quinta-feira, janeiro 17

Analisando essa cadeia hereditária, quero me livrar dessa situação precária

Perdi meu mojo.

Estamos em meio de janeiro, as promoções para as férias de maio acabando, e o que vamos fazer? Não sei.

Queria um hotel all-inclusive fantástico, numa praia linda e não muito lotada, a menos de 3 horas de avião, custando menos de €1500 por pessoa por 2 semanas. A resposta certinha pro meu dilema é a Turquia, mas o marido quer ouvir o Alexandre Frota cantando Festa no Apê, e não quer ouvir de ir pra Turquia.

A gente é cobrado tanto de ser politicamente correta, e de não ter preconceitos, e os holandeses se acham tão "tolerantes", até você falar de turquia e dos turcos. E vou extender: de pobre. Se for turco pobre, valha-me deus.

Minha vizinhança é um bairro novo feito ao lado da vizinhança turca de Eindhoven. Meu bairro era uma "favela", ou o que mais se aproxima disso. A vizinhança dos turcos emendou na vizinhança das "casas sociais", que emendou nos "woonwagenkamp" aqueles parques de trailers. Há 10 anos decidiu-se "limpar" o bairro, "Eindhoven sem gueto", diziam. Os trailers foram todos removidos. Aqui tem umas casas-trailers, na verdade umas casas pré-fabricadas, que nem são feias, mas holandês odeia ( e com certa razão, elas não pagam impostos ), foram também removidas, apenas uma ruelinha com as mais novas obteve permissão pra ficar. As casas sociais foram vendidas e os moradores realocados.

Pausa para Explicação:

Aqui na Holanda, toda prefeitura é dona de umas casas que eles alugam a preços módicos para quem precisa, a tal casa social. Eu não entendo 100% do negócio, mas você prova que tem baixa renda, entra numa fila, e quando chega sua vez pode alugar uma dessas casas. Um studio em Eindhoven custa ao redor de €800 por mês em aluguel normal, minha antiga empregada tinha uma dessas casas sociais aqui perto e pagava €280, e era uma casa muito boa. Holandeses questionam muito esse "benefício", porque deveria ser usado para dar uma ajudazinha temporária para quem cai em tempos difíceis, 1 ou 2 anos, mas o que se observa é que muita gente, principalmente profissionais liberais, ganham no papel pouco, recebem "no black", e acabam vivendo nessas casas a vida inteira. Eu, pra ser sincera, não sei o que pensar, imagino minha antiga empregada, com salário de 1200 euros, como pagar um aluguel tão caro? Mas ela mesmo, por fora, tirava uma boa grana no preto fazendo faxinas, oficialmente não se qualificaria pra tal casa. E aquele que ganha 1200 euros por mês, tendo uma casa boa por 280 euros, tem muito incentivo pra se esforçar e melhorar de vida? E melhorar de vida é só uma questão de esforço? Então… não sei.

Voltando ao assunto

Quando compramos a nossa casa, mostraram todo o plano de revitalização da área, muita gente tinha um preconceito enorme com aquela região, então a prefeitura deu garantias de que o bairro ficaria lindinho, como no papel. Um fator que influencia muito no preço da sua casa é se sua vizinhaça tem casas alugadas, ninguém quer morar perto de casas alugadas, e nos foi prometido que o bairro seria inteiro de "casas próprias".

Por enquanto, tudo que prometeram, cumpriram, mas é difícil vencer os preconceitos holandeses. Por exemplo, a escola do bairro era considerada uma "escola preta", até o termo é feio. Quer dizer que tem muitos estrangeiros ou decendentes de ( leia-se: turcos, marroquinos, antilhanos; porque para os outros estrangeiros, o termo é "escola internacional" ), então demoliram a escola velha e construiram uma escola nova, linda, modernésima, a idéia era transformar em "escola cinza", ou seja, com uma proporção melhor de "pretos" e holandeses. Só que os moradores do meu bairro ( a parte nova ) se recusam a trazer seus filhos pra essa escola e misturá-los, então pegam seus carros de manhã e vão pros cafundós onde moravam trazer os filhos pra escola. Até a creche, linda, da rede KoreinPlein ( a principal de Eindhoven ) está vazia ( já ouviram falar de creche vazia na Holanda? ), porque o povo não quer misturar nem os bebês.

Na "ponta" do bairro fica o asilo de animais. Como já disse aqui, me surpreendeu a baixa quantidade de animais ali, a maioria fica em casa de voluntários, então o asilo não é muito grande, não tem cheiro nenhum, mas eventualmente, tem uns latidos. Passo sempre por ali quando vou fazer caminhada, nunca ouço um pio. O plano era mover o asilo e construir casas ao redor, mas muita gente protestou contra mover o asilo, afinal ele fica no meio da cidade e é fácil pra qualquer um que quer um animalzinho chegar ali, até de ônibus, pra adotar; se fosse transferido pra Coxipó da Ponte, muita gente não ía nem ter como ir pra lá. O resultado é que o asilo fica, e a construtora diz que, especialmente nessa crise, não conseguirá vender casas ali. A proposta da prefeitura é construir então, casas sociais. Gente, nunca vi tamanho furor nos vizinhos. Mais do que rápido se organizou uma comissão de moradores, se contratou um advogado, contactou-se o jornal local. Meus vizinhos holandeses tolerantes toleram tudo, menos pobre ali do lado deles! O interessante é que o manifesto para pedir uma pracinha pras crianças teve uns 30 colaboradores, esse do movimento "anti-pobre" tem mais de 200!

Eu gostaria de dizer que pouco me importo, mas estaria mentindo. O pessoal das casas pré-fabricadas frequenta o mercado local, e são ultra estranhos, ontem tinha um obviamente "under influence" e tiveram que chamar um segurança; e no verão, dão festas de rua com o som nas últimas, sempre tem um vizinho chamando a polícia. Mas o principal é que se isso acontecer, o preço da nossa casa vai cair ainda mais. Com a crise, meu bairro inteiro está pagando por casas que hoje valem 100 mil a menos que valiam quando compramos, e agora com mais essa…

Não sei no que vai dar, nem o drama da vizinhança, nem meu dilema de férias. Em breve, cenas do próximo capítulo. ( gente, acabaram com as cenas do próximo capítulo nas novelas, né? )

9 comentários:

Holandesa disse...

sobre férias: tenta Madeira. Conheça a ilha e depois vá para Porto Santo curtir as praias...

(ou então, ilhas canarias? Tudo bem que é uma hora a mais do que vc procura, mas é melhor do que nada, não é mesmo?)

Holandesa disse...

Dica: dá uma olhada 'Estalagem Albatroz' ou o Choupana Hills em Madeira. Foi nesse último que eu passei a minha lua-de-mel. Maravilhoso!!!!

Marina Wildhagen disse...

Meus sogros vão todos os anos para a Turquia. Sempre nos disseram que nunca viram lá nada comparado com os Turcos que aqui estão, muito pelo contrário. Eles sempre nos disseram que os turcos que vivem na Holanda são os que viviam no campo ou eram pobres e vieram tentar uma vida melhor. Uma dica de destino legal seria Dubai. Tem tanta coisa legal para se fazer lá e mesmo que não haja hotéis all inclusive, se você reservar com antecedência consegue ficar em hotéis ótimos na praia mais famosa Jumeirah. Dá uma olhada no post da Dri Everywhere sobre Dubai. Fica tb um pouquinho mais longe mas acho que vocês iriam adorar.

pacamanca disse...

Puxa, eu adorei Istambul. Embora atualmente eu não esteja disposta a deixar UM CENTAVO que seja em países islâmicos; esse bando de fanáticos já encheu os meus colhões há tempos e me recuso a gastar minha grana em países que tratam a mulher como mercadoria.

Marcia disse...

Pois é, por isso refuto aquele texto sobre a Holanda que andou circulando estes dias na net. Então não existe desigualdade na Holanda, né? Rá! E quero conhecer a Turquia. Como a Marina disse, uma coisa são os que imigraram, outra é turismo. Moro em Berlim, onde há muitos turcos, e convivo com eles numa boa, a não ser quando estou andando de bicicleta, porque esse povo dirige mal pacas e preciso me proteger deles sempre.

Alice disse...

Voltei para o centro da cidade e RTDM tem o maior número de imigrantes do país. Meu filho sempre estudou em escolas mistas (as ditas cinzas) e o ginásio dele é o com maior número de estrangeiros ( nascidos fora do país ou 1a geração)da Holanda. Marido kaaskop tolera (e até aprecia!) essa mistureba. Eu adoro! Amo a rua bazar turco/marroquino aqui do lado de casa, me lembra a Nieuwe Binnenweg, onde eu morei logo que eu imigrei. Somos integrantes desse grupo.

Eliecy disse...

Falei de um texto sobre escolas ditas "negras" para minha sogradrasta, pedagoga, e ela jurou que peloamordeDeus isso jamais existiria na Holanda, que a Holanda é tolerante e coisa e tal. Falei dos meus filhos, ela disse que eram holandeses também. pois bem, já tava ficando nervosa, porque eles não admitem desigualdades ou tratamentos desiguais. Mas, creio que tudo gera muito em torno de "intolerâncias" e respeito as diferenças. Provavelmente, a história do desenvolvimento holandês explique essa e tratamento em relação aos marroquinos e turcos. No entanto, se estivesse morando por aí, gostaria que meus filhos fossem criados olhando os demais como pessoas, sem estereótipos. "Se nós podemos ensinar nossas crianças a amar, porque vamos ensinar a odiar". Contudo, sei que os holandeses(muitos) tem essa percepção.

Marcia disse...

Exato, até estes termos " escolas pretas/cinzas" já me dão arrepios. Então, eu não queria lembrar de que idioma a palavra apartheid veio, mas é difícil lendo esas coisas :(

Luis Gama disse...

A letra correta da música é "analisando essa cadeira, ela é de praia" :)