quinta-feira, abril 26

Cadê o Dr. Oz?

Outro dia li no Facebook ( olha que referência para teorias filosóficas ) “tem sempre alguém em situação pior que você”. E ó, tem mesmo.

Minha professora de holandês desabafou sobre o drama familiar na casa dela.

A filha casou, o marido não queria filhos, ela insistiu, tiveram uma. Acidentalmente engravidou, o marido queria que ela abortasse, ela recusou. Foram fazer o primeiro ultrasson, são gêmeos. Foram fazer o segundo ultrasson, são meninas e uma delas tem lábios leporinos e possível retardamento mental. O marido queria que ela abortasse a gêmea não saudável, mas o risco para a bebê saudável era muito grande.

Começaram o calvário de exames para diagnosticar quão doente é a bebê, e o fim do calvário acabou na Bélgica, como acontece muito por aqui com as pessoas cansadas da medicina de interior do Zaire das Zolanda. Não há retardamento mental, mas o problema do lábio leporino é dos mais graves, com fenda dupla, incluindo o pálato.

Diagnóstico em mão, começa o calvário número dois pra pesquisar o tratamento pós parto da bebê. Opções limitadíssimas, visto que só 3 hospitais na Holanda estão preparados para tratar o problema. Google, google, google, clááááááro que o tratamento mais moderno não está disponível na Holanda, mas sim na Bélgica e Alemanha, mas considerando que consiste em 3 cirurgias no primeiro ano do bebê, como financiar tudo isso do próprio bolso?

Deve ser enlouquecedor, não poder pagar um tratamento médico para um filho ainda não nascido.

Não sei o que me chocou mais, a história toda ou a minha professora ter desabafado comigo, com lágrimas e tudo.

Amanhã conto do vizinho louco, o que tem problemas em estacionar.

segunda-feira, abril 23

Esse ano 39, ano que vem 30 e 10

Hoje estou completando 39 anos. Meu último ano na casa dos 30. Estou, desde já, em pânico. Pânico esse nada justificável, afinal, entrarei nos 40, com certeza, bem melhor do que metade dos meus 20 – lembrem-se que eu passei metade dos meus 20’s acima dos 100 quilos.

Eu estava me lembrando de um blog de uma brasileira aqui na Holanda há uns 8 anos, logo que eu cheguei aqui. Ela contava que tinha ido à praia com um lindo biquininho vermelho, e um senhor, cuja esposa usava um esdrúxulo biquini enorme e florido, ficou olhando pra ela. Aí ela discorreu umas 5 laudas sobre o desleixo e mau gosto da gringa, e concluiu que ela mesmo é que estava certa, com o biquininho vermelho e os olhares “admiradores” do marido da tal gringa. Na época eu, também ainda estranhando a forma de se vestir das holandesas, achei que a tal brasileira estava certa. Hoje? Bah, que asneira falou aquela moça…

Admiro que as mulheres por aqui, pelo menos as que eu conheço, honestamente se preocupem mais com a saúde e bem estar do que em caber dentro do biquininho minúsculo. Ninguém quer ser gordo, claro, mas a neurose das mulheres brasileiras, aqui não existe. Admiro demais que elas se vistam como gostam e se sentem bem, não tem nada de ficar seguindo modinha. Imaginem que eu cresci na escola e no clube metido a besta da cidade, ouvindo que usar maiô é pras barangas, afinal, quem quer esconder é porque é baranga mesmo. A tal senhora do biquinão de flores grandes, ah que sortuda ela – usar um biquinão confortável, que não fique entrando no forébis, assando tudo… Sim, porque me desculpem as fãs de biquinis entrentos, mas dá pra ver quem é brasileira nos resorts internacionais pelos biquinis menores e entrando na bunda – sempre!

Tenho a impressão que os holandeses julgam menos, e que as pessoas ligam menos para o julgamento dos outros. Hoje eu estava trocando uns e-mails com uma brasileira que diz que não usa biquini desde os 5 anos, que vai à praia de bermuda e camiseta, e vou contar-lhes, ela deve ter uns 20 kg a menos que eu. Isso acontece porque a gente foi criada naquele país do caramba, onde há que se ser boa de bunda, onde o povo olha mesmo descaradamente, e fofoca mesmo descaradamente, e condena mesmo descaradamente, cada celulitezinha, cada graminha a mais. Blé pra todo esse povo. Um grandessíssimo blé. Blé pra esse povo todo que tá pagando carnê da casas Bahia e tá gastando os tubos em drenagem linfática, em lipostabil, em creminho Lipocontour da Lâncome.

Então, hoje, aos 39, começo a preparar-me pros 40. Sempre tive medos dos 40. Preciso preparar o físico, quero sim emagrecer alguns quilinhos, menos da metade que me aconselhou o médico brasileiro. TENHO, em maiúscula, que começar a “educação física”, porque ninguém envelhece saudável paradona como eu sou. E o mais importante: tenho que assassinar e enterrar a brasileira dentro de mim que pensa que eu tenho que ter o corpinho de capa de revista e que se não o tiver, tenho mais é que colocar uma burka ao ir à praia.

Como vocês podem ver, os próximos 12 meses serão de preparação física e psicológica intensas.

E que venham os 40!!!

quarta-feira, abril 11

Quando não é um vizinho, é outro.

Como vocês sabem, mudei para a minha atual vizinhança há 3 anos. Na vizinhança antiga, mais simples que essa nova, nunca tivemos problemas com vizinhos, nessa, além do problema com os vizinhos que queriam montar tanques de peixes comedores de carne humana na garagem, já tivemos outros problemas – todos relativos a estacionamento de carros.

Na minha rua todas as casas tem uma garagem. As casas do modelo B, que é a minha, tem ainda um espaço na frente da garagem que, em teoria, dá para deixar um espaço para a porta da garagem abrir e estacionar um carro do lado de fora. As casas do modelo A, que ficam do outro lado da rua, não tem esse espaço para estacionar na frente da garagem. A rua em si contém também vários espaços para estacionamento público não pago. Quando os problemas com estacionamento começaram, a prefeitura foi acionada e ela respondeu que a vizinhança conta com um cálculo de 2,5 vagas de estacionamento por família, incluindo vagas na rua, vagas em frente à garagem ( oprit ) e garagem. E é aí que a  porca torceu o rabo: holandês NUNCA usa a garagem para estacionar seus carros. Com as casas todas apertadas, e essa mania maldita de guardar qualquer pote velho de maionese, as garagens viram depósitos de cacarecos, enquanto suas BMW’s dormem na rua.

Ontem estávamos em casa montando móveis Ikea, 10 da noite, quando toca a campainha: era o vizinho de frente. Eu abro a porta e ele rosna: dá pra você parar de estacionar na “minha” vaga? Eu, totalmente pega de surpresa, só pude responder: como assim? Aí o cara apontou para o carro dele, estacionado na minha “oprit”, atrás do carro do Bart, bloqueando a possível saída do carro do marido, e espumando de raiva, respondeu: eu estacionei meu carro na sua garagem pra “make a point”, porque você tem espaço aqui mas continua estacionando “na minha vaga”.

*** Pausa para explicação: normalmente eu saio antes do marido e volto depois do marido pra casa, então, na maioria dos dias, estaciono atrás dele, apertada, na tal oprit. Quando o marido ainda não chegou, ou sei que ele vai ter que tirar o carro antes de mim, procuro um lugar na rua para estacionar. Ontem o marido ía levar o carro pra lavar, por isso ao chegar, estacionei na rua, na vaga em frente à casa do vizinho. Só para deixar bem claro, todas essas vagas são públicas, não são reservadas a morador / casa X, é quem chegar primeiro, tasca. Detalhe é que o vizinho tem uma BMW que deixa na rua, e a garagem é cheia de cacarecos, como já expliquei ali em cima. ***

Eu olhei para o carro do sujeito, estacionado ali na minha porta, e só exclamei: ah, você estacionou o carro aqui… nem tinha visto! E não tinha mesmo. Esse cara ficou vermelho, azul, verde, listradinho… o coitado provavelmente ficou pissaroco de ver meu carro na vaga onde ele queria estacionar, juntou toda a coragem que tinha e que não tinha pra estacionar na minha garagem/oprit, ficou esperando sentadinho no sofá a campainha tocar pra ele dar o sermão, e nada… aí ele teve que juntar coragem tudo de novo e ir tocar minha campainha, pra eu dizer que nem notei o “protesto” dele.

Em retrospectiva, eu deveria ter dito pro cara que ele que vá pentear macaco, a vaga é pública, mas acabei dizendo que iria evitar estacionar na vaga dele, mas mencionei que como a vaga é pública, mesmo que eu não estacione, outros o farão. No que o cara ainda mais bravo retrucou que os outros vizinhos raramente estacionam na vaga “dele”, que todos entendem que quem tem casa naquele lado da rua não tem onde estacionar ( porque a própria garagem está cheia de vidros de maionese usados ) e que tem que usar a rua pra isso, que se não há outras vagas, os vizinhos chegam até a tocar a campainha dele pra pedir desculpa por ter que estacionar que vaga “dele” ( o cara quer paparicação? ).

Estou pê da vida comigo mesmo, deveria ter dito isso e aquilo, mas fui pega de surpresa, sou péssima quando sou pega de surpresa. E agora fico remoendo tudo o que eu quero falar pro idiota do vizinho. Vou tentar evitar de estacionar naquela vaga em frente à casa do carcará, mas entre estacionar meu carro em lugar ilegal ou ter o carro do marido me bloqueando de manhã, digo-vos que se a alternativa disponível for estacionar naquela vaga, o farei. E daí, a pergunta que fica: como lidar com o maldito do correio, que sempre entrega minhas encomendas na casa dos vizinhos, incluindo na casa dele? Esse cara vai dançar a polka em cima do meu próximo pacote.

Dessa história toda, duas conclusões: a maioria dos holandeses é louca e TEM QUE IR PRO PSIQUIATRA*, e viver em bairrozinho classe média é mesmo uma merda – duvido que o Bill Gates tenha problemas com o vizinho dele!

(*) Historinha que aconteceu no fim de semana nas terras baixas: crianças estavam brincando na rua e fazendo barulho de crianças brincando na rua. Uma bola caiu no quintal de um sujeito que estava de saco cheio das crianças e seus barulhos. Uma das crianças foi pedir a bola, ele se negou a devolver. A mãe da criança foi lá pedir a bola, discutiram, ele bateu a porta na cara da mãe da criança. A mãe da criança insistiu, o sujeito abriu a porta com um bastão de beisebol na mão e fraturou o crânio da mãe e de mais duas pessoas que vieram acudir. Estão os três no hospital em estado grave. Dia de fúria na vida real!

segunda-feira, abril 2

Adriana, mais pra baixo que uma arrastante larva

Eu não sou de jogar a toalha. Vocês que me acompanham a quase 10 anos sabem que eu tenho mil defeitos, mas há uma coisa que considero uma das minhas qualidades: a persistência.

Estou persistindo no negócio com o Old Fart já há muito tempo. Gente, está acabando comigo. Hoje botei o café da manhã pra fora de nervoso. Sabem o que está me matando mais do que a irritação com esse idiota? É estar a um passinho de jogar a toalha. Desistir não existe no meu vocabulário há anos, vai entrar. Estou me sentindo o cocô da larva que a pulga do cavalo do bandido comeu.

Quarta-feira temos o forecast anual como diretorzão member of the board. O grupo inteiro está trabalhando há duas semanas nos números e apresentações. Pedi pro meu grupo bloquear a agenda totalmente pra se preparar, e passei nervoso a semana inteira vendo esse insuportável fartístico flauteando pra cima e pra baixo. Ele ficou 1 dia até mais tarde, e deu o assunto por encerrado, a apresentação dele estava mais fraca que o primeiro draft de muitos. E ele foi empurrando, e empurrando, na sexta-feira, que era o deadline, ele veio pra empresa, 9 da manhã passou mal, foi embora. Não, ele não estava fingindo, não, não me aborreceu, afinal, ninguém controla um piripaque.

O que me fez vomitar o café da manhã, é que ele veio no sábado terminar a apresentação, e agora quer tapinha nas costas e elogio. Se ele tivesse trabalhado na apresentação como todo mundo fez, não precisaria ter vindo no sábado! Gente, ele fica rodeando, repetindo mil vezes que veio no sábado, pra mim, pra secretária, pro diretor… Morri!

O negócio é que 50% da minha ira é incompetência dele mesmo, os outros 50% é ódio mortal que eu tenho desse sujeito. E é feio isso, um gerente ter ódio mortal do funcionário. Meu diretor vê tudo isso, me pede paciência, ele tem que ficar até o projeto terminar, mas gente, eu não vou aguentar! Meu estômago está em pandarecos, meus nervos fritos… O que fazer?

Estou me sentindo péssima, porque junta tudo: eu me sinto terrível porque se der um ultimato ao meu diretor significa que eu estou jogando a toalha, me sinto péssima porque eu acho que não deveria estar levando o negócio pro lado pessoal, me sinto péssima porque fico remoendo os afrontes desse sujeito.

Esse fulano quer agrado, quer paparicação, quer elogio, e as coisas só vão melhorar, se é que melhorariam, se alguém der essa motivação que ele tanto quer. E isso, meus colegas, não está ao alcance das minhas capacidades.

Naquela pirâmide de Maslow fala que o cara só vai deselvolver o potencial dele se ele conseguir suprir a necessidade dele de elogios ( melhorar a auto-estima ). Gente, a vida desse cara é um caos, como é que eu vou conseguir aqui resolver a meleca de vida que ele tem? Ele reclama que teve que aceitar um salário menor aqui na empresa, está com problemas no banco ( ligam aqui!!! ), mas tem uma pilha de recibos de viagem sem receber de volta da empresa porque ele tem preguiça de fazer a declaração! Já somam-se €2000! Ele se acha o supra sumo de tudo, então não manda o carro dele pro conserto, faz ele mesmo em casa, só que o carro foi reprovado no APK 3 vezes, está sem licenciamento, a polícia pegou, deu multa, apreendeu o carro, ele se atrasou pra uma reunião importante, mas ele é que é o coitadinho. A mulher já o deixou 2 vezes, então o mundo pode estar caindo que ele vai embora as 6:30, tem que jantar em família, e ele só aponta a aliança no dedo e diz que quer manter ela ali ( ugh… too much information ). O caos da vida dele ele traz pra cá e as deficiências da vida dele, ele busca aqui. Não dá!

Que merda!

sexta-feira, março 30

Jamais cuspa no prato que comeu!

No ano passado, durante o processo seletivo de candidatos para uma vaga do meu departamento, mas do grupo do meu outro colega, me pediram para participar da entrevista de uma das candidatas por ser mulher e estrangeira. Ela foi muito bem na entrevista, foi contratada, começou a trabalhar em setembro passado.

Ela é séria, muito concentrada, e algumas pessoas estranham o jeitão meio seco dela, mas ela não é má pessoa ou má funcionária.

Em janeiro, ela comunicou que havia decidido voltar para a Slovakia, o motivo principal é porque a avó dela estava muito doente e a família havia decidido não colocá-la num asilo, mas tratar dela em casa. A moça é filha única e a mãe é filha única. A mãe é médica e aparentemente ultra bem sucedida, porque além de trabalhar também na Austria, dá seminários, ganha uma grana preta, e dá bolsas LV autênticas de presente pra filha ( eu sei, parágrafo fofoquinha ). A avó que elas não querem colocar no asilo também é “bem de vida”.

Encurtando a história, já sabemos mais de dois meses que a moça se irá. Nem se integrou direito e já se vai. Um saco pro rapaz que passou 2 meses intensivamente treinando-a. Só que no último mês, ela meio que largou de mão. Chega a hora que quer, vai embora super cedo. Tem dia que liga avisando que não vem porque foi tratar disso ou daquilo da mudança. Teremos a reunião anual de budget a semana que vem e ela meio que se recusou a preparar o material para a apresentação ( ah, não faz sentido, posso até ajudar quem for apresentar o meu colega gerente, claro ). Fica feio, muito feio sair de uma empresa assim. Mas na cabeça dela deve passar: estou mudando até de país, who cares???

Só que ontem a avó foi pro hospital, os médicos já desenganaram, ela está lá só esperando o inevitável e hoje me ligou “em off” e disse que estão pensando em ficar na Holanda, se eu acho que nosso diretor teria interesse em mantê-la, já que um substituto ainda não foi encontrado. E sinceramente, eu não sei! Depois desse último mês, não sei mesmo. Eu disse pra ela ligar pra ele, não sei se ela vai.

Bom puevo, rumbora que é quase findi. Fez sol a semana inteira, e a peãozada na labuta, hoje que a gente pode ir pro centro tomar uns goró no “terras” ( cafés com aqueleas mezinhas no lado de fora ), chove! Peão tem tudo é que pastar mesmo.

Fui, bom findi!

quarta-feira, março 28

O fim do mundo está próximo

Cansada de me preocupar com a dieta, com as banhas, a aula de zumba, o tamanho 44 ma Mexx que teima em não me caber, vim me distrair na net.

Caramba, o povo só fala em dieta. Eu, tu, o rabo do tatu.

Estamos GORDÉSIMOS povo, achamos que uma raça alien traria o fim do mundo, mas o armagedon foi inventado por nós mesmos, os humanos. Não foi virus mutante, bactéria inventada pela CIA, epidemia vinda das florestas africanas. Nosso fim virá dos M&M's, das Pringles, do Baconzitos, dos pães de queijos recheados de catupiry e coxinhas idem.

Se não fosse o exército anti-gordístico, morreríamos pelo menos felizes, nós os gordos, alimentados pelas orgias serotonínicas chocoláticas, felizes com nossos mega-cheese-salada do Ponto Chic. Mas não, somos caçados iguaizinhos os zumbis de The walking dead, a série.

Quando comerei uma empada de palmito com catupiry novamente sem me sentir o cocô do cavalo do bandido? Nunca! Taí minha maldição, pra sempre confinada à torradinhas de feno do Dr. Atkins, que além de ruins, quase me matam de gases.

Punzenta mas magra, então vos digo que as torradas de serragem ficam!

Sonhando com um brownie do Jamie Oliver, me despeço. Essa semana tá power e eu não sei quando terei tempo de novo. Ó mundo cruel!

quarta-feira, março 21

Quem não se ajuda

Quem de nós, brasileiros, não conhece váááárias pessoas que "cozinham pra fora"? Desde criança, até o dia de me mudar do Brasil, comprei comida de boleiras, doceiras, "salgadinheiras"… Recentemente vi no programa da Ana Maria Braga o tal Brownie do Luiz, um rapaz que está se sustentando na faculdade fazendo e vendendo brownies. E é sempre assim, a água bateu na bunda, o brasileiro sai nadando.

A minha sobrinha postiça começou a fazer doces pra ganhar um extra no primeiro ano de faculdade. O negócio foi dando tão certo que ela largou o curso que fazia e foi estudar pra ser chef. A especialidade dela são doces, e agora ela tem até marca registrada. Terminou o curso e já começou a fazer uma segunda faculdade, dessa vez em nutrição.

Minha tia, quando meu tio ficou desempregadao, fez quentinha. Compraram uma máquina usada de fechar aquelas quentinhas de alumínio, ela cozinhava, íam ela e meu tio entregar quentinhas. Ficou rica? Não, mas ganhou um belo troco que pagou muitas das contas naquela época.

Lembram-se do meu funcionário que a mulher está recebendo uitkering ( salário desabilidade )? Pois então, o médico da coluna liberou para trabalho parttime e o psiquiatra não só liberou, como até indicou que ela voltasse a trabalhar.

O meu funcionário diz que ela não pode mais trabalhar com o que ela estudou porque ela está muito velha. Ela tem 37 anos ( mais nova que eu ) e estudou "vitrinismo". Nunca tinha ouvido falar nisso antes, mas aqui o povo estuda pra enfeitar vitrine. Ele me diz que ela está muito velha porque nessa profissão você tem que se abaixar muito, tem que ser muito rápida (???). What-ever.

Aí ele pensou em abrir um negócio próprio, pesquisou cupcakes. Achei uma ótima idéia, afinal, investimento inicial é pequeno, você faz no conforto da sua casa, no seu próprio ritmo, mas ele diz que não vai dar certo porque tem 6 pessoas fazendo o mesmo na região e que a margem de lucro é pequena. Eu acho patacoada, porque sempre que compro um cupcake pago os olhos da cara e o que você usa pra fazer aquele bolinho? Uma forminha, um monte de recheio e um bolinho mequetrefe, o custo mesmo é baixo.

Achando que eu podia ajudar, dei vários exemplos da brasileirada que mora por aqui, tem quem faça salgadinho, tortas, quem venda carne, carne recheada, docinhos… Mas nada é interessante o suficiente, ou dá o lucro que ele espera.

Paciência.

Na semana passada ele estava visivelmente preocupado. Perguntei se ele queria conversar. Ele me contou que por causa da discussão com o órgão que paga o salário desabilidade, em teoria, a esposa ficou 2 meses em casa sem estar oficialmente desabilitada ( eram 4 meses, ele negociou 2 ). Durante todo esse tempo, mesmo estando em casa, a esposa mandou as crianças pra creche no periodo integral. Agora a creche quer 2 meses de mensalidade por filho de volta, e dá no total mais de € 5000. Ele falou até com um advogado e como ele já assinou o acordo dos 2 meses de desabilidade, ele reconheceu que por 2 meses a esposa não estava enferma, portanto não tinha direito ao subsidio da creche ( se um dos pais está em casa, o casal não tem direito a receber o subsídio da creche, que em teoria pode chegar a 70% ). Fiquei com pena, mas também não entendo porque a mulher ficou em casa e continuou mandando os filhos pra creche.

Segunda foi aniversário dele, ele trouxe várias tortas e bolos que a esposa fez. Achei uma ótima forma de propaganda, e todo mundo gostou dos quitutes. No mês que vem é meu aniversário, então sugeri pra ele que se a mulher dele topasse, eu compraria as tortas e bolos dela. Por 3 tortas de maçã e três bolos ingleses ( daqueles pequenos e sequinhos, retangulares, aqui chamam de coffe cake ) ofereci 100 euros, o que é o dobro que eu pagaria em 4 tortas da Multivlaai. Como meu aniversário é numa segunda ela poderia fazer no fim de semana. Como vocês já devem ter adivinhado, ela não quis, deu a desculpa que terão um compromisso naquele fim-de-semana.

De novo, paciência.

Minha avó paterna, a Vó Nilda, ficou viúva antes dos 30, com dois filhos de 10 e 5 anos pra cuidar. Meu avô, que se recusou a casar antes deles terem uma casa própria, deixou a casa e uma pensão pra ela, pensão brasileira, cês sabem né? Minha avó mandou o filho mais velho temporariamente morar na casa de uma tia, arregaçou as mangas e de tarde, quando meu pai estava em casa ( ele era o filho de 5 anos ) ela lavava roupas pra fora, e de manhã, enquanto meu pai estava na escola, ela entregava, a pé, as roupas que algumas clientes não podiam buscar. Ela fez isso por mais de 20 anos, lembro que quando eu era pequena ainda tinha gente que vinha procurá-la pra uma ou outra "emergência", e se o dinheiro fosse bom, ela ainda fazia um bico. Meu pai, antes de casar, assim como meu avô, construiu uma casa "nos fundos" da minha avó, e quando eu nasci, ganhando melhor, ele comprou nossa primeira casa, e minha avó alugou a casinha que meu pai fez. Nunca aceitou um tostão dos filhos. Viveu bem, tinha até uma poupancinha, cuja "caderneta" ela sempre mostrava pros netos, toda orgulhosa. Tinha dores fortes nas pernas, provavelmente resultado dos anos em pé no tanque ou passando roupa, ou carregando roupa pra clientes, mas criou os filhos, sobreviveu.

Não entendo, esse povo sobreviveu a uma guerra, ou melhor, a duas guerras mundiais. Já ouvi histórias de gente que comeu sopa de bulbo de tulipa pra sobreviver, e como pode essa geração ser assim tão… tão… acomodada?

Anyway, postão-surra. De novo. Sorry.

terça-feira, março 20

Um momento

Tenho muito medo daquele ínfimo momento em que sua vida vira de pernas pro ar.

Um familiar doente, um acidente de carro, um animalzinho de estimação que estava na hora errada no lugar errado. Um momento, um segundo, uma frase, que vai mudar sua vida pra sempre.

Sou sortuda, ainda não passei por nenhuma dessas experiências. Pensei nisso hoje, e me deu aquela sensação gigantesca de que eu sou uma mal-agradecida, que deveria erguer as mãos aos céus pela minha vidinha relativamente pacata. E principalmente, não reclamar das pendengas do dia-a-dia, porque são ainda bem gerenciáveis.

Uma das comadres está passando por um momento difícil, com problemas de saúde em casa. Nós, espíritas, acreditamos não só no poder da prece, mas ainda mais no poder multiplicado da prece pelo reestabelecimento de terceiros. Querer o bem pra si é fácil e previsível, poucos são aqueles que inspiram em outros sinceros votos de melhora, de reestabelecimento. Ontem, em casa, em forma de preces ou de pensamentos positivos, eu e o marido torcemos e rezamos pelo familiar da comadre, que está com problemas de saúde.

terça-feira, março 13

Eu sou, mas quem não é?

Eu sou chata, mas vou te contar, como tem gente muito mais chata que eu nesse mundo, viu!

E gente estranha, e gente sem-loção.

Blé.

segunda-feira, março 12

Foi, é e será

Quando tenho um tempinho, gosto de vir aqui e abrir um arquivo do mesmo dia de um ano longínquo. Me dá alento ver que alguns problemas que eu tinha foram resolvidos, muitas pendengas na cachola se tornaram menos pendengas, muito do que eu achei que fosse ser impossível, hoje é realidade.

Estava lendo um post de alguns meses atrás da Adriana, onde ela fala da preocupação em voltar ao Brasil depois de tantos anos e o povo criticá-la pelo peso ganho. Quando li esse post dela pensei: que bobeira se preocupar com os outros, ninguém paga as contas dela… mas cá estou eu, lendo um post de 2004 onde eu exponho a mesmíssima insegurança.

Ter um diário, como é esse blog, é a melhor forma de acompanhar seu próprio desenvolvimento ao longo dos anos. Diria que 90% do que escrevi ali já não me recordo mais e estaria perdido se não fosse o blog.

Hoje me perguntaram qual foi minha melhor supresa no lado positivo e no lado negativo dessa “empreitada”. Sem pensar muito, porque se eu pensar provavelmente mudarei de idéia, a positiva é ter conseguido avançar na minha carreira de forma que não sei se teria conseguido no Brasil, visto que lá nem sempre só trabalho árduo é suficiente ( e eu não tinha parente nenhum na empresa, nem amiguinho e nunca fui muito boa com a propaganda-pessoal ). E a supresa negativa é que por estar sem família por aqui, nem empregada, nem suporte familiar, nunca tenha me animado a ter filhos, ou pelo menos um. Estivesse eu no Brasil, com minha família por perto e empregada pra dar um apoio, mesmo o marido sendo meio averso à idéia ( hoje ele é meio averso, já foi completamente averso ), teria tentado. E talvez tivesse um bacurinho bochechudo de olhinhos azuis me azucrinando hoje ( e com certeza eu acharia maravilhoso ).

Qual foi o meu maior desenvolvimento pessoal? Foi ter dado o primeiro passo na auto-aceitação, foi começar a me perdoar por esse pecado inominável que é ser gorda. A distância da minha mãe ajudou ( e tem ajudado ) imensamente. Semana passada conversei com a minha cunhada, que também é gordinha ( mas inteirona pra quem teve 4 filhos!! ) e agora é ela que convive com as agruras de ter uma pessoa que odeia gordos por perto. Muito obrigada meu Deus, por esse bálsamo aliviante que se chama oceano atlântico entre nós!

O que me falta? Perder sete quilos e comprar um chiuaua. Daí, tô feliz. Mesmo.

Apertadíssima de costura

Dia 21 vai fazer um ano que eu baixei no hospital com o problema de ferro. Usei essa data também para marcar a última gripe que eu tive, que foi um pouco antes. Depois do tratamento nunca mais tive uma gripe. Aleluia. Em compensação, tenho dores de cabeça de arrasar quarteirão. Esse fim de semana, começando já na sexta, sobrevivi a paracetamol, que é, para mim, o melhor remédio para dor de cabeça.

Stress? Sim! Hoje foi difícil levantar da cama. Tenho hoje, na agenda, 11 reuniões de uma hora, como pode? Cancelei várias, e estou agora sentada numa reunião cujos participantes estão atrasados no trânsito porque tombou um caminhão aqui perto.

Estou aqui nagging, nagging, nagging, burrice minha, Adriana, o que é que você vai fazer pra solucionar o problema? Trabalharei todos os dias até as 17:45, nem um minuto a mais. Sexta vou tirar o dia livre e vou ao Efteling. Conseguirei sobreviver até a páscoa, quando terei um final de semana extra-longo.

Sobreviverei, e esse é o problema, estou cansada de sobreviver.

Chega de reclamar!

Antes de dar um câmbio desligo, vou dizer, sei lá se o tal criador do Facebook falou mesmo o que apareceu nos jornais dos brasileiros, mas a brasileirada tá fazendo do Face uma merda mesmo.

Eu não “amigo” ninguém que eu não conheça, e mesmo assim, estava recebendo vários anúncios de “comes e bebes” todos os dias no meu wall. Era carne, era salgadinho, eram pratos brasileiros, convite pra show de forró... So sorry, desamiguei. Acho válido a pessoa fazer um mailing list com direito a link pra sair do mailing list, mas flooding via face me irrita.

E o povo com re-flow de sites cutes? Eu amo o site de piadas 9GAG, e limito meu flood diário a 2 piadinhas, e mesmo assim na maioria dos dias, me contenho e não inundo o wall dos meus amigos. Mas o que eu recebo de re-flow de gatinhos, coelhinhos, cachorrinhos, bebezinhos, inhos inhos e mais inhos…

Preciso falar alguma coisa das mensagenzinhas de auto-ajuda? Quem precisa de auto-ajuda entra no site do Dr. Phil, néan?

Agora parece que vão liberar GIFs, deus nos ajude, aí é que eu me facebook-cídio de uma vez e volto pro Twitter. O que vai ter de gente atolando nossos walls de coisas piscantes e mexentes… Vai ser o armagedom!

Blé. Tcheu ir trabalhar que os atrasildos chegaram.

Sexta, se o universo conspirar, estarei no Efteling!

segunda-feira, março 5

Um pitaquinho

Eu não sou boa em pitaco como a Dra. Alice. Ela mesmo diz, meus posts são tão grandes que não são pitacos, são surras.

Mas aqui vai um ( uma tentativa de ) pitaco.

Você criatura, que achou o príncipe encantado, mora na sua casinha branca de varanda, tem seu filhinho ( a ), você não acha que você deveria estar andando aos pulinhos de felicidade pela rua? Eu acho!

Tá mais difícil do que nunca quem queira um parceiro, aqueles que querem acham difícil encontrar, quem encontra pasta pra chegar na casinha branca de varanda, e quem tem tudo isso às vezes ainda esbarra na dificuldade de querer ter um filho e não poder. Você tem tudo, caramba!!! Então porque é que você, que tem tudo, que devia estar dando pulinhos de felicidade, deixa coisas pequenas, como um comentário, uma opinião, um “escrito” te aborrecer?

E depois desse mísero pitaco, sigamos com a programação normal.

Amanhã tem surra!

quinta-feira, março 1

O dinheiro traz tanta felicidade!

Parece que é bonito, ou modinha, dizer que se quer uma casinha branca com varanda, que as coisas simples da vida são as mais valiosas, que dinheiro não compra felicidade. BULL-SHIT!

Felicidade? Meu carrinho, que me deixa sequinha e quentinha de manhã e de noite pra ir e vir do trabalho, pra ir no mercado, no friozão de -14C. Custou dinheiro. Custa dinheiro de seguro, de gasolina, de imposto todos os dias. Ir ver minha família no Brasil, custou ( um rio de ) dinheiro. Poder trocar o carro da minha mãe, que ela não conseguia mais dirigir porque não tinha direção hidráulica, custou dinheiro. Minha sobrinha fez 13 anos, o sonho dela era ter uma necesssaire cheia de maquiagens, eu me diverti horrores escolhendo maquiagem pra ela, de todas as marcas, de todas as cores, desde gloss até foundation, mas custou vááários dinheiros. Comprar meus vegetaizinhos picados e lavados custa dinheiro. O termostato programável custou dinheiro e ele ligar as 5 da tarde pra aquecer a casa e estar a 20 graus quando eu chego custa dinheiro. O pacote de TV a cabo extra que eu quero custa dinheiro. Meu gatinho paciente renal custa muito dinheiro. O cineminha com pipoca da semana passada me custou um dinheirão ( 21 euros, pode? ).

Eu poderia me locomover de bicicleta. Eu poderia ir ao Brasil a cada 5 anos. Eu poderia falar pra minha mãe andar de ônibus. Eu poderia falar pra sobrinha que ela é linda e não precisa de maquiagem. Eu poderia comprar os vegetaizinhos na feira aos sábados e passar horas lavando, picando, blanqueado e guardando. Poderia também usar um moletonzão bem grosso em casa e não preciso nem mencionar que poderia também viver sem HBO e FOX. Não, não poderia deixar meu gatinho morrer, pensar em não tratá-lo é inconcebível. E poderia deixar de ir ao cinema, ou ir na matinê e pular a pipoca. Eu iria morrer? NÃO. Eu iria ser feliz? NÃO. Logo, dinheiro compra sim felicidade.

E pra bancar tudo isso, amigas, ralo tudo o que ralo. Não é porque o trabalho enobrece, não é porque eu me sinto um ser humano útil. Não é porque “ser chefe” faz bem pro ego. O motivo é simples e fácil de entender: é pela grana, pelo geld, pelo tutu, pelo catchin, pelo money. Dinheiro esse que é MEU, não é do marido, não é do meu pai, não é emprestado. Se eu tivesse nascido riquíssima, não trabalharia. Iria cuidar de animaizinhos largados pelas ruas, ia abrir uma ONG, ia fazer o que gosto sem pensar que preciso ganhar tutu.

Não me digam que tive sorte, isso me emputece muito. Não nego que ela deu sim uma ajudinha, de eu estar no lugar certo na hora certa, de eu ter falado com a pessoa certa quando precisava, de uma amiga ter me dado um empurrãozinho pra preencher um formulário fatídico… Acho que são sim ajudinhas de uma força maior, e sou grata a essas ajudinhas. Mas… puta merda, se 10% foi sorte, 90% foi muita barriga ralada no tanque, aulas de inglês enquanto meus amiguinhos de escola jogavam Atari, muito trabalho de faculdade aos fins de semana, muita hora extra na empresona brasileira, mil entrevistas de trem no frio aqui na Holanda pra conseguir o primeiro emprego, muitas mais horas extras pra conseguir meu holeritezinho todo mês.

Eu, que já disse aqui que tenho sérios problemas de auto-estima, tenho que me dar um tapinha nas costas: eu mereço meu meu carrinho e meus vegetaizinhos lavados e picados do Albert Heijn.

E você colega leitora ( ou colega leitor ), já se deu um tapinha nas costas hoje? Já se disse “well done”? Não? Faça-o djá.

E rumbora trabalhar que faltam 76 dias pras próximas férias. Que custou din-din, aliás. 

sexta-feira, fevereiro 24

Que triste!

Na semana passada o príncipe Friso, segundo filho da Rainha Beatrix, sofreu um acidente de esqui.

Ele estava na Austria, e apesar do aviso de risco de avalanche 4 ( vai até 5 ), ele, um experiente esquiador que conhece bem a área, decidiu arriscar. Ele foi soterrado por uma avalanche, ficou 50 minutos sem batimentos cardíacos, foi ressucitado e levado a um hospital da área. Já era sabido que o dano cerebral era extenso, mas não se sabia, até ontem, quão extenso.

Hoje os jornais noticiam que o príncipe continua em coma e um recente MRI mostra que o dano cerebral é pior que o que se esperava, ninguém sabe afirmar se ele sairá do coma e em caso positivo, em que condições.

Eu não esperava que os holandeses, sempre tão críticos da família real, sempre tão críticos com os imprudentes que mesmo com aviso grau 4 se arriscam na “piste” fossem estar tão chateados com a notícia de hoje nos jornais. Um dos senhores que trabalha comigo disse que é muito triste passar pela alegria do nascimento de um membro da família real e ver também, o que parece ser o encaminhar da história, a morte prematura do mesmo.

Eu, sinceramente, me condoo com a rainha, que deve estar com vontade de se arrastar pelo chão chorando ramelenta e descabelada, mas tem que passar por tudo isso em cima do salto e com o cabelo propriamente cheio de laquê.

O país está triste, e nossas preces estão com o príncipe Friso e a família.

quarta-feira, fevereiro 22

Procurando um emprego aqui e acolá

Deixa eu começar dizendo que eu acho processo de seleção pra empregos uma coisa muito, muito bizarra.

No Brasil, minha experiência em entrevistas é curtíssima. Antes de entrar na GM eu fui estagiária, vi o anúncio na faculdade, preenchi uma ficha, eles queriam alguém que falasse inglês, ficou entre eu e outra menina, eu levei a vaga.

Para entrar na GM foi um drama.

Aqui começa uma histórinha que, se você estiver sem tempo ou sem paciência, pode pular lá pra baixo, onde eu aviso que é o fim da estorinha.

Entrei também como estagiária, e naquela época era raro alguém entrar de outra maneira. Haviam 120 vagas, uma metade qualquer aluno de administração podia se candidatar, o resto era vaga técnica. Naquele ano a GM teve 3000 CV’s. Para dar a primeira peneirada, eles aplicaram um teste de lógica com 36 questões, a nota de corte foi 34, chamaram os primeiros 600 candidatos.

*** Historinha parte 1: eu nunca tinha pensado em fazer estágio na GM, mas o pai de uma amigona era diretor lá e ela estava alucinada pra fazer estágio lá. No dia que abriram as inscrições caiu a maior chuva do universo, e ela estava sem carro, então me pediu se dava pra eu dar uma carona pra ela e a gente pegava um cinema depois, pra não ter que esperar na chuva ou dentro do carro, eu entrei no RH com ela, e aí, porque não preencher uma ficha também? E ambas fomos chamadas pro tal teste lógico ( todo mundo foi ), eu passei e ela não. ***

Esses primeiros candidatos assistiram palestras de vários departamentos, eu escolhi fazer entrevista em importação e exportação. Ficaram de me dar a resposta 2 semanas depois da entrevista, passou-se um mês e nada. Eu desanimei, fiquei chateada a essa altura tinha ficado animada com a perspectiva de estagiar no departamento de importação de uma empresona tão grande – e depois de exatos 2 meses, me ligaram pra dizer que a vaga era minha.

*** Histórinha parte 2: quando me ligaram pra dizer que eu passei no teste lógico e estava convidada pras palestras, liguei direto pra amigona pra combinarmos a carona ( e a roupa, e o cabelo, e a maquiagem ), mas ela ainda não havia sido contactada. Amigona, meu nome começa com A, o seu com P, ainda hoje te ligam. Não ligaram e nossa amizade de anos, de viajar junto e tudo acabou ali. Quando me ofereceram a vaga, depois das entrevistas e longa espera, encontrei a amigona numa festa da turminha, meio acanhada contei que ía estagiar na importação, e ela, toda sorridente, me disse que ía estagiar em compras. Como, se você não assistiu nenhuma palestra, não foi a nenhuma entrevista? Ah, meu pai escreveu um memo pro RH dizendo que achou o processo falho e eles abriram uma exceção pra mim, que fiz então entrevista em compras e fui aceita. #issoehBrasil “

Fiz o estágio por 11 meses, e a empresa que sempre contratava todos os estagiários ao fim do programa, informou que naquele ano não íam contratar ninguém, íam na verdade mandar gente embora. Fiquei arrasada, chorei, e agora meu pai? Me ofereceram um contrato de terceirizada, mas tinha uma cláusula que impedia que no futuro eu fosse contratada pela GM, então eu estava chateadésima e em dúvida se ía aceitar. Na última semana apareceu uma vaga em outro departamento, eu fiz entrevista, novamente o inglês me salvou, no último dia de estágio, fui contratada como “efetiva”. Aleluia, chorei que nem criança.

*** Histórinha parte 3:  a essa altura, amigona não era mais amigona, ela me evitava tanto que eu captei a mensagem e parei de procurá-la. No primeiro dia como efetiva, dei de cara com quem na hora do almoço? A amigona. Beijinhos e sorrisos, ela não tinha sido efetivada no departamento de compras, mas uma “oportunidade de última hora” apareceu numa empresa filha da GM e ela foi contratada. O que me chateou foi que quando eu contei pra ela da minha vaga, ela ficou azul de raiva porque o a área em que ela estagiou era diretamente ligada à vaga para a qual eu fui contratada, e ela não só não foi convidada a participar do processo de seleção, como nem sabia que a vaga estava aberta. Para meu espanto, ela foi até o meu supervisor “tirar satisfação” – discreta e educadamente, porque ela era muito discreta e super educada. ***

Fim da estorinha

Quando mudei aqui pra Holanda, participei do processo de seleção para mais de 15 vagas, a maioria com 3 rounds de entrevista. Tudo muito bizarro. Hoje, quase 10 anos depois, entendo algumas das bizarrices eu era ( ou ainda sou ) a imigrante bizarra, que precisa se adaptar, que precisa aprender o idioma – outras eu não entendo e não faço mais questão.

Aqui, você manda um CV, se te chamam normalmente você faz 3 rounds de entrevistas até te darem uma “proposta” ou um sinto muito. Quando te dão o sinto muito, eles normalmente te informam a razão. Eu achei isso uma coisa do além quando mudei pra cá, mas hoje acho ótimo, afinal você sempre é informado que está fora do processo, e se te informam o motivo, tem como se comportar diferente numa futura entrevista.

Um exemplo: fiz entrevista na Nutricia, empresa que faz a Olvarit, a maior marca de comida infantil e hospitalar da Holanda. Sem falar que fazem também o Chocomel ( humm, diliça ). A primeira e segunda entrevistas foram ótimas, o gerente que me entrevistou praticamente me deu o emprego na hora. O que eu não vi na época, mas agora entendo, é que esse gerente queria uma compradora junior / assistente, e eu queria a vaga de compradora ou compradora senior. A terceira entrevista foi com dois diretorezões, fizeram vários testezinhos do além, perguntinha capisciosa de laguinho que se multiplica todos os dias, padre e canibal, mas a porca torceu mesmo o rabo quando um lá me perguntou se eu sabia quem era Alan Greenspan. Não eu não sabia. Vergonha, eu sei, mas eu não sabia. Aprendi, meio tarde, mas fazer o quê? Na cartinha de rejeição, o motivo indicado é que eu não era “sofisticada” o suficiente para lidar com aquela vaga, se eu estivesse interessada eu poderia continuar no processo de seleção para assistente / junior. A vaga pagava pouco, era em Amsterdam Zuid, eu decidi não continuar.

Quer mais bizarrice? Os tais assessments. Já pegou essa moda aí no Brasil? Então, eu fiz os 3 rounds de entrevistas na DSM, passei em todos. O último diretorzão disse que por procedimento tinham que me mandar pro tal assessment, que era pra ter sido antes das entrevistas, mas teve um desencontro de agendas. Fiz o tal assessment. É um tal de teatrinho, de case study, de mais pegadinha de laguinho-padre-canibal, conversinha com psicólogo, um dia desperdiçado. O resultado: não me indicavam pra compras, mas sim para vendas. WTF? Eu não consigo vender perna de pau pra perneta! E eu fiquei chateadésima, claro, e por cima ficou o tal RH me ligando pra eu ir pra entrevista do departamento de vendas, e eu desesperada pra conseguir um emprego, mas 100% certa de que eu seria incapaz de trabalhar naquele departamento, o que o RH não entendia era porque se o almighty assessment dizia que eu era perfeita pra vendas, como poderia eu discordar??

Há algumas semanas recebi um e-mail de uma vaga numa empresona em Nijmegen. A vaga é super legal, mas eu não estou interessada em mudar de empresa, e pra falar a verdade, dirigir mais de uma hora pra ir e outra pra voltar, não rola. Mas meu colega gerente mora a 8 km da planta, e ele está querendo sair daqui, então repassei a vaga pra ele. Ele mandou um CV e segunda recebeu a cartinha que está fora do processo. Ele ligou lá pra saber o porque!!! Eu fiquei de cara, mas parece que isso aqui na Holanda é procedimento normal. A mulher do RH disse que não vão mudar de idéia, mas que ela aceita ter uma conversa telefônica com ele pra um feedback, ou seja, a mulher vai explicar tin-tin por tin-tin, o porquê de ele não ir nem pra primeira rodada. Agora digam aí, qual a reação no Brasil, onde nem te dão o feedback que você está fora, se o candidato liga e pede pro cara explicar porque o CV dele não é bom o suficiente?