segunda-feira, agosto 20

Asas a cobras

A decisão de não ter filhos foi difícil de ser tomada, e ainda me pergunto: será que mais tarde vou me arrepender? Os dois principais motivos foram a minha falta de vontade de ser mãe, e o fato de eu não ter família por perto pra ajudar numa eventualidade. Um outro aspecto bem forte na decisão é que, querendo ou não, eu dou imensa importância a minha carreira e essa carreira envolve viagens a trabalho.

Não vou discutir aqui se uma eventual ausência materna frequente é impactante na educação de uma criança ou não, eu só sei que EU iria me acabar de depressão de ter que deixar o pimpolho em casa e ir sei lá pra onde – não importa se o pai fosse o melhor pai do mundo, se a avó estivesse em casa ajudando a cuidar, não importa nada: eu ía me acabar de depressão. Sei disso porque acompanhei o sofrimento do meu irmão, e mesmo sabendo que tinha a família toda para apoiar na época, ele acabou escolhendo por desacelerar a carreira, parar com as viagens.

Dito isso, eu, que decidi não ter filhos, tenho a vida dos sonhos de quem os tem.

Trabalho a 2 km de casa, nunca pego trânsito, o trajeto inteiro não tem um semáforo sequer. Meu bairro, que é novo, conta com uma creche da melhor rede da região, que é novinha em folha e foi dimensionada para atender a demanda de um bairro com 900 casas – por conta da crise estacionou nas 120 – ou seja, tem vaga sobrando. No trabalho, por conta de um projeto mal planejado e constantes pedidos de demissões ( ou seja, tem sempre um buraco no grupo pra cobrir ), todo mundo está “grounded” por mais de um ano e vai assim até 2014, ou seja, raramente viajo. Se eu conseguisse dizer não pra certos projetos adicionais, conseguiria sair antes das 6 todos os dias, em 7 minutos estaria na creche pegando o rebento. Ganho bem, meu marido ganha bem, minha casa tem espaço. Poderíamos viajar todos os anos para o Brasil pro bebê conviver com a família e ser fluente no português.

Asas a cobras.

Expliquei tudo isso pro meu diretor, argumentando porque eu queria um “international assignment”: boss, eu me preparei pra ser uma mulher de carreira e estou vivendo como uma semi-dona de casa – detalhe – sem o filho!

Me passa demais pela cabeça em mudar de emprego, o estress aqui está a níveis alarmantes, por coisa pequena. Nosso diretorzão member of the board está entrando em pânico com tanta coisa fugindo do controle dele, e ao invés de delegar, criar níveis de autoridade, ele acaba fazendo o contrário, quer ver tudo, analisar todo, é um inferno. Eu vivo com medo, aterrorizada, pois o cargo que antes era middle-management, virou um micro-management: ele espera que eu saiba cada detalhe, cada cent, cada porém de cada peça de cada fornecedor de cada membro do meu time. Não só esse é um objetivo inalcançável, mas o volume gigantesco de coisas que eu tenho que controlar criam 30 vezes mais oportunidades para erro. E pra piorar, comecei a sentir falta das viagens a trabalho, de ver fábricas em países diferentes, de ver como se trabalha em outros países.

Mas sabem o que sempre acaba pesando contra a procura do novo emprego? Não riam, mas são exatamento os motivos acima: trabalho a 2 km de casa, ganho bem, e posso adicionar que gosto dos meus colegas, gosto do meu chefe direto. Sem falar que tenho 40 dias úteis de férias por ano, e embora seja mais e mais difícil tirá-los ( esse ano estou indo só 3 semanas de férias em dezembro ), estão lá, previstos no meu contrato.

Dizem que Deus não dá asas a cobras, no meu caso deu. E é bom ser uma cobra com asas, o ruim é só não saber pra onde voar.

Blé, que analogia piegas.

2 comentários:

nynnabis disse...

Adriana, achei seu blog por intermédio de uma amiga. Me acabei de rir e me identifiquei mt com seus posts, principalmente na época da sua chegada à Holanda. Esse dilema carreira x família sempre pesou mt para mim, mas acabei optando por ter filhos. Ainda estou no início, e espero que possa balancear um pouco essas duas partes. Beijos pra vc.

Line disse...

Esse assunto esteve (e ainda está)martelando na minha cabeça há anos a fio. E quando você muda de país fica ainda mais difícil, já que muitas vezes temos que recomeçar do zero, e demora até nos estabelecermos por aqui.
Não posso dizer que ganho super bem, mas também não posso reclamar.
Pensei, ponderei, e achei melhor "arriscar", mesmo que ainda esteja um tanto insegura.
Na minha opinião deve haver uma forma de conciliar carreira e filhos de forma produtiva para os dois lados. Também morro de medo de não conseguir voltar a trabalhar, mas tenho fé que tudo vai dar certo. Conheço tanta gente que conseguiu, não sem passar por provações e privações, mas conseguiu! Verei em 2013.

Beijos.