quarta-feira, março 11

Hoje

Hoje cheguei, liguei para o colega, expliquei que a vaga está aberta, e me ofereci para marcar uma conversa informal entre ele e o meu diretor direto. Acho que esse é o meio-termo, uma ajuda light e educada.

Deixem eu explicar uma coisa. Para a maioria das pessoas, meu marido inclusive, a tal crise é uma coisa que acontece lá na televisão, quiçá seja uma fabricação maligna da CNN. Ali, ouve-se todos os dias que A, B e C estão demitindo, que a DOW está X pontos negativos, que as ações de tal empresona cairam X por cento.

Para alguns, a crise parece estar tão longe, mas tãããão longe, que a pessoa fica até felizinha dos juros variáveis da hipoteca estarem baixos, das ofertas do supermercado terem diminuido as contas do mês, assim sobre dindin praquela Plasma, ou pra uma viagem supimpa prum resort na praia.

A minha crise entretanto, começa no minuto que eu piso na minha empresa, e não me larga até tarde da noite, quando eu vejo as mesmas notícias que vocês na CNN.

Faliu o fornecedor de tetos, pânico pra achar outro fornecedor, trabalho dobrado, as coisas entrando nos eixos. Para mim situação mais ou menos sobre controle, mas para os 300 funcionários ingleses que acordaram um dia sem emprego e sem benefícios de "pacote de demissão", as dificuldades estão apenas começando. E eu os vi, na frente da empresa, tentando saber do curador, quando verão seu dinheiro em conta.

Na semana retrasada foi um fornecedorzão grandão do colega ao lado. De novo pânico, corre atrás de fornecedor novo, acha fornecedor novo, que é do meu portfolio aliás. A empresa está em "receivership", o administrador fica lá na porta da empresa que nem um guardião de história de Tolkien, nem uma fotinha dos nossos equipamentos nos deixa tirar. Enquanto isso, 850 empregados trabalham até a empresa ser executada em junho, e estarão também na rua. Gente que trabalha na linha de produção da empresa há 30 anos, gente que não sabe fazer outra coisa senão vulcanizar tapete.

Essa semana é o fornecedor ultra famoso e poderoso de plásticos. Às 9 da manhã, a planta na Suécia entra com pedido de falência. Às 11, a da Alemanha. Às 13 a da Bélgica. Eu fico nervosa seguindo o Google Alert, esperando a planta de onde compro, na Itália, entrar na dança. Até agora nada, mas virá, e eu já estou feito uma louca procurando substitutos.

Nessa história toda, duas coisas me afetam demais: começa com os empregados mais antigos, de produção, que estão perdendo seus empregos. Essas pessoas normalmente dependem pesadamente do salário, são única renda da família, tem que colocar comida na mesa, pagar prestação da casa... E a maioria nunca fez outra coisa na vida, nunca entrou numa internet pra colocar CV online, procurar emprego é ir em porta de fábrica, ou quando muito numa agência de empregos.

Outra são aqueles donos de empresas pequenas e médias, cujas empresas passam de geração pra geração. Normalmente, os donos dessas empresas são tão orgulhosos de seus bisavós, avós, que construiram a empresa do nada, sobreviveram 1 ou 2 guerras mundiais. E eles, vendo o boom da automobilistica na década de 90 investiram pesadamente pra conseguir certificações ISO/TS, em designers e técnicos, em Unigraphics e Catia, e no que mais a indústria automobilistica exigiu. Agora, a automobilística está quebrando, é um salve-se quem puder, esses coitados estão vendo empresas que sobreviveram guerras indo pro buraco em meses de crise.

Nós, compradores, monitoramos bi-semanalmente a situação econômica dos nossos fornecedores e potenciais fornecedores, e é triste ver empresas ótimas, perdendo crédito, perdendo crédito, até beirar a insolvência.

E isso me afeta sim, muito. Vai ver que, como o anônimo disse ali no post anterior, sou infantil. Porque gente madura e inteligente chega em casa, pega uma taça de Barolo, senta em frente à TV e fica criticando aquele bando de gente pessimista e louca que fala na CNN que ainda não vimos o pior. Ah, e claro, vão "carpe diem", porque "carpe diem" é bem cool. Maldito infeliz que teve a idéia de incluir a expressão, fora de contexto, nos filmecos de Roliúdi, e agora todo mundo acha que o legal é "carpe diem", sejá lá qual for o conceito torto que eles tem da expressão.

Agora deixem-me ir, carpeniar o meu diem, que infelizmente vai ser cheio de reuniões "crisis related".

8 comentários:

Fe disse...

Eu acho que a crise só é entendida quando sentida de perto.
Na minha área já vemos a crise de perto, mas não sentimos (na verdade os negócios estão tão bem quanto a um ano atrás, ou até melhor), mas o segmento do lado (ainda na área) está demitindo como louco.
A empresa onde comecei a trabalhar, a empresa que foi minha casa na Bélgica durante um ano e pouco já demitiu 50% de seus funcionários. Todos os dias recebemos algum email com rumores de que empresa tal que vai “belly up” em breve.
Não sentimos, mas vemos … e isso já me estressa. Não consigo me imaginar no meu da indústria automobilísca e ainda capaz de uma noite de sono … eu queria ser madura e inteligente e achar que a CNN está de conivência com o governo americano para passar uma idéia de desestabilização mundial.

Cris disse...

Acho que o anonimo do post anterior tentou fazer uma critica construtiva e voce nao gostou de alguns detalhes do comentario e esta sendo um pouco ironica no fim deste post.
Eh claro que precisamos nos preocupar com a crise que ja esta mesmo ai pra todo mundo ver. Mas tambem nao precisamos entrar em panico e pensar nisso a cada segundo. Pense de repente num plano B (acredito que voce ate ja o tenha) e tente viver o dia a dia com menos peso nos ombros. Eu sei que falar eh facil e colocar isso em pratica eh bem mais complicado mas se nao tentar tirar esse peso voce pode ficar extremamente estressada, o que nao eh bom nem para voce, nem para o seu marido, nem para os seus gatinhos...

ce disse...

A Cris tem razão sobre o comentário do anônimo, parece q ele falou com ótimas intenções.

E concordo com eles, o problema é que o trabalho parece ser a parte mais importante da tua vida, por isso tanto desgaste e por isso as pessoas ao teu redor parecem cegas quanto à crise.

Não é que elas vão chegar em casa e relaxar no sofá achando que a CNN está inventando tudo, é que essas pessoas provavelmente dão mais importância a aspectos da vida que não serão afetados nem com a falência de todas as empresas do mundo.

É isso que elas querem dizer quando tentam te tranquilizar, ninguém está negando que a tua (e de todo mundo) situação PROFISSIONAL está delicada.

Beijos!

A Dona do Bloguinho disse...

Adriana,

eu nunca comento, mas "hoje" vamos lá.

Eu te entendo. Te entendo 550% porque o Mr. Engineer comenta todo dia que ninguém está comprando, ninguém está vendendo, a economia está parada, mas os amigos olham e dizem "como assim", porque afinal a CNN é a CNN e empresa demitindo no Arkansas ou fechando na Dinamarca, é tudo tão longe, né? E tem o pré-sal, não esqueçamos do pré-sal e a Petrobras deu lucro recorde e não está tão ruim assim para o Brasil.

Mas aqui a indústria está parada, os projetos suspensos, os cortes de custos aumentando, cliente hipermegagigante exportador diminuindo a produção, as maiores empresas do país já mandaram muita gente embora, obra de empreiteira que tem obra no mundo inteiro adiada (e se tem algo que é forte no Brasil é empreiteira).

E a pessoa não entende, porque não pensa, que deve ter alguma coisa muuuito errada no mundo para shopping bacana do Rio de Janeiro estar desde a primeira semana de janeiro em liquidação com descontos de verdade, pela primeira vez na história.

Enfim, eu acho que você tem toda razão de estar preocupada e de planejar e de tentar se prevenir para o que pode vir por aí. Economizar dinheiro, ver do que realmente você precisa em termos materiais, fazer ajustes, o que você achar.

Mas também acredito que a sua vida não pode girar só em torno disso. No momento é um ponto central da sua vida e você pode tentar conter os possíveis efeitos de algumas variáveis, como fazer o seu trabalho da melhor forma possível, mas não tem como controlar tudo, até porque não depende só de você.

Então não é carpe diem, mas let it go a little. Porque como alguém mencionou, embora esse seja o seu momento de vida profissional, e a sua carreira seja uma parte fundamental de quem você é, isso não pode dominar a sua vida inteira. Tenta olhar um pouco de longe, como se você fosse um general no topo da colina enquanto a soldadesca vai para o pau. Eu sei que você é a soldadesca, mas ter um approach diferente pode te ajudar a não levar esses problems para o resto da sua vida. Levar problema do trabalho para casa não ajuda relacionamento algum.

Falo isso sem tentar te patronizar, mas porque já estive na sua situação há uns anos e tomei essa semana uma porrada profissional tão grande, mas tão grande que nem sei quando vou conseguir levantar do chão de novo.

Fica bem.

Bjs

Anônimo disse...

Olha, eu sempre leio blogs de brasileiros no exterior, desde o final de 2004. Ás vezes tenho vontade de comentar, mas já li tanta gente sendo tachada de invejosa, e blogueiro se queixando de “olho gordo”que na maioria das vezes eu desisto...
O que eu posso dizer sobre essa crise é o seguinte: tenho um primo que está voltando agora do Japão. Ficou por lá 5 anos, agora ele e a mulher perderam o emprego. Nesses 5 anos ele curtiu muito mais a vida do que eu. Estando no Japão ele aprendeu a esquiar na neve, fez vários esportes radicais, se divertiu muito. Eu só trabalhei. Ele também trabalhou muito, mas ganhavam bem mais também. O que ele perdeu com essa crise? Não sei, coisas materiais, viagens ??? Agora ele está voltando. Ia se formar em direito, não se formou. Não tem emprego, nem a mulher. A irmã dele se formou em administração, passou num concurso publico e teve mais um filho, que ele nunca viu pessoalmente. O que ele perdeu? O que não perdeu ? O Brasil é uma porcaria, mas por aqui tá todo mundo mais ou menos ajeitado, com suas vidinhas. Ele vai chegar e desestabilizar a vida da mãe e do pai, porque já avisou que perdeu dinheiro na bolsa, que está quase sem economias. Então qual o sentido disso tudo? È que a crise é uma crise diferente para todo mundo. Pra esse meu primo a crise chegou agora, para nós que ficamos no Brasil sempre houve crise, sempre vivemos apertado, não podemos viajar quando queremos, trocar móveis a cada estação do ano sem se endividar, etc. Acho (sem invadir sua intimidade me fazendo de “amiga”) que você deve tentar ver o lado bom de tudo, você está em um país muito mais justo com quem trabalha, tem suas coisas materiais, viagens, marido, gatos... e pode manter tudo isso com esse ou outro emprego... Desculpe-me por este comentário tão longo, foi só um surto, voltarei ao anonimato...

Marcia-Rotterdam disse...

Fácil falar em carpe diem quando não se está no caldeirão! Tem pessoas que adoram o jogo do contente ( quem leu Polyanna sabe o que é) mas como fingir que não é com você se esse é o seu dia a dia, empresas indo à lona, incluindo a sua, fornecedores endividados etc...o negócio é ir levando, e talvez da crise você saia até vitoriosa, dependendo de como você a administrar.
Eu - toc toc toc - ainda não ouço tanto papo de crise no meu setor, mas acho que o pior está ainda para vir.
O bom é que tudo passa, inclusive a crise.

Bruna disse...

Adriana, nao tenha tanto medo do facao. Pela maneira como escreve no blog, eu tenho a impressao que vc é gata escaldada, nao tem medo de arregacar as mangas e ir a luta e já alcancou vários degraus na sua carreira. Acho que isso é o mais importante. Vc recomecou a vida profissional num pais totalmente diferente, com uma lingua totalmente louca e chegou onde chegou. Acho que num momento de facao, eles contam sim quem tem menos tempo de casa, mas eles tb levam em consideracao a sua capacidade profissional e o quanto seria prejudicial perder um funcionario que é super capacitado e importante pro departamento.

Uma pergunta: aí na Holanda vcs pagam o seguro desemprego? Ou vc precisa ter algo privado (como a previdencia privada no Brasil)?

freefun0616 disse...

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