segunda-feira, agosto 23

O tico tico cá, o tico tico lá, o tico tico tico tico no fubá...


Quem mora no exterior frequentemente se sente meio extra-terrestre, não 100% integrado no seu novo país e já totalmente desadaptado do seu país natal. Eu sou uma dessas, mas nunca pensei que eu fosse me sentir tão alienígena, tão diferente dos meus conterrâneos numa das coisas que eu sempre adorei, mesmo quando ainda vivia na terrinha: viajar.

Sou brasileira, sempre serei, mas já não mais entendo a cabeça do turista brasileiro. Ando lendo muito o site Viaje na Viagem, onde o forte são também as dicas dos comentaristas, e juro, não me idientifico com nada, nada, nada. O pior, além de não me identificar, certas coisas eu realmente não entendo.

Compras. Que loucura é essa do brasileiro em comprar, comprar, comprar? O Riq tá lá falando de Punta Cana e metade dos comentários é perguntando se tem shopping center ou o que tem lá pra comprar. Descrevendo viagens pra NY, falam 1800 caracteres sobre as compras e 180 sobre todo o resto. Meu irmão mesmo, quando esteve em Luxemburgo e Paris em 2007, até aqui ele conseguiu encontrar uma "barganha imperdível" em um monitor de PC e uma câmera de video. E quem vê um brasileiro em duty free pensa que no Brasil não se produz perfume, e que a gente deve ser mesmo um povo muito cheiroso.

Modinhas. No Brasil, destino de viagem é também modinha. Quando eu era adolescente era Porto Seguro, nós paulistas acabamos com Porto Seguro. Daí veio Cancun. Em 1996 quando fui pela primeira vez, oficialmente Cancun recebeu mais brasileiros que americanos. Em épocas de real desvalorizado foi Natal, Porto de Galinhas e Fortaleza. Os mais descolados íam pra Jericoacoara e Praia do Pipa ( o que tornou esses destinos tão Praia Grande quanto Porto Seguro, porque todo mauricinho e patricinha acabava indo parar num desses lugares ). Agora Punta Cana é a nova Cancun, tem até vôo da Gol. Sério, um lugar onde você não pode colocar o pé pra fora do hotel com risco de ser assaltado, usurpado, esfalfado, sem falar que fora do hotel é tudo feio de doer, como pode o brasileiro ir pra Punta Cana ao invés de Praia do Forte ou Porto de Galinhas? Só pra encher a boca e dizer que conheceu o Caribe?

Buenos Aires. Sério pípol, Buenos Aires? Pô pípol, Buenos Aires???? Fazer o que em Buenos Aires? Uma cidadezinha simpatiquinha, que me lembra Itu ( tudo bem que passei 1/2 dia lá, de passagem ), cujo tão famoso bife de chorizo se come em váááários restaurantes de SP, e cheia de gente esnobe que se acha moooito superior aos brasileiros? Um povo que diz que eles são melhores porque são mais europeus? Meo, vamos comprar Alfajor no Pão de Açúcar, casaco de couro na Julian Marcuir, azeitonas no mercado municipal, e vamos dar um "eu passo" em Buenos Aires. Metade do site do Ricardo Freire ía ficar vazio, mas aí ele enche com destinos mais legais.

All-inclusive. Eles não são baratos, por isso quem pretente ficar fazendo mil passeios de dia inteiro o melhor é escolher um meia-pensão, mas a brasileirada exagera, quando vão pro all-inclusive não admitem sair do hotel por nada desse mundo! No Iberostar vi um tiozinho reclamando que pra fazer o snorkel na Papa-gente ele e os filhos íam ter que andar 40 minutos pela praia e que íam chegar lá com sede, que íam ter que comprar água ou refrigerantes fora do hotel, e que não é pra isso que se vai a um all-in. Pro brasileiro ir à um resort já tem uma conotação excepcional, pra um resort all-in então, é o suprasumo do luxo, enquanto pra gringaiada, é legalzinho mas é mais normal. Os brasileiros vão pro jantar caindo de chique, a gringaiada, até de shorts e tênis eu já vi ir. Bart tem o uniforme de a la carte de all-in ( tem que usar calças e cobrir os dedos do pé ): calça de linho, camisa de linho e Crocs. Sim, meu povo, Crocs.

 
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História Engraçada: a brasileirada me ouve falando inglês com o marido, vê minhas roupas Miss Etam, combinado com essa minha tez morena, acham que eu sou gringa. Nesses all-in, o dress code dos restaurantes a la carte normalmente é mais bonitinho ( pros homens a tal calça e sapato fechado, que o Bart quer morrer ) mas pro buffet até shorts pros homens é permitido. Eu estava no buffet com uma capri jeans, uma batinha e rasteira, e uma mulher toda "produzida" falou pro marido: não entendo esses gringos, viajam pra tão longe, vem prum hotem tão caro e vem com essa roupa "chinfrim" pro jantar ( ela usou a palavra chinfrim mesmo ). Ah, eu não aguentei, "minha senhora, o ambiente aqui é informal, até shorts é permitido, não há necessidade de se equilibrar nos saltos altos ( ela tinha um Luiz XV ), e esse hotel nem é caro, quem compra na Europa paga metade do preço". Ela ficou azul, coitada, mas não abriu a boca, perua deslumbrada.

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Fôlego. A viagem do turista brasileiro exige muito fôlego. É um tal de "13 capitais européias em 30 dias", "NY no feriado de 7 de setembro - 4 dias", "Disney e Universal em 9 dias (7 noites)". Imagine que nesse pacote de Orlando a operadora reserva 3 horas para compras em um outlet, e mais nada, nem o Florida Mall, queridinho da brasileirada está incluso. O de NY é de chorar: chega de avião 7 da manhã, vai pra Woodbury ( é um sábado e vai estar entupido e vc vai ter acabado de sair do avião ), vai as 4 da tarde pro hotel, 2 dias inteiros em NY, na terça você tem que deixar o hotel 12:00, vai pro aeroporto às 16, chega em Cumbica às 7 da quarta, à tempo de ir pro trabalho! O das capitais européias, você fica em Paris ( PARIIIIIIIS ) 1 dia e meio. É só mesmo pra falar que foi!

Passeios. Ah, os "passeios". Vejam bem, eu amo os "passeios", manja aqueles que o receptivo da agência te oferece assim que você chega? Então, eu sempre vou nuns "par deles". Eles nos pegam no hotel, levam pro barco/jeep/quadriciclo, você faz seu passeio, eles te trazem de volta. No Brasil tem ainda o passeio com bugueiro, que eu particularmente adoro. Não é barato, mas é simples, é fácil, você vai onde te levam. A gente sempre equilibra com uns dias de carro alugado pra conhecer "as redondezas" e uns dias pra curtir o hotel/praia, mas os brasileiros TEM que se ocupar com esses passeios todos os dias. Eles podem até procurar quem faça o passeio mais barato, mas a maioria tem medo de alugar um carro e certos lugares visitar "por conta própria". Não sei também se tem a ver com a qualidade dos guias turísticos ( livros ), aqui fora tem tantos que você com seu carrinho e um mapinha faz a festa, mas nem todos são traduzidos e publicados no Brasil.

E ó, é mútuo, a brasileirada também não entende muito o jeito de eu viajar. Não entendem eu querer "curtir o hotel" ( pra curtir o hotel eu fico em casa - hotel é só mesmo pra dormir ), acham que é frescura alugar carro, que ficar 12 dias em Orlando é exagero, que duas semanas num resort é demais… enfim… acho que eu agringalhei geral nas minhas viagens.

Cada um tem seu jeito de viajar, contanto que se viaje, né? O mundo é grande e belo pra gente ficar preso na toca. Mas ó, Buenos Aires não rola, viu. É forçar um pouco demais a vontade de conhecer o mundo.

10 comentários:

Bruno disse...

Sobre quase tudo eu até devo concordar com vc.

Mas qto as compras, é bem simples... imposto.

Qualquer coisa, até na Europa com o euro a 2,45 (mesmo que fosse a 3,50) ainda sai mais em conta comprar e comprar e comprar... até esmalte pra mulher vale mais a pena.

O Brasil tem a maior indústria de imposto do mundo. Eu não quero comprar nada lá.

Alice disse...

Uai, Dri... Eu e F queremos conhecer Buenos Ayres. Tenho um grande amigo que mora lá. Meu pai adora a Argentina (ele trabalhava com a cidade de Córdoba) e mamãe amou BA. Essa imagem "Itu cheia de chatos" não combina com minhas referências.

A Dona do Bloguinho disse...

Nunca comento, mas vou dar meu pitaco... :)

Compras - O Bruno disse tudo, imposto. Só para ficar em uma categoria, todo e qualquer item "cosmético" - perfume, cremes, maquiagens, esmaltes, etc - já entra no Brasil com 60% de imposto. Só de imposto. Fora os custos e os lucros de quem traz. É muito mais barato comprar fora e nem vou entrar na questão das roupas, eletrônicos.

Buenos Aires - gosto muito da cidade. O povo melhorou MUITO depois das seguidas quebradeiras econômicas. Acho um destino barato - o pacote quatro noites com certeza pe mais barato que quatro noites em Porto de Galinhas - a arquitetura da cidade é bacana, o clima - para mim que odeio calor - é agradável.

Resort all-inclusive - Odeio resort de qualquer jeito, prefiro muito mais uma pousadinha, ou coisa do gênero. Mas cada um tem seu público, né? Resort é muito bom para família com crianças, tem toda a infra-estrutura, "atrações" para todo mundo. E, na ponta do lápis, além de mais prático pode sair mais barato, dependendo do número de pessoas. Sim, acho que o pai que reclamou de ter que andar 40 minutos e pagar água e comida poderia ser mais aberto à experiência de fazer snorkel com os filhos, porque é isso que conta né? Mas entendo o lado de quem já gastou uma grana e não tá a fim de despesas extras.

Roupas - Na boa, acho que tem os dois extremos: brasileiro - a, no geral é sempre a mulher - que se emperua demais para o local e a ocasião, e gringo que vai no desleixo só. Porque eu já figura tomando café de pijamas, com o cabelo despenteado e cara de que nem escovou os dentes. Então tem o lado over e o lado esculhambado e eu, particularmente, acho que a sua capri com bata está no meio termo ideal.

Como viajar - Adriana, isso depende tanto da pessoa, da família, do momento de vida... Já fiz excursão com hora marcada para ver cada atração, já viajei com tempo sobrando, já fiz mochilão, já viajei com família, sozinha, com namorado, com galera. Já passei quase uma semana descobrindo uma cidade meio pequena e três dias frenéticos em Paris vendo tudo que dava porque eu só tinha três dias em Paris e andei feito uma louca para cima e para baixo, com guia na mão e um sorriso na cara. No fundo, é uma questão de oportunidade, de tempo e de dinheiro. Você faz o que dá. Ou o que quer. Minha mãe e as amigas sempre odiaram - e odeiam até hoje - excursões. Sempre viajaram por conta própria, alugando carro, pegando trem fazendo seu próprio roteiro, no Brasil (muito mais que ninguém é rico) e fora. Mas a idade chegou, uma com artorse, a outra com prótese no quadril, ninguém tem mais fôlego para arrastar mala do mesmo jeito que antes... e lá vão elas de excursão, reclamando, mas indo. Você ficaria surpresa com a quantidade de pessoas que viajam do "seu" jeito por aqui.

Em tempo: os guias no Brasil estão muito bons sim, e internet também está aí para isso.

Samantha disse...

A coisa do imposto é verdade!
Meu pózinho da Shiseido (que não vivo sem) que é 25,00/30,00 dólares fora, aqui simplesmente me cobraram alarmantes 175,00 reais!!!!!!!!!!
Então confesso: quando viajo faço estoque de maquiagem, creminhos, perfumes e afins! Compro mesmo sem dó. E sempre incluo um dia de compras na viagem.
Por incrível que pareça já vi roupa em loja boa da Holanda bem mais barata que no Brasil! É triste mas os holandeses me perguntam como é que brasileiro sobrevive com um salário merreca sendo tudo tão caro aqui...
Bjo

Simone disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Simone disse...

De todas as capitais européias que eu pude conhecer, nunca vai superar toda a diversão que eu tive em Buenos Aires. Comida, boa, barata, honesta e conhevamos deliciosa. As melhores baladas em que eu já estive, as pessoas simpáticas, o hostel mais animado, fiz amigos pra vida toda, realmente foi uma viagem inesquecivél, até hoje quando me perguntam qual foi o meu melhor destino eu ainda acho que foi Buenos Aires, mas fugindo as regras dos brasileiros, nem lembracinhas eu compro em viagens.

Ainda acho viajar no Brasil muito caro pelo que é oferecido, eu ainda prefiro um bom mochilão, mas tudo é questão de procurar o que te agrada mais, quanto aos preços não tem muito pra onde correr. Eu sou meio mão de vaca se acho que algo não é lá aquilo tudo, e não gosto de excursões porque eu sou meio antisocial pra andar com uma turma.

Jaboticaba Preta disse...

Lol adorei a parte da perua deslumbrada! A Argentina tem sim os seus encantos, mas tem muito "superior" que se acha ultima bolacha do pacote.

Láris disse...

Bruno, o lance do imposto sobre cosmético é verdade.. Mas vai pra Asutrália pra ver o que é imposto... Dar 25 doláres em um esmalte OPI é de matar! Ainda achei um colorama (ou risque, não lembro)mas custava 14 dólares. Nem morrendo, né?

Eu achava que viajar para fazer compras era o fim, até vir morar em um pedaço remoto da Ásia onde uma mísera cebola custa 1 dólar (americano) e pra fazer um tratamento de canal a gente tem que ir pra Austrália ou pra Bali.

No mais, concordo com tudo que a Adriana falou. Tem brasileiro que viaja pagando 10 e quer ganhar 20. Já viajei por muito canto e conheci alguns brasucas que me mataram de vergonha, ROUBANDO lençol de cama. Lógico que não é só brasileiro que faz isso, mas não sinto vergonha se um peruano fizer isso, né? Os outros são os outros!

Sobre all-inclusive: o conceito de all-inclusive no pacífico é um pouco diferente do conceito brasileiro. Quem paga all-inclusive achando que vai comer na hora que quiser e beber tudo em um hotel de Fiji, por exemplo, vai morrer. As refeições são boas, mas tem hora marcadíssima e bebida nunca é incluída (pelo menos nos 4 hotéis que eu fiquei não era, sendo um 5 estrelas). Vi um casal de brasileiro reclamando MUITO. Ou seja...

Bia Py disse...

Eu nao entendo como o pessoal é tao louco por compras, é só falar que mora no Paraguay que já tao perguntando cuanto custa isso ou aquilo.

pacamanca disse...

Estou aqui rindo de Buenos Aires. Também achei a cidade mais overrated que eu já visitei até hoje; não achei bissolutamente graça nenhuma. A comida é boa mas no Brasil também é; o espanhol deles é INCRIVELMENTE IRRITANTE; dizer que são esnobes é pouco. O ponto positivo é que pra quem ganha em euro é tudo tão barato que dá vontade de alugar um container, mas fora isso, pronto, já vi, tá vista, não pretendo voltar nunca mais.