segunda-feira, outubro 29

Empregadas "do lar"

No Facebook está rolando um post de um blogueiro paulista, reclamando dos imóveis brasileiros que tem o “quarto da empregada”, e achando ainda pior que o tal modelo esteja sendo aparentemente exportado pra outros países.

Agora pergunto: porque é que ultimamente virou modinha no Brasil criticar o hábito brasileiro de ter empregada doméstica? Com tanta coisa que precisa melhorar no país, será que não estamos perdendo tempo levantando bandeira errada? Porque é que se acha errado ou politicamente incorreto ter-se uma empregada doméstica? Que bonde brasileiro foi que eu perdi? Porque é que se critica tanto quem tenha empregada registrada, com boas condições de trabalho, com salário decente? Vi uma crítica burra à babá da apresentadora Adriana Lima e fiquei chocada com a hipocrisia do brasileiro!

Eu ainda morava no Brasil quando começaram as pressões para os empregadores registrarem as empregadas. Meu pai, que se péla de medo “das autoridades”, mais que rápido registrou a Janilda. Ela teve a carteira registrada pela primeira vez pela gente! Detalhe: já estava beirando os 40, com 3 filhos. Achei tudo muito certo, minha mãe precisava de uma empregada, ofereceu o quanto podia pagar;  a Janilda não tinha qualificação outra, precisava trabalhar, o salário era aceitável, ela firmou conosco um contrato de trabalho. Ela tinha horário fixo, folgas, férias e décimo terceiro. É errado? E se ela tivesse limpando escritório, será que todo mundo seria menos negativo e crítico?

Se eu tiver que levantar alguma bandeira pra ajudar as empregadas domésticas, levanto então a bandeira de que o governo tem que prover ensino básico e ensino profissionalizante para quem não queira passar anos num banco de universidade ( não vou nem aqui tocar no assunto de que tem que dar condições de cursar uma universidade pros que queiram ). Talvez a Janilda tivesse sido uma ótima manicure, ou uma higienista bucal ( a mulher que suga cuspe do lado do dentista ), ou uma jardineira… talvez com algum treino, dentro das possibilidades e aptidões dela, ela tivesse escolhido outra profissão, mas paupérrima, sem nem ter terminado a 4a. série do ensino básico, quais eram as opções dela? Diria eu que, aleluia que está aí a classe média pra ajudar, já que o governo falhou.

Eu não lembro da minha infância sem a Lia. Eu era ainda bebê quando a empregada da vizinha veio perguntar se minha mãe não precisava “de alguém pra ajudar”. A família ( adivinhem? Paupérrima ) não podia sustentar os 11 filhos, assim, quando íam fazendo 14, 15 anos, os pais esperavam que eles fossem “se arranjando”, eram de Assis, queriam que a irmã arrumasse algo pra menor “na Capital”. O arranjo era simples, minha mãe dava um salário, ela morava com a gente. De noite, ela ía pra escola – por exigência do meu pai, os pais dela não queriam. Quando eu era maiorzinha eu lembrava de ir chamar a Lia pra brincar e minha mãe dizer: deixa ela terminar a lição dela. Mais tarde, sentávamos juntas na mesa da cozinha pra fazer lição, mas a Lia já estava “no colegial”. Nossa primeira casa não tinha quarto de empregada, então eu e meu irmão dormíamos juntos e a Lia tinha o terceiro quarto da casa. Ela almoçava e jantava na mesa com a gente, se passeávamos, a Lia passeava. Tínhamos casa na praia, e a Lia sempre ía com a gente, e quando a minha prima da idade da Lia – ía, as duas íam paquerar os moçoilos juntas no parquinho da cidade. Mais tarde veio o Sérgio, o namorado da Lia, ele namorava a Lia no quintal e assistia TV na sala quando o tempo estava frio ou chuvoso.

A Lia terminou o colegial e foi trabalhar numa fábrica de roupas, chorei muito de saudades dela. Ela vinha nos visitar, com o passar do tempo menos e menos, até que perdemos contato.

Tenho certeza que se alguém perguntar hoje pra Lia, e pra tantas outras Lias, o que elas pensam hoje da situação toda, tenho certeza que claro, elas prefeririam ter nascido num país onde qualquer criança tem direito à escola, e os pais recebam ajuda financeira para que os filhos fiquem na escola, ou que os pais nem precisem de ajuda financeira porque tem uma renda famíliar decente; mas que dada a situação, não se sentem menores ou infelizes por terem sido ( ou ainda serem ) empregadas domésticas.

4 comentários:

Denise Fernandes disse...

Adriana, é por isso que você mora na Holanda, tem uma mentalidade totalmente diferente dos brasileiros que acham que empregada, deve comer o que sobra da comida, sentada na cozinha sozinha e totalmente separada do resto da familia... Isso é Brasil!!!

Daniela Pedrinha disse...

Concordo com a Denise... ótimo post Dri, adoro o jeito como vc pensa. Bjs

LunaG disse...

Bom,a o que eu mesma critico e muita gente também eu acho,não é a existência da empregada doméstica de carteira assinada,jornada semanal fixa e ao menos 4 folgas por semana,e sim as pessoas que querem empregada que durma no serviço para estar de plantão 24 horas por dia,tendo folga de 15 em 15 dias (e isso não sou eu inventando,já li isso em anúncio de jornal),babá que dorme no quartinho do bebê para acordar se ele chorar de noite e no outro dia de manhã precisa estar lá trabalhando de novo,e mais outros trocentos absurdos que axistem e muito.

Lucian Souza disse...

Oi! Gosto muito do seu ponto de vista, principalmente no exposto nesse post e no post Made in Brasil com S.