Ontem em matéria do Estadão, falava-se que desde 1947 nunca os brasileiros viajaram tanto para o exterior, e que como o fluxo de turistas extrangeiros não é correspondente, a balança comercial está se desequilibrando e que vai chegar a 1 bilhão de dólares de "desequilíbrio".
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100727/not_imp586445,0.php
Agora eu pergunto: não é pra morrer de raiva?
Quantos de nós morando aqui no exterior já não passou calvários para organizar uma viagenzinha pra terra-pátria? A matemática é óbvia, com tudo mais fácil e preços melhores no exterior, é fácil o brasileiro organizar e pagar uma viagem pros EUA ou Europa, agora, se o americano ou europeu quer ir ao Brasil, é tudo complicadíssimo, o sujeito acaba desistindo e pegando um dos zilhares de pacotes all inclusive pro México, Jamaica, até Punta Cana, que nem um padaria-farmácia-boteco numa rua tem, oferece mais de 30 resorts de tudo quanto é tipo.
Isso sem falar nos desmandos dos preços dos hotéis no Brasil. A resposta dos profissionais de turismo é sempre a mesma: tem mais demanda que oferta, então quem quer ir pra determinado lugar, paga o que cobram. Que ódio! Me dizem que eu deveria entender uma pousadinha em Fernando de Noronha cobrar 800 reais por noite, mas eu não entendo o absurdo de uma ilhota no Brasil cobrar a mesma coisa que um resort numa ilhota da Polinésia Francesa. Mas no fim, acabam dizendo que o custo operacional lá é altíssimo ( mais alto que numa ilhota na Polinésia Francesa? ) e como eu não sei mais detalhes, fico quieta ( not! ), mas… qual é a desculpa pra uma pousadinha em Trancoso, terra firme, a poucos quilômetros da acessível Porto Seguro, cobrar os mesmos 800 contos numa diária? Ou em Itacaré?
Na verdade, é a falta de planejamento dos orgãos de turismo brasileiros, aliados à lei de Gerson dos donos de hotel ( quanto mais puderam sangrar seu bolso em proveito próprio, sangrarão ) que produzem essa vergonha que é o turismo nacional. Em países como o México por exemplo, estima-se que uma família de 4 pessoas vai deixar, fora o que pagou no hotel-pacote, 1000 dolares por semana no país. São gastos com restaurantes, aluguel de carros, atrações turísticas, compras… há um movimento de toda a indústria da região. Quantos empregos são gerados!
Atualmente, a oferta de pacotes prontos nas agências, que é de longe a preferência do europeu que vai viajar com família, é minúscula. No Reino Unido, agências importantes como a Thomson simplesmente cortaram destinos como a Bahia do catálogo deles. Aqui na Holanda nem oferecem, vi pacotes para a Bahia na Alemanha. E mesmo esses pacotes começam a ficar caros em comparação com Cancun/PDCarmen, Cuba, Jamaica, República Dominicana. Uma diária de casal num all inclusive da rede Iberostar em Cancun pode sair por até 90 euros, no equivalente Iberostar Bahia já está 132 euros, o que é uma diferença considerável. E embora eu tenha adorado a Praia do Forte, Playa del Carmen é mais bonito e tem mais o que fazer, então porque é que o europeu vai escolher o Brasil?
E para o viajante independente é ainda pior. Quem acha tarifários nos sites de hotéis e pousadas? São raros! E daí você tem que ficar mandando e-mail e esperando resposta, sem falar na desconfiança que dá. E comprar vôos internos? Parece que a Gol organizou o site internacional deles, mas até 2008, a última vez que estive no Brasil, tive que pedir pra minha família pagar minhas passagens, imagine que até CPF pedem, e pra quê hein? E aluguel de carro? Alugamos carro em todos os países que visitamos praticamente, e só no Brasil não basta ter o cartão de crédito para garantir eventuais despesas, você tem que deixar um depósito! Onde já se viu isso, depósito! A gringaiada toda olhando de soslaio pra vendedora da locadora, e metade simplesmente desiste, porque é muito louco, deixar 500 reais de depósito no cartão de crédito com a promessa "de boca" que vai ser extornado no fim do aluguel.
E reclamam dos brasileiros que vão para o exterior, mas pudera, até mesmo os resorts brasileiros parte das redes européias querem esfolar os brasileiros vivos. Lá em cima eu falei que a diária do Iberostar Bahia está 132 euros o casal ( em 2008 eu paguei 112 ), mas o brasileiro que for passar uma semana no mesmo hotel, reservando via agência brasileira ( eu pesquisei a CVC e Submarino Viagens ), vai pagar ao redor de 220 euros por casal! O mesmo está acontecendo no Enotel Porto de Galinhas, que agora é da rede RIU. Um pacote para o Enotel por 1 semana está 2900 reais saindo de SP em saída promocional. Uns 500 reais é de passagem, e 2400 reais por uma semana de hotel ( por pessoa ). Isso dá mais de 130 euros por pessoa por noite, ou 260 euros por casal, o dobro! Mas o RIU em Playa está 46 euros por pessoa por noite, ou 92 euros por casal! Dá pra pagar a passagem e ainda sobra troco!
E pra quem a gente reclama? Pro espelho, porque político brasileiro não tá nem aí! Tem algum orgão, tem algum ombudsman?



