terça-feira, janeiro 12

Aqui não é todo mundo rico

Extendendo um pouco o post anterior.

Sabem, eu sei que os brasileiros estão cansados da bandalheira política, da violência, da inflação, e de tantas outras coisas, mas sinceramente, acho que muitos tem uma idéia equivocada do que é a vida no exterior.

A grande maioria fala sobre a desigualdade social, e logo acham que aqui na Holanda por exemplo, onde a desigualdade é infinitamente menor, as diferenças não existem porque todo mundo ganha bem e tá nadando na grana. Doce ilusão. É como me disseram quando eu mudei pra cá, esse é o governo Robin Hood, que tira dos ricos pra dar aos pobres.

Se vocês olhassem meu salário bruto, ai ai, eu até suspiro de pensar. E embora o imposto seja escalonado, todos os meses 48% do meu salário não é depositado na minha conta. Entre imposto e o tal fundo de pensão, quase a metade se vai. E não volta. Não volta porque os benefícios também são escalonados. Por eu ganhar bem, não tenho direito ao plano de saúde subsidiado, tenho que pagar o mais caro mesmo. Se eu tivesse filhos, a creche ía puxar uma listinha de subsídio do governo, e baseado na renda familiar me daria de volta apenas 8% da mensalidade, enquanto famílias de baixa renda chegam a receber 60% da mensalidade de volta ( lembrando que a mensalidade de uma creche 5X por semana periodo integral custa na casa dos 1500 euros ). A igualdade social vem não de todo mundo ganhar bem, mas dos que ganham bem pagarem mais e terem menos direito a benefícios.

Quando mudei pra cá, com minha mente capitalista paulistana classe média, eu achei tudo isso muito injusto. Uma das coisas mais injustas pra mim era o lance de quem não poder pagar prestação ou aluguel ter direito a casas "sociais", uma casa patrocinada pelo governo com aluguel de conto de fadas. Eu pensava, ué, quem não pode pagar aluguel que alugue um apartamentinho mais simples, ou vá morar com os pais, o que não é justo é eu pagar uma fortuna de imposto pra esse fulano morar quase de graça. Mas a verdade é que holandês não mantém essas casas sociais porque são bonzinhos e querem que mesmo o pobre tenha certa dignidade ao morar. Balela. O que o povo aqui não quer é ver favela, porque é o que acaba acontecendo. E como diz um colega meu, o que era pra ser um benefício temporário, pra uma dificuldade na vida, você ser ajudado 3 ou 4 anos até conseguir se levantar e seguir em frente, vira permanente, depois que alguém entra no esquema de benefício, raramente sai. O que acaba meio que compromentendo a filosofia do negócio, porque se te acontece alguma coisa e você precisa da ajuda, meio que se lascou, porque a fila é imensa, aqui em Eindhoven passou dos 3 anos de espera. E quem consegue o benefício agarra-se com unhas e dentes, muitas vezes até chega o dia em que o cara tá ganhando melhorzinho, mas vai pagar 400 euros a mais de aluguel pra quê?

No meu teste de integração tinha uma pergunta: sua família tem baixa renda e seus filhos querem ir à piscina publica no verão. Se você não tem dinheiro pra comprar o passe, o que você faz? Era de multipla escolha, podia escolher vai à secretaria do clube e pede pra entrar de graça, não vai ao clube, pede um passe gratuito na assistência social da cidade. Eu escolhi não vai ao clube, afinal assistência social é pra coisa séria, e estava errado, o certo é ir pedir passe de piscina na assistência social. Eu fiquei indignada, e a professora disse que um adolescente excluído é mais suscetível à drogas e criminalidade, logo, paguemos passe pra piscina do coitado, afinal a gente não quer viver no meio de drogados e trombadinhas.

Nesses meus 7 anos eu já aprendi muito, mas ainda tenho um loooongo caminho a percorrer. Por exemplo, eu acho que o sistema da creche é péssimo. Em Portugal por exemplo me disseram que um "infantário" custa ao redor de 200 euros por mês. Que aqui fosse 500, mas que fosse o mesmo preço pra todo mundo. Não pode pagar? Não tenha filhos, ué. Todo mundo tem que morar em algum lugar, todo mundo tem que ir ao médico, todo mundo tem que estudar, então até concordo em subsidiar tudo isso, mas filho - ninguém depende de ter filho pra poder viver. Aí meus colegas me dizem que eu sou esnobe, que só os ricos teriam filhos, que pobre também tem sonho e o direito de ser feliz.

E aí eu lembro da música da Jani e Erondi ( ou da Sorvetão e do Conrado ), aquele trecho: pensam que a pobreza é lixo, e que rapaz pobre não tem coração.

Mas então, falei, falei e não disse nada, né? Mas só pra fechar o post mais bonitinho, eu ainda não gosto de pagar tanto imposto. Estou me escalpelando de trabalhar porque quero ser promovida no ano que vem, mas todo esse trabalho vai me gerar um dinheirinho que acabará mais na metade na mão do Balkanende. Mas quando eu penso que aqui não tem favela ( só as casas sociais ), que aqui não tem (quase) trombadinha e que o povo nunca ouviu falar em sequestro-relâmpago, penso que é melhor eu continuar com a minha contribuição involuntária. Afinal, é muito mais fácil estar na minha posição, a de quem não gosta mas pode pagar, do que na posição daquele que se não receber ajuda do governo não pode pagar o aluguel.

Agora por curiosidade, quem mora em outro país, quanto se paga de imposto por aí?


13 comentários:

Luiza disse...

Oi Dri!
Trabalho na Belgica (Flanders).
Aqui os impostos tb sao assim. Ate choro quando vejo o valor do meu salario bruto e o que entra na minha conta.
Sobre as creches sao mais baratas.
Eu sinto e que ha um sentimento meio que de revolta da parte dos flamengos (em geral), que dizem que pagam impostos para manter os estrangeiros e a Valonia.

Marcia-Rotterdam disse...

Quando trabalhava na Irlanda pagava uns 22 por cento!! Você acho que pagaria uns 40 por cento. Mas a Holanda tem ajuda social infinitamente melhor que a irlandesa. Só esse negócio de creche que é muito mal resolvido, na Suécia são quase de graça. E lá tem até creche 24 horas!
Acho sim que o modelo social funciona, mas ainda assim tem muito "asociaal" por aí e muita gente que abusa dos direitos.

Camila disse...

Por aqui metade do salário do meu marido vai embora em impostos. A assistência social, apesar da imensa choradeira que se vê por aí, nao é nada má. Os assistidos têm seu aluguel pago pelo governo, se quebra algum eletrodoméstico, é reposto pelo governo, jardim de infância pra criancas a partir de 3 anos é de graca, quem faz parte do plano de saúde do governo tem que pagar apenas 10 euros por trimestre (e reclaaaaamam por conta disso!) e por aí vai.
Assim como vc, nao podemos ter plano de saúde do governo, ou seja, morremos todo mês com mais de 600 euros de plano de saúde, mas temos que desembolsar por toda e qualquer coisa que precisarmos, sendo que o reembolso vale apenas pra despesas maiores que 4000 euros.
Fervo de raiva quando vejo na tv gente que opta por viver às custas de assistência social, tendo um filho atrás do outro pra receber Kindergeld (e as criancas vao crescendo malcuidadas).

Marina disse...

Sempre reclamei de quanto eu e meu marido sempre pagamos de impostos aqui até ir morar no Brasil dois anos atrás.Lá pagávamos 27,5%, ou seja, comparando com a Holanda era para dármos pulinhos de felicidade já que é bem menos do que pagávamos aqui. Só que não se esqueça que no Brasil você não vê o dinheiro do seu imposto sendo investido, você tem que pagar além do importo pedágio se quizer andar em estradas decentes, tem que pagar plano de saúde se quizer ser atendido rápido e bem por um médico, tem que se pagar por segurança pois a segurança pública não presta de nada... por isso parei de reclamar da Holanda pois conheci o outro lado da moeda. Concordo com você que creche na Holanda é um absurdo e que deveriam fazer algo para mudar isso e que há outros pontos que no meu ponto de vista precisavam ser revistos, mas "overall" agora posso dizer que me sinto menos lesada pagando 48% aqui do que 27,5% no Brasil.

Goldman disse...

Aqui no Canadá, eu pago uma das faixas mais baixas de impostos e entre o provincial e o federal, no final das contas o desconto é de 38%. Em outras províncias, pessoas que recebem o mesmo salário chegam a pagar 42%. Abraços

Suellen disse...

Oi Dri!
Meu nome é Suellen,moro em Fortaleza, terra do sol(rsrsrs),mas ultimamente estava pensando em morar, estudar e trabalhar na Holanda e queria muito um contato na Holanda, será que você pode me ajudar?
Por favor se puder me ajudar, ficarei muito feliz, pois nunca morei fora, nem fui para o exterior! Aguardo seu contato!
Obrigada!

Amor Sem Fronteiras disse...

Hoi Dri,
Descobri seu blog nesses dias de neve,tenho me deliciado com seus textos, em muitos deles tbm me encontro...Faz quase 7 meses q estou na Holanda (Zevenaar), sou do interior de SP.
Acho doloroso o valor do seguro de saude aqui ( e sinceramente nao tenho boas experiencias com o atendimento)...
Dikke knuffel,
Shirlene Heezen

myiska disse...

oi Adriana - disse sim. tb gosto mto dos seus textos , sempre aprendo a respeito da vida ai. são descrições mto sinceras,minuciosas,esclarecedoras. tb gosto dos comentários de quem mora ou morou ai.

Alice disse...

Para constar: o seguro subsidiado (ziekenfonds) acabou há anos (1o de janeiro de 2005). Hoje em dia só existem planos "particulares". O freguês escolhe se paga o plano básico obrigatório (basispakket) ou um dos planos incrementados (aanvullend pakket).

Marcela disse...

Aqui na Inglaterra depende de quanto ganha mas no minimo eh 20% ou 40% pros high earners isso eh so income tax mas ainda tem 11% de seguro nacional.

Tim Balabuch disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Iuro Veloso disse...

http://www.administradores.com.br/mobile/artigos/carreira/por-que-executivos-deveriam-lavar-banheiros/74887/,

Ola,

Para a galera que leu esse texto, peço que leiam este que compartilhei no link acima.
Então é preferivel ter todo o salario na conta e não ter uma assistência digna do governo? Aposto que na Holanda, VC capitalista, pode pode andar com seu equipamento eletrônico na rua sem preocupação.

Escola Criarte disse...

Olá..
Sou de Brasília e sonho em ir morar na Bélgica, ou Holanda...Queria montar um berçário/creche (que é o que faço aqui)....mas tenho receio de não haver público, já que o ensino público funciona aí.