas no Brasil não despertam interesse, eles querem mostrar a camisa CK ou o tênis Adidas. Até pra chocolate, eu sugeri o Leonidas pra um e ele respondeu "mas não tem Godiva"? Quem já comeu Godiva SABE que é propaganda enganosa, mas o nome… O cara que quer o vidro de 1 lt de Chanel, o perfume é válido por 5 anos, será que a pessoa usa mesmo 1 lt de perfume em 5 anos? Se sim, valha-me Deus, que eu nunca tenha que conviver com ela.

Bom, tcheu ir lá terminar meu mapinha, e bobeou, na sexta feira estarei no centro da cidade fazendo uma visita guiada pelas maravilhas consumistas de Eindhoven ( ha ha ha ).

terça-feira, junho 28

Há 20 anos


Eu estava no primeiro ano da faculdade quando levei o pé na bunda mais fenomenal da minha carreira "romântica". Chorei, sofri, e uma amiga ditou: só se cura um grande amor com outro. Você vai sair com alguém nessa sexta, era uma terça.

Naquela sexta íamos todos pegar as notas finais e sair pra comemorar, e não sei como acabou que essa amiga acertou de um colega de classe que morava perto de mim me pegar e depois pegá-la, assim iríamos todos num carro e "rachávamos" gasolina e estacionamento na balada.

A campainha tocou, abri a porta e lá estava ele, lindo, com um Verona dourado zerinho, todo sorridente. Meu sofrimento pelo ex acabou ali.

O rapaz era o M. e eu mal o tinha notado antes, eu achava até que ele namorava com a C., outra menina da nossa classe. Logo me disseram que a C. estava interessadíssima, mas que para o M. ela era só uma amiga. Acabamos ficando junto aquela noite e começamos um romance.

Vi quando ele contou pra C. que estávamos junto e vi como ela ficou chateada. Sei lá, fiquei com dor na consciência, e com certeza a menina me odiaria pro resto da vida.

Alguns anos depois fomos estagiárias na GM, eu na importação, ela na exportação. Foi um ano de crise, nenhum estagiário iria ser efetivado. Meu departamento me ofereceu uma vaga como terceirizada, que não era assim uma Brastemp mas era melhor que ficar desempregada com o diploma na mão. E pelo menos eu continuaria na GM, onde manteria meus contatos ativos.

No último dia de estagiária, recebi a notícia de que iriam me efetivar num outro departamento. Fomos 5 estagiários efetivados naquele ano, de mais de 100 estagiários. C. não foi efetivada, e na hora que meu supervisor de estágio me perguntou se eu tinha algum colega de classe para indicar, na hora o nome da C. me veio à mente. Sei lá, eu sentia que devia alguma coisa a ela.

A C. passou na entrevista, ficou como terceirizada alguns meses e manteve os contatos dela ativos, e logo ela recebeu uma proposta para ser contratada na engenharia. C. está na GM até hoje.

Ontem a noite nos encontramos no Facebook, e falando da nossa antiga turma, os contatos que ainda temos, as panelinhas que acabaram também se dissolvendo com o tempo, ela me disse que não manteve contato com praticamente ninguém e que eu fui a pessoa mais legal da classe.

Gente, ela não sabe o peso que me tirou das costas. Foram 20 anos pensando na rasteira que passei na moça. Ela ainda não casou, e eu muitas vezes me perguntei, será que o M. estava destinado a ser dela e eu interferi na ordem das coisas? Doidera minha, eu sei. O M. está casado, feliz, tem um filho, foi por anos meu namoradinho on-and-off, se tornou um grande amigo, viajou comigo e com o meu irmão, foi importante na minha vida.

E eu fiquei pensando. Foi um favor que eu fiz sem pensar, e que de alguma forma ajudou muito e transformou a vida de alguém pra melhor. Mas a maior surpresa da história toda é pensar que por 20 anos eu achei que a moça me detestasse e ela acabar me falando que eu fui a pessoa mais legal da nossa classe.

Fiquei feliz.

segunda-feira, junho 27

Beep Beep Ka-bam!


No dia que eu fiz 18 anos, eu comecei o processo de tirar a carteira de motorista.Na minha primeira aula prática, o instrutor disse: você tem que dirigir por você e pelos outros, não importa se você estiver certa, se o outro cometer um erro, você pode se machucar ou até morrer num acidente. Basta uma distração, um bebê que chora no banco de trás, um infeliz que está meio bêbado, um motorista inexperiente que faz alguma besteira, e quando você menos espera, você está entrevado numa cadeira de rodas.

Naquela mesma semana uma vizinha nossa, muito amiga da minha mãe, voltava do supermercado com um saco de compras no banco do carona ( naquela época dos sacões de papel, lembram-se? ), o saco ameaçou virar e o que estava no topo era uma caixa de ovos, a primeira reação dela foi de socorrer os ovos, e em 2 segundos, ela sem perceber virou a direção, ía bater num carro no sentido oposto, jogou-se num muro, sem cinto, era pre-airbag, por sorte conseguiu desviar do carro mas se machucou tremendamente no tal muro.

A lição registrou-se para sempre: dirigir por mim e pelos outros.

Quando me mudei pra Holanda, na minha primeira aula o instrutor me deu um livro na mão e disse: decore cada letra, se você seguir as regras desse livro, assim como todo mundo segue, nenhum acidente acontecerá. Na hora eu lembrei do meu primeiro instrutor e achei essa lição péssima.

Mas aqui é assim, cada um segue as regrinhas do tal livro cegamente, que nem uns robôs acéfalos. Tem uma regra que, a menos que a rua em que você esteja seja preferencial, todo mundo que vem das ruelas a sua direita tem preferência. Nos bairros é assim, você pode pensar que aquela meio-avenidinha onde você está é a preferencial, mas se não tiver o losango amarelo, não é.

As ruas do meu bairro estão sendo refeitas, por conta das novas casas e o novo centro de compras que estão fazendo. Uma das avenidinhas foi asfaltada ( era paralelepípedo ) e recebeu o losango amarelo. Acontece que os burros xucros da vizinhança já estavam acostumados a ter preferência e entram na avenidinha com tudo, sem nem olhar. Já vi vários acidentes, então a prefeitura decidiu fazer um "stoep", que é uma lombadinha na ponta da rua e quer dizer que todo mundo vindo dos outros sentidos tem preferência.

Hoje vi uma cena horripilante. Eu vinha pela rua do bairro quando um lourão babaca entrou da direita com tudo, sem nem olhar. Estávamos na única rua do bairro que ainda não tem o stoep, mas tem placa, dente de tubarão no chão, só falta ter um sinal de neon "páre e olhe". Eu, que ainda dirijo por mim e pelos outros, vi um outro babaca vindo na avenida nova à toda, "estou na avenida preferencial não tenho que me preocupar", mas o lourão babaca esqueceu que não é mais rua de bairro e entrou a toda e… ka-bam. Gente, que coisa terrível acidente de carro! O barulho, vidro quebrando, nossa fiquei tremendo por mais de hora. Eu vi tudo quase que em câmera lenta, quando percebi que o lourão babaca não ía para, brequei imediatamente, e mesmo assim, um aro de metal bateu no meu vidro e fez uma estrelinha. Aí foi aquele desespero, o lourão ficou preso porque a porta não abria, não dava pra apertar o botão do cinto, tinha um posto de gasolina a 50 metros eles cortaram o cinto, a polícia chegou, todo mundo me perguntando o que aconteceu, aquela gritaria, e na verdade, os dois estavam errados, na minha humilde opinião. O idiota da avenida estava mais rápido que o permitido, e já que ele estava na preferencial não deu atenção nenhuma pro movimento nas laterais. Tivesse ele dentro dos 50 km/hr permitidos e prestando um pouquinho de atenção, teria conseguido desviar do lourão babaca, e se não conseguisse, pelo menos o impacto seria mais suave. O lourão babaca nem se fala, distraidaço nem viu a sinalização, mas pior: como pode convergir a direita sem nem olhar o que vem da esquerda? Lei ou não lei, quem tem "koe" tem medo, e se fosse um caminhão?

Eu já dirigi em vários países, incluindo na Inglaterra e Chipre, com o volante do lado direito. Já dirigi naquelas avenidonas americanas de 12 pistas, nas Autobahns alemãs, e em autopistas mal sinalizadas no México. Sem falar que sou paulista, quem dirige em SP dirige em qualquer lugar. E na minha vasta experiência automobilistica eu digo: não conheço pior motorista que o holandês. Nem pior estacionador, se a vaga não for gigantesca, ficam aqueles carros meio pra dentro, meio pra fora.

Não é a toa que o único piloto de F1 holandês que eu ouvi falar, o tal Jos Verstappen, foi escolhido pela TV Inglesa como o pior piloto daquela temporada. É cultural!

terça-feira, junho 21

Dinheiro não compra felicidade... Mas que é bom ter, ah isso é!


Ontem na aula de holandês o tema era: é possível ser feliz sem dinheiro.

Como exemplo, a professora contou que quando ela era criança, um simples piquenique num parque era um acontecimento, e falou da cesta de comida, das brincadeiras e do laguinho. Tudo muito idílico e romântico.

Fiquei pensando que a pobreza holandesa não se compara à pobreza brasileira, ou será que minha impressão sobre a pobreza brasileira, ou o que eu conheço dela, é que não deixa espaço pra romantismo?

Tive que lembrar de um exemplo "suave" pra dar na aula. Contei que quando eu era pequena, minhas tias casaram ( são bem mais novas que minha mãe ). Como a grana era curta, minha mãe foi fazer um curso de bolos pra poder fazer o bolo delas. Minha tia S casou quando eu tinha uns 8 anos, minha tia L um ano depois. No curso, ensinaram o pão de ló de laranja e a cortar aquela parte abauladinha pro bolo ficar reto. Minha mãe decidiu que era muito desperdício de bolo, e que iria compensar as juntas com bastante chantilly. O chantilly era na verdade o que hoje se chama de buttercream, uma barrinha de manteira Paulista batida na batedeira com uma lata de leite condensado. Até hoje é um dos meus favoritos. O recheio era creme branco ( 2 partes creme de leite, uma parte leite condensado, uma parte leite, uma parte leite de côco, uma colher cheia de maisena pra engrossar ) com pêssegos em calda. Mas minha parte favorita era a decoração. Minha avó comprava côco partido em pedaços grandes na feira, e a gente passava no fatiador do ralador para fazer lâminas finas, essas lâminas eram enroladas em forma de caracol e "fincadas" no buttercream que cobria o bolo. Minha mãe deixava eu ajudar nos rolinhos de côco e eu achava tudo muito lindo. Het Einde.

Seis anos depois minha tia L já tinha meu primo D. e ele tinha uns 4 anos. Eles estavam com dificuldades financeiras e ao chegarmos na casa deles o D estava com os olhinhos vermelhos: o dinheiro não deu pra comprar as "coisinhas dele" no supermercado. Eu e minha mãe corremos pro mercado e compramos o que eu e meu irmão sempre adoramos quando crianças: danette, baconzitos, bolacha recheada de chocolate, bala soft. Meu primo ficou felizinho, mas explicou: minhas coisinhas são pasta de dente, uma escova de dentes nova e shampoo.

Anos mais tarde, a irmã dele voltou da escola chorando, as crianças estavam tirando o sarro dela porque o cabelo enrolado dela estava super armadão, o motivo: estavam há semanas sem shampoo e ela estava lavando o cabelo só com sabonete.

Eu já era adulta e estava trabalhando na GM. Minha tia S estava com problemas financeiros. Numa sexta feira ela ligou pra minha mãe pedindo um dinheiro emprestado porque se a conta de luz não fosse paga naquele dia, seria cortada. Apesar da correria pra pagar a luz, o pagamento não foi feito a tempo e avisaram que a luz ficaria cortada todo o fim de semana. Eu fiquei de coração partido por causa das crianças, e para evitar que eles percebessem a pindaíba, os levei pra casa da praia e ficamos lá o fim-de-semana e segunda-feira, até que religaram a luz.

Na casa da Tia L todos são bons de garfo. Em épocas de vacas-magras as crianças reclamavam que não podiam mais ver ovos na frente. A gente comprava então salsichas, linguiças, frango e dava pra eles. Quando a situação melhorava, ao invés de comprar as carnes, congelar e usar com parcimônia, comemoravam com quilos de bife ( carrrrne ) numa fritada só. Aí minha avó se metia, falava poucas e boas, saía briga, ou então com a minha outra tia… tinha sempre um de cara virada com o outro por causa das bifadas…

O telefone toca cedíssimo num sábado: Adriana, você pode me emprestar um cheque? Minha prima T estava no hospital. Passou mal de noite, meus tios sem convênio levaram a menina pro pronto socorro, estava cheio e ninguém a atendia, ele desesperado a levou pra um hospital particular. Ela precisou ser internada, mas só aceitavam pacientes que deixassem um cheque caução. Meu tio não tinha cheques há anos, então lá fui eu, dei o tal cheque, ela foi atendida.

O governo decidiu mudar o sistema as escolas dos bairros, ao invés de ter todas as séries foram divididas entre "primário" e "ginásio". A T tinha acabado a 1a. Série, e a nova escola ficava meio longe. Minha tia tentou levá-la de ônibus, mas ele passava cheio e não dava tempo delas descerem no ponto certo. Começaram então a ir a pé. A professora da T chamou minha tia pra dizer que a T estava chegando muito cansada todos os dias, que o rendimento dela estava caindo. A solução foi "colocar a T na perua", ou seja, um tiozinho vinha buscá-la, e eu paguei por quase dois anos até a situação melhorar e meu tio comprar um poisé.

Vejam bem, não estou reclamando. Foram essas mesmas tias e tios que cuidaram muito do meu sobrinho quando ele era pequeno e minha cunhada decidiu ir terminar a faculdade. E que até hoje ajudam minha mãe a ir pra médicos, que sempre me buscam no aeroporto, que instalam uma cortina pra minha mãe. Já enrolaram muita coxinha, já suaram litros na boca da churrasqueira em festinhas ( meu pai ODEIA churrasquear ), lavaram muita louça e limparam muito quintal. Quando eu era adolescente e não queria ir pra praia com meus pais, era com a Tia S que eu ficava. Eram e ainda são certeza de apoio num momento difícil, pau pra toda obra.

Mas vi tanta coisa difícil nos problemas financeiros deles, que não consigo encontrar romantismo na pobreza.


segunda-feira, junho 20

Walk the walk

Agorinha mesmo eu estava assistindo ao fim de uma temporada do Projeto Runway. Como não assisti do começo não sei como a Jessica Simpson foi parar ali.

Não a tinha visto tão gordinha, e antes de proferir um "jisuis", me lembrei que assim como eu, você e tantas outras, Jessica Simpson tem fome, lombrigas e pénajaquisse.

Aí ela começou a falar sobre a inclusão de mais modelos pluz size em fashion weeks, e bladibla, e levantou a bandeira "santa protetora dos gordinhos desamparados", que anda tão popular hoje em dia.

Aí achei esse link aqui ó.

E vendo o filminho e dando mais uma googadinhas percebi que apesar de "talk the talk" dona Jessica tá bem longe de "walk the walk": toda a linha e loja dela são ilustradas com fotos da cantora de anos atrás, e dezenas de quilos a menos.

Então porque não ir a um fotógrafo e assumir sua "fofeza" e tirar fotos atuais para a linha de moda dela? Porque vasculhar fotos antigas da época "dourada"?

Gorda a gente aceita, mas gorda safada não rola ( no pun intended ).

sexta-feira, junho 17

Tormenta Mental


- Porque é que muita gente que cansou de baixar mp3 torce o nariz pra baixar livros? Tanto um quanto outro são pirataria. Tadinha da Beyoncé ( e a Gaga, e a Britnéia, e a Rebecca Black ), tá pobrinha porque o povo pirateia as músicas dela.

- E-mail no meu inbox: prezada Adriana, não encontro na net muitas informações sobre a EuroDisney. Já que você mora na Europa, você saberia me dizer se a EuroDisney é perto da Disneylandia de Paris? Leitor, o que respondo?

- Só pra registrar a mesma ladainha de todos os anos: Pousada Villa das Pedras em Morro de SP com café da manhã R$ 370, Iberostar Bahia all inclusive na Praia do Forte € 146.

- Plato precisa desesperadamente de um banho. Como dar banho num gato de 10 kg que corre só de ouvir barulho de água na torneira? E aqui só tem salão pra cachorro, não pra gatos.

- Estou absolutamente viciada no programa Cake Boss. Acho que já assisti as 4 temporadas inteiras. Desnecessário dizer que tive que fazer um bolo no findi e ontem comprei outro. Pé na jaca total.

- As automotivas brasileiras pagaram uma média de 14 mil reais de participação nos lucros para cada funcionário. Imaginem o peão de linha que ganha 2 mil embolsando 14? Pergunta que não quer calar: quanto desse dinheiro vocês acham que cada um colocou na poupança?

- Hoje começa a liquidação de primavera-verão não só na minha loja favorita, mas em praticamente todas as lojas da Holanda. Tenho que comprar um presente para a minha mãe e outro pra sobrinha, mas juro que se eu comprar um pé de meia, meu guarda roupa explode. Virou vício.

- Até o final do ano, o sindicato aprovou que a empresa aumente nossa jornada de trabalho de 8 para 9 horas. Pode parecer pouco, mas gente, como cansa! O ruim não é trabalhar as tais 9 horas, é TER que trabalhar as 9 horas. Aqui na Holanda, o horário de almoço não é gratuito, ou seja, adiciona-se mais 30 minutos. Se eu entro as 8:30, só posso sair as 18:00, e daí tudo está fechado. E para sair as 17:00 para ir ao cabeleireiro por exemplo, tenho que chegar as 7:00. Vamos receber as horas extras, mas não compensa, pois 52% vai de imposto.

- Com o dinheiro das horas extras eu queria comprar algo completamente superfluo, desnecessário, mas legalzinho, mas não sabia o que. Um Ipad2, claro! Agora, e se eu compro o Ipad2 e logo sai o Ipad3 que estão dizendo que vai ser fantástico? Eu nem tenho o Ipad 1 e já fiquei irada por quem tem, aquele trambolhão pesadão comparado com o novo e fino Ipad2 é de dar raiva, mas e se o Ipad3 for ainda melhor? Espero? Mas daí eu vou ficar encasquetada com o Ipad4.

- Com outra parte do dindin acho que quero ir uns dias pra Disneyland Paris. Pena que os hotéis sejam tão caros, até 3X os preços dos hotéis de Orlando.

- Bom findi pra todos, vou lá espantar o pajé que tá fazendo a dança da chuva aqui na Holanda e já volto.

quinta-feira, junho 16

Nem da grossa nem da fina


Hoje eu estou uma bitch.

Estou com o pavio curtíssimo.

Aqui no trabalho certas coisas não vão bem.

Primeiro que na semana que vem fui convidada para uma conversa com o diretorzão mas já fui "avisada" que o conteúdo é: vaga no projeto brasileiro, só no Brasil por pelo menos 2 anos. E hoje li no jornal brasileiro que a empresa escolheu Ponta Grossa. Aqui na empresa é assim, sabemos as notícias pelo jornal, não pela gerência.

Ponta Grossa! Com tanto lugar legal, vão escolher aquele fim de mundo dos carambas, um frio de cortar a alma, uma cidadezinha dos escafúncios com meia dúzia de rochas e um laguinho barrento. Eu, morar ali? Ni muerta, Soraya Montenegro!

Um dos diretores envolvidos no projeto veio perguntar: e aí Adriana, o que você achou? Caro mio, ótimo pra empresa que vai ter 8 anos de isenção de ICMS, isenção de taxa de importação,  mas coitados de vocês que a cada business trip terão que voar 11 horas até SP, dormir no hotel do aeroporto, pegar vôo para Curitiba de manhã, alugar um carro e dirigir 90 minutos até Ponta Grossa.

Fiz um curso de "gerenciamento". Nesse curso nos dizem que o principal papel do gerente é manter seu "povo" motivado. Pra mim é tudo novidade, eu acho tudo lindo, eu acho tudo fantástico e tenho mil idéias, mas muitas delas, quando vou implementar, esbarro em um ou outro que não dá a mínima pro bem estar ou motivação do funcionário. E isso é muito desmotivante. E meu diretor deve ter faltado no curso, porque ele não mantém o povo motivado, eu certamente não estou.

Eu me matei tanto pra chegar ao cargo de gerência e agora que estou aqui estou profundamente decepcionada. Talvez ser gerente seja bom, mas em outra empresa.


terça-feira, junho 14

Pay forward

Acabei de ter uma conversa bizarríssima, e tinha que dividir com vocês.

Vocês lembram da história da colega de 27 anos que após alguns meses de casada se separou e "juntou" com um colega do departamento, né? Um ano se passou e hoje, conversando, ela me contou que não foi ele o safado que largou a esposa e filhos pra ficar com ela, loirinha peituda 14 anos mais nova, mas o contrário, a mulher conheceu um cara e largou o marido, em pleno Natal, pra se mudar levando os filhos pra casa do novo parceiro. E pasmem, em 3 meses estava casada de papel passado!

Aí, ela estava me falando que eles "descobriram que tinham sentimentos um pelo outro" em abril" do ano passado, mas que eu soubesse a separação foi em julho, mas e o que aconteceu nesses 3 meses entre um fato e outro? Os dois "experimentaram pra ver se funcionava". Cuma? Eu tentei, educadamente, esclarecer: mas… vocês começaram a se relacionar ( leia-se nas entrelinhas: furunfar ) enquanto você ainda estava casada, mas seu marido não percebeu nada, você não se sentia confusa ( leia-se nas entrelinhas: furunfar com um segunda e quinta, com o outro terça, sexta e domingo )? E ela: Adriana, ninguém desmancha um casamento sem antes "testar" o novo relacionamento pra saber se é aquilo mesmo que a pessoa quer. A ex-esposa dele também fez o mesmo…

Ou seja, o "pay forward" nesse caso é o chifre! A esposa do cara o chifrou, então ele vai passar o par de chifres pra cabeça de outro… Afe!

Eu sempre achei que o simples fato da pessoa considerar iniciar uma relação com outro já é o suficiente pra decretar o falecimento do casamento atual, e consequentemente iniciar o processo de separação ANTES de "testar" o novo relacionamento ( leia-se nas entrelinhas: furunfar com o outro e consequentemente presentear o atual com um par de chifres ). Estou sendo inocente aqui?

Eu acho que o "teste" do relacionamento baseado numas escapadelas furunfísticas uma furada, mas o que é que eu entendo disso, né? Só sei que nesse caso, além de já começar meio atravessado, esse relacionamento começou com uma diferença de 14 anos entre um e outro ( é quase uma geração! ) e dois filhos de uma das partes. Hoje mesmo ela estava meio frustrada que, para poder tirar uma semana de férias num resort em setembro, ela vai ter que passar 2 semanas das férias de verão num camping, pois ele tem a guarda das crianças nas férias, tem que viajar pra algum canto, e fica ultra caro para irem, com crianças, para um bom hotel na alta temporada.

Bom, só vou dizer uma coisa: desse pay forward eu não gostei! E tem mais, marido já sabe: se chifrar não conte, e saiba que pra mim, não importam as circunstâncias, traição não tem perdão, jamais!



Tchu be or not tchu be*


Neste fim de semana eu e o marido estávamos discutindo as razões pelas quais eu acho que eu não me adaptaria mais no Brasil ( estávamos falando sobre o convite pra ir de expatriados para o Brasil ).

O primeiro e mais importante, é a segurança. Eu ainda tremo só de pensar em quantas notícias temos de sequestros relâmpagos, de assaltos em semáforos, de carros roubados. Seu carro desaparecer do lugar estacionado é ruim, mas aciona-se o seguro e paciência. Mas eu tenho paúra de sequestro relâmpago, imaginou se for com o marido então, sem saber falar uma palavra em português?

Ter que ficar dando satisfações da minha vida pros outros. Justificar porque eu não posso receber visitas no próximo fim de semana, ter que ficar convencendo o "visitante" de que o compromisso já existente é realmente inadiável e que isso não quer dizer que eu não o acho importante. A sensação de que todo mundo tem o direito de se meter e dar pitaco na minha vida.

Ser julgada pela capa. Ter que usar roupinha de marca porque senão eu sou a requenguela da turma, do departamento, da vila, do Brasil! Meus fornecedores brasileiros sempre vem pra cá com camisas Tommy Hilfieger ou equivalente, relógios carésimos, bolsas de laptop intergaláticas. Tudo com etiqueta beeeem visível, claro. Voltar a ter a neurose com o peso, encarar gente que acha que o gordo é menos inteligente porque é gordo, sofrer pra achar uma roupa que sirva. Comer mortadela e arrotar peru.

A bagunça. As reuniões sempre atrasadas. As consultas médicas ultra atrasadas. Povo que vem te visitar sem nem dar uma ligadinha antes ( eu aaaamo o costume holandês de marcar tudo com antecedência ). Mania de deixar tudo pra última hora ( eu marco minhas férias, como todos os holandeses, pelo menos 4 meses antes, minha cunhada organizou férias pra família no litoral norte 3 semanas antes ).

O complexo de inferioridade do brasileiro. É  melhor ir pra República Dominicana que pra Bahia ( fui pro exteriorrrrrr! ), o creminho Oil of Olay é melhor que um Natura ( NOT! ), ai que tudo essa loção da Vitoria Secrets ( até aquele creme hidratante Paixão cheira melhor ), vamos pra Argentina comer bife ( oi? )( fui pro exteriorrrrr! ), o fulano foi contratado porque "trabalhou no exterior" ( oi2? E se o cara foi ófice-boy em Miami? ).

Desculpaê, eu amo o Brasil… de férias!

* Vendo uma entrevista com o Massa o marido comenta: você sabe que o cara é brasileiro porque todo brasileiro fala tchu ao falar "to". Lembra a guia da Nasa? ( uma brasileira que falava um tchu tão arrastado que doía, mesmo já morando nos EUA a mais de 10 anos )

sexta-feira, junho 10

Confissões de uma não-adolescente

Amaldiçoado seja quem inventou o Blackberry. Esse maledeto tem o poder de acabar com qualquer fim-de-semana, e ainda mais prolongado!

Depois de todo o carnaval que eu fiz na empresa para ser incluída no projeto brasileiro, recebi agora de noite um convite do diretorzão-ão-ão para uma conversa "a quatro olhos" na semana que vem. A mensagem só diz assim: Uma vez que você demonstrou interesse pelo projeto, eu gostaria de conversar com você. Mais nada.

Agora eu fico aqui pensando: o que é que ele vai dizer? eu suspeito que ele vá me oferecer oficialmente a vaga no Brasil, que é justamente o que eu não quero de forma alguma. E agora vou ficar pensando nisso o fim-de-semana inteiro.

Agora deixa eu confessar uma coisa: eu me viro do avesso de nervosismo dessas conversas com diretorezões. Por favor, digam aí, sou só eu? Eu vejo certos colegas entrando e saindo da sala da diretoria como se estivessem batendo papo com o vizinho, mas eu quase tenho um infarte antes, chega até a me dar mal estar.

O jeito é tentar deixar pra lá e perguntar pro meu diretor direto se ele sabe de alguma coisa.

E rumbora aproveitar o findi prolongado.

quarta-feira, junho 8

A little too ironic... Ou a vaca foi pro brejo


Eu não sou de sentar e ficar esperando o sol nascer. Quando eu quero alguma coisa eu tento de toda forma, de todos os ângulos, que qualquer maneira conseguir o que eu quero. If I go down, I will go down screaming, esse é o meu lema. Lembram-se do drama do primeiro emprego na Holanda? E a luta contra as banhas ( ainda no combate, aliás )? Não, sentar e esperar, ou pior, desistir, não é comigo.

Mas isso não quer dizer que eu batalhe com graça, com um sorriso no rosto, com a atitude de uma lady inglesa admirando as flores do campo. I go down really screaming, eu sou um soldado esfolado, sangrando e embarreado dos campos do afeganistão. Eu sofro, eu me acabo, e embora não seja fácil praqueles ao meu redor, informo-os desde o início que no fim, tudo dará certo. Sort of.

Aqui no trabalho, tudo dará certo. Mas eu estou "going down screaming", e está na hora de parar. Falei com quem tinha que falar, fiz o que tinha que fazer, recebi as promessas que eu precisava ouvir naquela hora, e hoje, dez minutos atrás, a promessa de que eu iria tomar conta do projeto brasileiro pros produtos do meu time foi quebrada.

Urrei de raiva, desabafei com um colega, tomei um café COM AÇÚCAR DE VERDADE, derramei 3 lágrimas ( de ódio, frustração e auto-piedade ) e acalmei. E estou agora "entronizando" que serei uma lady inglesa admirando as flores do campo. Mas se não me descabelarei com o projeto que eu quero, também não descabelarei com o projeto que eu não quero. Não me puseram de gerente? Pois então, gerenciarei. Dividi meus pepinos para os subalternos. Sei que eu faria melhor e mais rápido, mas whatever, me pagam ( extra aliás ) para gerenciar, então eu gerenciarei, eles que se esfalfem fazendo mil planilhas de cálculos e preenchendo mil telas e me tragam tudo mastigado para eu fazer meu papel de gerenciar e tomar decisões.

Vocês já ouviram a música ironic da Alanis? Então, vão lá e leiam a letra, está martelada na minha cabeça. Decidi gerenciar hoje, porque ficar trabalhando mil horas extras fazendo trabalho que não é mais meu e tentar no tempo que sobra gerenciar não está dando certo. Será que se eu tivesse feito isso antes, eu estaria agora no tal projeto brasileiro? Ironic, isn't it? Eu ter entendido e mudado quando a vaca já foi pro brejo. Blé.

Meu humor sombrio e esse papo de ironic acabou numa conversa meio sombria aqui no escritório. Um aparentado do Senhor Legal foi eutanasiado hoje. Com cancer de pulmão, fez "greve de fome" 8 semanas porque ele queria morrer de morte morrida, mas acabou não resistindo e pedindo a eutanásia. O chocante na história toda é que a última conversa dele com o filho foi: eu pensei que em fase terminal de câncer, emaciado, que não fosse estar lúcido o suficiente para compreender que quando o médico me der a primeira injeção será o fim, mas aqui estou, entendendo tudo, tão lúcido como sempre estive, sofrendo cada segundo do processo…

Eu e o marido já temos um acordo de que um não desliga os aparelhos do outro jamais, never. Eutanásia, nunca, em nenhuma hipótese. Em hospitais, jamais optar pelo DNR ( do not ressucitate ), irei pros braços da dona morte como fui em vida, I will go down screaming.

Papo pesado esse né.