segunda-feira, novembro 19

Quando chegar a hora

Aqui na Holanda a eutanásia em humanos – é permitida.

Nunca havia pensado no assunto até mudar pra cá, e pra ser sincera, até meu marido perguntar: o que você quer? Nós dois queremos ser mantidos com suporte até o fim, até não haver 0.0001% de chance de recuperação. Sempre acreditei que se há 0.001% de chance de recuperação, 1 em 1000 terá uma cura milagrosa, e quem diz que não pode ser eu?

Há pouco fui colocada na posição de decidir, não por um humano, mas pelo meu gato. De todo o processo, acho que essa foi a parte mais traumática.

Os exames mostravam que o rim dele não funcionava mais, nadica, nem um resquiciozinho, ou seja, ele estava se envenenando, mas até aquele momento, apesar de ter perdido muito peso, de estar lerdinho e apático, os olhinhos remelentinhos, ele ainda estava andando, estava bebendo água, indo ao banheirinho sozinho, ele dormia no tapetinho do quartinho de computador, do meu lado, ele ronronava quando eu o acariciava… como colocá-lo pra dormir?

Na minha cabeça eu pensava muito naquele livro Vidas Secas ( ódio mortal desse livro ), onde a cachorra Baleia pega raiva, o dono a mata, e o livro conta o fato sob a perspectiva da cachorra. Eu pensava, será que ele entende que eu estou tentando poupá-lo de dor e sofrimento? Será que ele já percebeu que o fim chegou?

Na dúvida, o trouxemos pra casa. O veterinário nos preparou para que não levaria uma semana, marcamos para dali a 2 dias, é terrível trazer o animalzinho pra casa sem esperança nenhuma, não tinha nenhum remedinho, nenhuma comidinha, nada que nos desse qualquer esperança.

Na manhã seguinte, minha filosofia do “manter até o fim” mudou em 10 segundos: Ty estava praticamente sem abrir os olhos, não conseguia mais engolir saliva, então estava todo babado até o peitinho, a saliva estava misturada com um pouco de comida que ele ingeriu na noite anterior, e o golpe final: enquanto eu me despedia dele ( eu já tinha percebido que era o fim ), ele tentou ir ao banheirinho e não conseguiu, fez xixi no chão. A cena foi toda muito traumática, eu sabia que era mesmo o fim, eu sabia que se antes ele estava só com um “mal estar”, agora ele estava mesmo com dor.

Aquilo foi o que eu precisei para tomar a decisão. Fomos pro vet, ele estava tão malzinho que dormiu na caixinha de transporte dentro do carro, quem tem gatos sabe que isso NUNCA acontece. Chegando no vet, ele acordou e deu dois miadões, e cortou meu coração, eu preferia que ele já tivesse inconsciente, que não visse que ele não estava dormindo coisa nenhuma, ele estava é indo morrer.

A veterinária foi muito sensível, não o examinou, era visível o estado dele. Nós acariciamos, beijamos, ele tomou a injeção pra dormir, nós continuamos acariciando até ele se enrolar e dormir. A veterinária então o esticou, mediu os batimentos, a gente viu que ele foi respirando mais devagar. O mais impressionante, e eu gostaria de ter sido preparada para isso, é que o gato fica com os olhos abertos, é estranho. Beijamos, dissemos adeus, e saímos da sala. Ele tomou então a segunda injeção.

Nunca saberei se ele, um gatinho, entendeu que esgotamos todas as possibilidades de prolongarmos a vida dele. Agora pergunto: e quando chegar a vez do marido, se é que ele vai antes de mim?

Será que conseguirei vê-lo sofrer e manter nosso acordo de “não desligar as máquinas”?

Aqui a maioria das pessoas é cremada, fui na minha primeira cremação faz um mês mais ou menos. Foi a sogra de um funcionário meu. Ela foi diagnosticada com câncer de pulmão, intratável, foi pra uma casa de “repouso assistido”, foi definhando até chegar a 32 kg para 1,62 de altura, no fim estava pouquíssima parte do tempo consciente, e quando estava consciente estava gemendo e gritando de dores, a família decidiu então pela eutanásia. Acho uma decisão acertada, mas hoje, tendo passado pela experiência com o Ty, sei que ficaria: mas e se ele ainda tiver uma horinha de lucidez sem dor, tenho o direito de roubá-lo dessa hora?

Outra coisa que eu acho fundamental é ter certeza que se tratou o paciente de todas as formas conhecidas. Ty teve comida especial, vários remédios, e mesmo assim, lendo sites dos loucos americanos que chegam até a fazer transplante, eu já tive que pegar o último exame dele várias vezes pra me lembrar que não haveria acupuntura, floral, comidinha  caseira que o salvasse do rim que resolveu parar. A pergunta: teria sido diferente se …? – se forma na cabeça, mas imediatamente eu relembro do exame e de tudo o que fizemos.

Sei que o papo tá pesado, mas a vida continua… Sexta levamos um susto com o Plato, ele já tinha emagrecido um pouquinho no ano passado ( 400 gr em 1 ano, de 9.6 kg pra 9.1 kg ), na quinta peguei o Plato no colo, o achei mais leve, pesei: 8,5 kg! Sexta liguei pro vet pra perguntar se é da nova comida diet, não podia ser, então fomos pra lá com ele. E passamos por tudo de novo, exame físico e exame de sangue. Espera agoniante. Os exames estão normais, só indicam que o Plato está envelhecendo, a creatinina um pouquinho alta, mas ainda dentro do normal. Eu odeio não achar a causa do emagrecimento, mas o vet diz que o provável é que foi o estress de perceber o irmão doente e depois a depressão. Voltarei em 3 semanas para mais um follow up, mas os exames de sangue estão super normais, não há muita razão pra se alarmar.

Mas pelo sim, pelo não, corremos resolver o negócio: reservamos uma irmãzinha pro Plato. Ela é uma british short hair lilac, lindinha, tem 8 semanas, e vem pra nossa casa dia 31 de dezembro. Estamos radiante com a nossa nova filhinha, e ainda que a saudade do Ty não passe e não diminua, temos ainda um gatinho em casa e ele precisa de companhia.

Assim que tiver um tempinho posto uma foto da fofa, que ainda não tem nome. Eu queria Lila ( ou Piper, ou Mimi ), o marido quer manter o horrível Nora que é o nome oficial do passaporte. Podem mandar sugestões, alguma idéia de nomes legais com N ou P?

8 comentários:

Adriana disse...

Nina, Penny, Piper, Pitty... achop que uma gatinha dessa raça tem nome de cléo... :)

Myrian Morejon disse...

Nadine.
.



Eu disse...

Nayla e Penelope (apelidos: Penny ou Nelly)
Aguardando pra ver o rostinho dela :)

vickie disse...

Eu a chamaria de Nefertiti (Nefe ou Titi para os intimos)mas, como diz o Old Possum's Book of Practical Cats, dar nome a gato eh bastante complexo.

The Naming of Cats

The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, or George or Bill Bailey -
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter -
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum -
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover -
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.

Holandesa disse...

Oba! Vou querer conhecer a fofa!
Sugestões de nome, que tal: Mila, Pluma, Pandora, Prada, Princess, Purple, Nikita?...

Rossana disse...

Lolita é um nome muito bonitinho para um gatinha como esta.

Marcia disse...

Você comprou uma gata? Pensei que você fosse adotar uma de uma abrigo.

gislene silva disse...

oH menina, to aki chorando horrores com sua narraçao sobre a morte de seu gatinho...pq fico pensando, tenho um yorkshire que eu trouxe do Brasil pra Bélgica em 2006 e hj está com 9 anos...nao posso imaginar minha vida sem este bichinho que é uma mega cia em minha vida !! Quando ele adoece fico quase louca....
Ao contrário de vc, ja decidi, quando ele se for, não quero mais animais de estimaçao, vc se apega demais e o sofrimento é dobrado, mas te desejo sorte e felicidade com sua nova gatinha !!

bjs