segunda-feira, outubro 18

ET Phoned home


Quando você imigra, sendo uma pessoa espertinha ( que eu sou ), você já se prepara pra ter que se adaptar a certos costumes locais, se prepara para aprender a operar numa nova cultura, mesmo que você não concorde 100% com ela.

Aqui na Holanda, uma das coisas mais difíceis de se acostumar é com a forma direta do povo, especialmente no trabalho. Quem é sensível quebra, juro. No começo é chocante, com o passar do tempo você se acostuma, e passa até a apreciar ( eu pelo menos aprecio muito ), apesar de achar que certas coisas podiam ser "suavizadas ( com s? ) " ou simplesmente omitidas. Você chega de manhã com um corte e cor diferentes no cabelo, se o neguinho achou feio ele vai dizer: do outro jeito tava melhor. Aí eu penso, já cortei e não vou usar peruca, já pintei e não vou usar peruca ( e nem pintar de novo ), e aliás, quem perguntou?

Aí você muda também ou vai ser sempre o pateta, dando voltas no assunto pra chegar ao ponto, ou sempre usando eufemismos… não, não rola. E daí você é objetivos 335 dias por ano, e nos 30 dias que você liga pro Brasil pra falar com os familiares, você tem que respirar fundo e baixar a bola, e munir-se de todo aquele repertório de desculpinhas esfarrapadas, de eufemismos, de enrolações. Pelo menos eu tenho que fazer isso, porque lá no Brasil meu pai já decretou que depois que eu mudei pra cá eu virei a pessoa mais "rude" que ele conhece.

Aí Adriana liga pro Brasil primeiro pra cunhada, que me dá o report de como minha mãe está. Aí minha cunhada pensa, "adianta eu falar dos problemas se ela tá lá longe e pouco pode fazer?", então ela fala que tá tudo bem, que minha mãe tá bem, que tudo está sobre controle. E eu noto que o diálogo está meio superficial, mas de nada adianta, eu não consigo tirar muito dela.

Aí eu ligo pra minha mãe e tudo está muito diferente do que minha cunhada disse, mas minha mãe fica rodeando também, de forma que eu não faço a mínima idéia de como resolver as pendengas de lá.

Aí o inteligente pensa: se o povo não se dá ao trabalho de explicar a situação, deixa pra lá que eles se viram. Mas aí é que tá, não se viram, porque no fim a bomba estoura e estoura também pro meu lado, mas chega de um jeito que eu não tenho mais o que fazer.

Exemplos?

Minha mãe nunca me consultou sobre parar de pagar o plano de saúde, eu só fiquei sabendo que ela me contou que tinha que fazer uma cirurgia de 10 mil reais pagos por ela. Uma decisão totalmente errada, só porque um médico que ela consulta não atende pelo plano que ela tinha - agora ela tem que pagar todos os exames, consultas, internações, cirurgias, ao invés de pagar o plano e o médico uma vez a cada dois meses. Burrice, né…

Minha mãe vive de rendimentos, todo o pézinho de meia dela estava aplicado em Fundo de Renda Fixa, aí ela viu um monte de gente ganhando grana com ações e colocou metade da grana em ações. Ela nunca me falou nada, eu teria falado pra ela jamais fazer isso, dinheiro do qual a gente depende não se coloca em ações, só fiquei sabendo quando as ações desabaram e ela entrou em desespero. Aí, se ela tivesse me consultado, eu teria dito pra deixar as ações lá que podia demorar anos mas íam se recuperar, mas ela se apavorou e vendeu as ações, perdeu um dinheirão e agora, 1 ano depois, as ações já estão bem recuperadas.

E meu irmão? Ele não entende que minha mãe viveu DECADAS sem se preocupar com um tostão, nunca teve que fazer planejamento financeiro, que ela não entende nada de nada de finanças, que ele tem que ficar em cima e tomar as decisões por ela. Ele vê meu pai cuidar das finanças dele e acha que minha mãe está ( ou deveria ) estar fazendo o mesmo, mas não passa na cabeça dele que minha mãe simplesmente não sabe como.

Ai ai…

Povo, desculpa aí o desabafo, nem era pra eu estar falando dessas coisas aqui, mas é que fica isso martelando na minha cachola, eu fico remoendo o que eu tenho que fazer pra resolver essa situação, e nada me vem à mente…

Como eu disse no post anterior, preciso do tal mindfulness, porque ficar queimando neurônio não vai me ajudar muito não...

2 comentários:

isabelafigueiro disse...

Eu também escuto das pessoas ( amigos e familiares) que mudei muito desde que estou morando na Europa. Acham que eu estou direta demais e que isso nao é bom, que na verdade estou uma pessoa rude e sem tato.... mas eu tb prefiro o modo das pessoas daqui.
O que eu hoje em dia nao suporto quando vou ao Brasil é ter de dar dois beijinhos em pessoas que eu nao gosto, ou as vezes nao suporto.... só pela tradicao de voce encontrar as pessoas na rua ou em qq lugar e ter de cumprimentar com os tais beijinhos.
Hoje em dia o povo la no BRasil estranha que eu só cumprimento com a mao algumas pessoas, eles dizem : nossaque frieza....

Jaboticaba Preta disse...

Comigo é o contrario e não sei se é melhor não. Me contam tudo, com o máximo de detalhes possíveis. As vezes eu acho que é para terem certeza de que eu também vou perder o sono.
Uma vez minha mãe se desentendeu (foi bem feia a coisa) com um dos meus irmãos. Ela me contou aos prantos enquanto me felicitava pelo meu aniversário :P Depois minha irmã ligou tentando me acalmar. Ela iria me contar, mas no dia seguinte rsrsrs.