sexta-feira, janeiro 30

Antes ele do que eu

É feio, muito feio, pensar "antes ele do que eu"?

Pergunto porque eu penso, penso muito "antes ele do que eu".

O fornecedor Bocarra, quando conversamos a primeira vez sobre o cancelamento do projeto, me disse que ele vai perder o emprego. E eu, que tinha acabado de ouvir que eu ía ganhar uma nova commodity, pensei: "antes ele do que eu".

Vou contar pra vocês o maior "antes ele do que eu" da minha vida profissional.

Eu tinha acabado de ser efetivada na GM. Tinha 21 anos, crua de tudo, acabando de sair da faculdade. Meu trabalho consistia em analisar demandas de peças usadas em concessionárias, e baseado nisso programar novas compras. Eu emitia um pedido com várias peças, e mandava para Compras.

No meu segundo mês lá, recebemos uma comunicação de que o nosso fornecedor de transmissões automáticas ía deixar de fabricar determinado modelo que era usado no Monza, então pedi 20 daquelas transmissões como corrida final, último pedido para ficar em estoque.

Passaram-se 6 meses e um dia, me ligam do armazém: quem foi o louco que pediu 300 transmissões automáticas? Elas chegaram e nós não temos demanda, nem lugar para guardá-las. Era o gerente geral do armazém e ele estava furioso. E eu tinha só 21 anos, e estava crua de tudo. Disse que ía verificar o ocorrido e fui ver minha papelada tremendo.

Naquela época tudo era feito manualmente, inclusive os pedidos. Eu só pensava, meu deus, e se eu tiver digitado 200 ao invés de 20? Mas haviam 300 transmissões... Quando eu vi o pedido, eu pedi 20 transmissões e 300 bujões, uma pecinha do tamanho de porca grande, mas a compradora, que era uma doida, trocou as linhas. Gente, que alívio. Que alívio imenso, a burrada não era minha!

Fui correndo ao departamento de compras, e nossa, o pânico instalado, a coitada da compradora foi massacrada, e se fosse o primeiro engano, nada teria acontecido, mas aquele era mais um duma série. Ela não foi mandada embora porque era muito amiga dum gerentão, mas foi transferida pra um departamento meio obscuro, e eu só pensava: antes ela do que eu.

Aqui na empresa, já anunciaram que estão negociando com o governo um "pacote social". Ele deve atingir primeiro os mais velhos. Vou explicar o que entendi.

Aqui na Holanda aposenta-se aos 65 anos. Nessa idade você começa a receber 1 salário mínimo do governo, que hoje gira em torno de € 1300 euros. Desde o seu primeiro emprego, você tem a opção de pagar o PensionFonds, que é um plano de aposentadoria complementar, que garantirá que você, ao se aposentar, receba até o fim da vida uma aposentadoria de cerca de 75% do seu último salário. Há ainda a opção de pagar um pouco a mais e aposentar-se aos 62 anos.

Com esse "plano social", resolvem "aposentar" quem tem 55 anos ( por exemplo ) pra cima, o governo começa a pagar a aposentadoria, e a empresa complementa com um tanto.

O problema, segundo me dizem, é que muitas vezes esse complemento é baixo, ou é mal calculado e não cobre todo o período até o funcionário começar a receber a aposentadoria normal. E o meu colega belga, por exemplo, tem 55 anos e tem uma filha de 16, que ainda estuda, ainda vai pra faculdade, e depende da ajuda do pai, a hipoteca dele ainda não está paga, ou seja, fica difílcil balançar as contas.

Claro que eu não desejo que meu colega seja incluído nesse plano, acho que tem muito colega beirando os 60, com gordos salários para "ser aposentado" antes dele, mas lá no fundo, a vozinha, que eu odeio, diz: "antes ele do que eu".

E durante toda essa crise, o "antes eles do que eu" fica ecoando na minha cabeça, porque numa crise, os últimos a arranjarem novos empregos são os imigrantes, vide minha saga de 2003, uma crise com 10% da gravidade dessa. A própria Holandesa contou o caso do Mexicano que era candidato pra uma vaga na antiga empresa dela.

Até quando penso que eu e Bart corremos risco, eu penso: antes ele do que eu. Ganhamos exatamente a mesma coisa, então financeiramente tanto faz, mas ele consegue outro emprego muito mais fácil do que eu, afinal ele está a 10 anos na mesma empresa, que é famosa e reconhecida no país todo, ele tem grau post-master, ele é holandês da gema.

É triste pensar assim, e eu me sinto pobrezinha de espírito, egoísta, uma xulé. Torço mesmo pra que nem "eles" nem eu sejamos decapitados profissionalmente, mas se a guilhotina é inevitável, antes eles do que eu.

5 comentários:

Andrea disse...

Acho que isso e um sentimento humano. Na hora do aperto, todo mundo se sente assim. Nao se incrimine!

Eliana disse...

É o simples instinto da sobrevivência!

Dani dutch disse...

Olá Adriana, leio seu blog desde quando ainda morava no Brasil ... estou aqui na Holanda faz 6 meses dia 03/02... e estou engatinando aqui na Holanda ainda... tirando carteira de motorista... começo a estudar holandês na terça-feira, cheguei aqui com um inglês que nem eu mesma me entendia ... rsrsr
E como disse as meninas anteriormente é um sentimento humano mesmo, ainda mais pra nós, que somos de outro país .... e realmente seremos os últimos a voltar ao mercado de trabalho como vc citou .. e eu concordo antes eles........!!!!!

Jaboticaba Preta disse...

Onde trabalho já começaram os cortes. Nada oficial, mas já percebemos contratos, incluindo de pessoas que jamais imaginávamos,que não são renovados, estagiários mandados embora...

O jeito é manter a fé de que a tempestade há de passar!

Um abraço.

freefun0616 disse...

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